sábado, 28 de janeiro de 2012

Diário da Manhã - 29/1/2012

O TROCO DO PÁROCO

Lêda Selma

Tudo pronto para a cerimônia. Padre aparamentado, igreja lotada, bordada e rebordada de flores, cores e brilhos e a nata social a exalar as mais variadas fragrâncias. De repente, em prantos, irrompe a noiva, brancamente vestida, e anuncia que o noivo sumiu, evaporou-se. Comoção geral. Vergonha municipal. Duas famílias tão tradicionais...

Dias depois, arrependido, o noivo faltoso marca nova data para o enlace, com garantia de presença. E a igrejinha decorada, novamente, com sedas, linhos e rendas para a esperada celebração.

Ao som de cornetas, a noiva. altiva, decidida e... vingativa. Sim, ainda sob forte efeito da rejeição pública sofrida, abandona o noivo fujão, em pleno altar. Nova vergonha para os anais da municipalidade. E a fúria incontrolável do padre, a proferir impropérios vários para todos os gostos e desgostos.

Não tardou tanto, o casal, pacificado, remarca o casamento, sob juras efusivas de comparecimento. De novo, pompas, caras e risos. A tais alturas, maledicentes.

Noiva e noivo reconciliados, amor e paixão renovados, desejos personificadas nos olhos, nas bocas, nos esconderijos mais secretos... Tudo pronto, enfim. Tudo? Bem, quase tudo. Falta alguém. Imprescindível à cerimônia religiosa: o padre. “Santo Deus, cadê o padre?!”, perguntam os noivos aparvalhados, os pais da noiva desolados e a assistência em transe.

O pai da noiva ordena: atrás do padre, já! E não foi difícil para a “comissão de busca e apreensão” encontrá-lo. Tampouco, sua famosa garrafa de cachaça. Com a “inseparável” em punho, e totalmente trolado, o padre trata logo de dar as boas-idas aos chegantes:

– O que é isso, invasão dos sem-cerimônia?! Porque não me lembro de ter convidado vocês para nada. O quê?! Casamento? Que casamento? Ora, tomem tento, se aviem: porventura, estou com cara de quem vai a algum?! Pois não vou. O ausente da vez? Eu, em carne, osso e batina, ouviram? Estão pensando o quê?! Marcam, desmarcam, vão e voltam, casam, não casam, recasam? Pois sim! Quem quiser se casar procure, de preferência, um idiota para a celebração, porque este aqui, ó, nem escoltado pelo diabo! Não arredo a negativa da boca por nada. E xô, xô, xô! Vão baixar noutro centro; o meu já está lotado e infestado de espíritos. De porco, naturalmente.

Ignorado o ataque colérico-alcoólico do padre, tentam rebocá-lo até a igreja para a oficiação do matrimônio. Em vão: recusa definitiva. Então, alguém sugere: quem sabe, os noivos conseguirão convencê-lo? Bem pensado!

O casal se desabala em correria. Ao vê-los (e, ainda por cima, tortos e duplicados), o padre pragueja. E, com as palavras e o corpo completamente alheios à lei do equilíbrio, encara-os com olhos chispantes, embora diminutos e sonolentos, busca o apoio de seu dedo indicador e libera a voz indignada:

– É de livre e espontânea vontade que estão aqui para contrair fuga?

– Núpcias, padre, núpcias, corrige, em cochicho, a mãe da noiva.

– Pois eu os declaro fujões até que a morte os separe – e esparge cachaça sobre os dois, como se os abençoasse –. Pronto. Agora, sumam de minha ira, e que o Senhor os acompanhe, pois precisarão muito da companhia e da proteção Dele, caso voltem aqui, ou em minha igreja, para me atazanar a paciência, meia vezinha que seja, entenderam?!

Não sei se o tal padre gosta de poesia. Alguns leitores, sim. E até me sugeriram que publicasse, aos domingos, meus poemas. Está inaugurado o espaço:.

POETA APOCALÍPTICA

O mundo, desarrumei:
desordenei horas,
desalinhei verdades
e desmontei tratados.
Marcas, apaguei todas:
desmanchei divisas,
depurei mentiras
e desmarquei saudades.

