sexta-feira, 30 de julho de 2010

CRÔNICA

DE MILAGRE A SAFADEZA...

Lêda Selma

A cidadezinha, “Benza Deus!”, charmosa em sua simplicidade, como qualquer cidade interiorana, gabava-se de seu patrimônio: praça florida, matriz, coreto, moçoilas espreitando a chance de se desmoçoilarem, a rotina, às vezes, rebelando-se para sair à vida, e o riso farto das casas escancarado nas janelas abertas desajeitadamente.
Toda cidade tem seu padroeiro e seus assessores. “Benza Deus!” carecia de um. Afinal, a comunidade sempre se regozijou da fartura de santos que, dia e noite, assistia cada filho necessitado.
Não se sabe como, se eleito ou nomeado, São Benedito foi o escolhido, apesar de sua popularidade e prestígio questionados. Na linhagem das autoridades divinas, estava mais para senhoria que para excelência. De sua vida pregressa, sabia-se muito, e tudo o abonava para as atividades de padroeiro. O impasse? Sua impopularidade. E as línguas viperinas deduziram: ele era de cor (uma curiosidade simples: branco não é “de cor”? Nem amarelo, albino? “De cor”, só preto?! – ih! falei a palavra proibida...!), pois é, e além disso, diziam, o santo não era boa pinta, nem carismático, não possuía um currículo milagreiro grandioso, menos ainda, uma assessoria portentosa... muito mixuruca a escolha, indício de insucesso, vaticinavam.
Nada de preconceito, juravam as beatas. Porém, que a preferência de quase todos recaía sobre um santo municipalmente mais importante e de uma popularidade a toda prova, ah! isso era verdade!: Santo Antônio, o casamenteiro, o mago dos achados e perdidos (concorrente de São Longuinho?), além da bicorporeidade que os eclesiásticos sempre lhe atribuíram (estar em dois lugares simultaneamente). Santo de fama nacional e internacional, o preferido das solteironas recicláveis e das viúvas e descasadas saracoteantes e reaproveitáveis. Um santo quase eclético devido à sua polivalência; “pau pra toda obra”, asseguravam os entendidos em habilidades santísticas. Santo de casa, no caso, faria, sim, milagres.
Enfadados com tanta polêmica, transferiram (dizem, coisa do prefeito), aleatoriamente, e sob a alegação de interinidade, toda e qualquer responsabilidade religiosa municipal para Santo Antônio. São Benedito ficaria em descanso, a ver navios, não, não, nuvens.
Santo que se dá ao respeito não dorme em serviço. Padroeiro, então, precisa mostrar competência e fazer jus à bajulação dos devotos. E ai do santo que se fizer de vivaldino, para usufrutar de uma folguinha!
É, vida de santo é dureza: horário integral, com prorrogações e horas extras, acúmulo de funções, plantão permanente, enfim... E o detalhe: sem remuneração, gratificação de incentivo, adicional de insalubridade, salário família, férias, abonos, aposentadoria ou qualquer direito ou vantagem. Queria ser santo? Então, aguenta, ora!
Num desses dias bem agitados, o prefeito, sisudo e autoritário, colocou em polvorosa a prefeitura:
– Deixei as chaves do carro sobre minha mesa e as danadas sumiram.
A prefeitura ficou às avessas devido ao tal desaparecimento que, logo, espalhou-se pela cidade. Todos partiram, então, à caça implacável das chaves. Um corre-corre antológico. Um abrir e fechar de gavetas, armários, e outros esconderijos. De repente, alguém se lembrou do santo. O Antônio, claro! Horas antes, acionaram-no, às pressas: sumiço do manto do padroeiro. Pensaram até em aprontação do Santo em função de seu afastamento. Ah! detalhe: o manto possuía um bolsinho interno onde o padre guardava a coleta semanal. De procura em procura, o desaparecido, inopinada e estranhamente, apareceu, e o santo invocado, o Antônio, ganhou ainda mais notoriedade, enquanto Benedito reavia seu belo e útil manto.
Bem, voltemos às chaves! Procura aqui, acolá e, do nada, o sacristão chega esbaforido e com o sumido às mãos:
– Outro milagre, achei, achei as chaves do prefeito! Mas o santo, desta vez, cobrou pelo milagre. O problema é saber quem milagreou: Santo Antônio ou São Benedito?!
– Cobrou? Como? – indagou-lhe o prefeito.
– Ora essa, as chaves eu encontrei no bolso do manto de São Benedito. E do dinheiro, ó, nem notícia! Por acaso, a polícia vai prender os santos envolvidos, vai?
– Não, até porque seria pecado. Melhor, então, ficar o dito pelo desdito, pronto! – concluiu o prefeito...

3 comentários:

  1. Eu sei onde o dinheiro foi parar... Para não conto para ninguém.

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  2. Risos!!!
    Estava precisando...
    Eta duplinha: o preto e o branco.
    Excelente!
    E o dinheiro?
    Coitado dos Santos!
    Nem eles escapam, mas o prefeito...
    Sei não...
    Amei, amiga!

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  3. Pois é! Concordo com a Genaura (saudade de você, menina!). Antigamente, o primeiro suspeito era sempre o mordomo, mas mordomo não é profissional com tradição no Brasil, é possível que nem exista mais (agora, os poderosos têm "secretários" e "assessores"). Agora, suspeito pra valer há sempre de ser um político!

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