Enlouqueci o espaço:
estrelas, pus no chão.
No céu, terra e poeira.
Na lucidez dos mundos remexidos,
todos os sonhos, agora, misturados.
E me fiz mais que louca:
poeta apocalíptica!
Abri minhas cancelas
e encurralei a vida.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Diário da Manhã - 22/1/2012

UMAS E TANTAS NO CONSULTÓRIO MÉDICO

Lêda Selma

– Primeiro paciente da esturricante tarde – e que paciente! –, sujeito simplório e objetivo, logo me encarou sem acanhamento:

– Tá pra mais de meia hora que tô de prontidão esperando o senhor. A serviceira tá toda parada e eu aqui com a desimpaciência me cavucando a cabeça.

– Pois bem, vamos tentar recuperar o tempo perdido. Em que posso ajudá-lo?

- Dor nas costas e sono sumido, doutor, é meu incômodo.

Para segurança de todos, exames complementares. A clínica não indicava qualquer problema, mas nunca é demais um pouco de cautela, acautelou-se o médico.

Uma semana depois, e com a mesma pontualidade e impaciência, retornou o paciente ao consultório, ostentando os resultados:

– Pode me dar a sentença, doutor! Meu incômodo tem cura ou é caso perdido?

– O senhor está é com uma saúde porreta, parabéns!

– Como é que é, doutor? Não tenho nada, nadinha? Mas como? Perdi todo esse tempão aqui, já por duas vezes, gastei um dinheirão com os tais exames, desenterei minha paciência, peguei fila pra tirar guia, e o senhor, assim, sem mais nem menos, me dá a notícia assim, com a maior calma? Se avie, doutor, e me arrume uma doencinha que seja, desde que não me comprometa. Não pega nem bem eu ter ficado tanto tempo na sala de espera e depois chegar aqui e o senhor dizer que tá tudo bem, e me deixar sair sem uma receitinha, ora! Por favor, doutor, pra tudo há um jeitinho... E então?!

Certa vez, uma senhora terceirona na idade, carregando o peso dos quilos, batom vermelho a exibir uma boca com notáveis ausências dentárias, chega ao consultório e começa a responder às perguntas de praxe. De repente, olhar enigmático, embora decidido, disfarça uma recusa:
– Idade, doutor? Não domino muito bem tal assunto. E, pra complicar, ando se esquecendo de muita coisa. Problema de memória. Vamos pular isso e passar pruma pergunta mais fácil.

Sugestão aceita, outras perguntas rotineiras e mais um momento inesperado:

– Meu estado civil? Quer dizer, se sou mulher de alguém? – indaga a setentona, já com a voz adoçada de malícia, espichando para o canto do olho um olhar cheio de gulodice. – Ah! sou casada não! Sou é viúva pra mais de dez anos. Meu marido, o falecido, tibum! Bateu o prego na cerca. Mal súbito. Bem, voltando ao meu estado de viuvez... tô disponível, desimpedida e novinha em folha. Também, tanto tempo assim, sem servir ninguém, né doutor? Mas ainda se lembro – e como! – de muita coisa e, se precisar, tô com a lição em dia, é só tirar a prova. Queres...?

Coisas do arco da velha! E haja paciência para o doutor...

– É só um checape. Estou bem. Uma dorzinha de cabeça, de quando em vez, que costumo atribuir à má digestão, ao estômago, enxaqueca, mal funcionamento da vesícula ou do intestino.

– Bem, vamos aferir a pressão...

– Ih! meio desregulada, mais pra alta; culpa da taquicardia ou da falta de ar, bronquite asmática, sabe?

– Certo, vamos aferir a...

– Tenho sentido umas agulhadas no pé da barriga, pernas doloridas e inchadas; pode ser ovário, talvez rins, embora minha circulação não seja lá das melhores...

– Sei, vamos aferir...

– Umas tonturinhas, doutor, me incomodam um pouco; taxa de glicose um pouco elevada, quem sabe? Ah! calafrios, sudorese... bom, sintomas da menopausa, nada preocupante.

– Vamos...

– Ruim é meu apetite; e, às vezes, sinto certa fadiga, palpitação, mal estar generalizado, coisas do estresse, claro!

– Então...

– Me peça uns exames, doutor, questão de rotina, pois estou bem, a não ser o cansaço da vista e uma fisgadinha no ouvido vez ou outra. Mas tudo sob controle, isto é, quase tudo: a insônia atazana meu sono e a afta, minha língua, tanto que, doutor, quase não consigo falar...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Diário da Manhã - 15/1/2012

CURIOSIDADES À PARTE...


Lêda Selma


Ah! não vou mesmo, de jeito maneira, nem que a coruja ria, o galo chie e o elefante mie! Tem graça Ir ao consultório de um dermatologista e deparar-me com aquela pele desfavorecida de viço, marcada por acne, manchas? E endocrinologista farturento, ou seja, com mais carne do que osso, mais banha que espaço? Nem pensar! Isso vale para o cardiologista. Para este, no máximo, manequim tamanho ‘M’! Agora, pneumologista arfante, com tosse, ixe! Pernas, pra que te quero?!

Não se trata de brincadeira, apenas, constatações como a do angiologista com veias enormes ramificadas pernas afora. Convenhamos, no mínimo, constrangedor! Mas de causar descrença, digno de desconfiança, o médico ler o laudo e, só depois, ver o RX, a tomografia, a ressonância... Feiíssimo, hem, doutor?! Que Deus me resguarde de suas vistas, amém! E psiquiatra com tipo e trejeitos de paciente? Bem, fazer o quê?! Afinal, onde encontrar um sem tais características? Se não houver outra saída, ó Cristo, por piedade, proteja minha cabeça!

Nenhuma implicância com a classe médica, não, não, nada disso (Deus me segure o ímpeto!). Tanto que mudarei o foco. Alguém se entregaria aos cuidados de um dentista, ou seja, odontólogo (mais chique e moderno, apregoam), cujos dentes escuros ou avariados lhe sorrissem um riso amarelo? Francamente! E quem contrataria os serviços de um advogado que, de cara, todo prosa e cheio de propriedade, alardeasse: sou adevogado! Confiança zero! E só mesmo o santo protetor dos ouvidos aviltados para salvá-los de um colapso auditivo fatal!

Pois é, que cada qual capriche em sua estampa de apresentação. As aparências, às vezes, enganam, porém, não raro, também revelam. E espantam.
Curioso: todo profissional carrega suas peculiaridades e ‘tiques’. Um exemplo, a mania do cardiologista: apalpar, com os dedos, o pulso de quem está ao seu lado. Proctologista, ginecologista... Hã?!

Dizem as línguas viperinas, aquelas de palmo e meio, que o cirurgião já cumprimenta o paciente com o bisturi na mão. As queixas do doente? Depois de combinada a cirurgia, recebem atenção, ora! Eu, hem?!

Mas há os exageros, ah! e quantos?! Minha mãe – hum, que saudade! – contou-me que, nos confins do sertão baiano, certa senhora, acometida de forte dor no joelho, marcou hora no consultório do ortopedista. Atendente mal-humorada, espera longa, calor a dilatar poros e impaciências, e a dor, ali, imperativa, a zanzar pelo joelho, a escorregar perna abaixo, enfim, um sofrimento de dar dó! Finalmente, a consulta. Sentado, o médico, sisudo, olhar acocorado sobre a ficha, inicia a anamnese, leigamente conhecida como perguntação; em seguida, levanta-se para examinar a mulher que, indisfarçadamente surpresa, percebe-o manco. Aí, pronto, tudo desanda! E foi tanto o desandamento que, entre muxoxos e lamúrias, ao sair, ela joga no primeiro lixo os pedidos de exames. Aturdida, sua filha aborda-a: “Que maluquice é essa, mãinha?!”. Maluquice?! Maluca eu seria se entregasse meu mal àquele médico sem competência, pois continuaria manquejante enquanto vida tivesse. Assunte: se ele, sequer, conseguiu curar sua própria enfermidade, vai curar a minha, vai? Oxente!”.

E não parou por aí. De outra feita, um homem chega ao centro cirúrgico, todo desconjuntado. De imediato, é chamado o cirurgião e, logo, toda a equipe apronta-se para a cirurgia. O acidentado olha para o doutor, na realidade, o tal ortopedista, e nota seu andar pender para um lado; uma cisma cutuca-lhe a mente. Súbito, vê outro médico, espécie de assessor do cirurgião, capengando e, então, desesperado, começa gritar: “Tirem-me daqui, senão, pelo andar da carruagem, ou melhor, dos doutores, o próximo manco serei eu. Socorro!”.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Diário da Manhã - 8/1/2012

DISTRAÇÃO QUE SE PREZE...


Lêda Selma


– E então, querida, aprovou o serviço do encanador?

– Ah! sim, aprovei! Um homem estranho, mas bom de serviço.

– Estranho, mas bom de serviço... como assim?

– Esquisito, entende? Diz e desdiz, aperta aqui, afrouxa ali, abre, fecha, torce, destorce e tudo quase ao mesmo tempo...

– Sei. Mas você disse que ele é bom de serviço...

– E é mesmo. E de preço também.

– É? E quanto ele cobrou?

– Um cafezinho. Pediu, mas nem tomou. Por causa da gastrite.

– Então, por que pediu?

– Foi o que perguntei, e ele me explicou: “força de expressão”, alguma coisa assim, disse-me.

– E você, o que fez?

– Repreendi tal indecisão e devolvi o café à garrafa, ora! Fazer mais o quê?

– Você não deu a ele uma gorjeta, querida?

– Espere aí... Ai meu Deus, não entendi a sutileza do homem. Depois que ele enjeitou o cafezinho, falou alguma coisa como gorjeta, trocados, assim, de passagem. E passou. Então, o de graça não era tão de graça nada...! Eu precisa ter-lhe feito uma graça... Que cabeça a minha!

– Bem, não há mais o que ser feito, paciência! Essa sua distração...

– Muito pior a daquela nossa antiga vizinha...

– Vizinha...?!

– Sim, a tal que o marido morreu enquanto ela viajava, ora! Vou reproduzir o que a outra vizinha, comadre da recém-viuvada, contou-me:

“A comadre, em transe, descabelou-se, aos gritos. A vida acabava de lhe enredar num tremendo espinhel... Havia saído de casa no início da semana, para um compromisso familiar, com previsão de volta para o domingo e, antes mesmo de abraçar todos os parentes, a notícia a alcançou, puxando-a para casa com a maior urgência. É
que seu marido, o compadre Zé Pio, sem dar um pio, pifou. De vez. Culpado? O coração, por causa da voltagem, há muito, oscilante. Retorno dramático, o da pobre. E, de repente, ela se lembrou da palavra viúva. Sim, porque sempre lhe pareceu ter cheiro de mofo e gosto de ferrugem! Aí, então, um Deus me socorra o desgosto!”.

– Você está me ouvindo, querido?

– Com muita atenção. Prossiga.

– Pois é, a vizinha, entre meios risos e palavras inteiras, prosseguiu com a narração:

“A chegada a casa, traumática e encharcada de lágrimas. A vista do quarto do
casal, dolorosa. Mas o jeito, preparar-se para as novas funções impostas pela viuvez. E rumar para o cemitério. Com amargura e acompanhada de lamúrias modelo “Ai, meu Deus!”, “O que fiz para merecer isso?”, “O que será de mim?”, “Como viverei sem meu marido?” , entrou na sala do velório e se precipitou, aos prantos, transtornada, com a dor também vestida de preto, sobre aquela inércia em forma de corpo. E, dele, a saudade já sentia falta, tanto que não se conteve”:

– Oh! Zé Pio, sou pura consumição, meu velho! – lamuriava a coitada.
“Comadre... – eu a sacudi. Em vão. – E ela”:

– Você não cria modos, hem, seu incorrigível!? Sempre aproveitando de
minha ausência para aprontar alguma, né?! Não podia, ao menos, esperar minha volta? Mal virei as costas, punhalada! Por que fez isso?!

“Comadre, levante-se, eu insistia”.

– Espere aí... O que aconteceu com você, marido? Está tão diferente,
esquisito...!

“E apalpava o rosto lívido do defunto, com mãos frias e desentendidas,
atarantadas e trôpegas. E eu a implorar-lhe: escute, comadre... Mas ela continuava”:

– Tem algo estranho em você, algo que não é seu... Claro! O bigode! É, onde, arranjou isso, homem de Deus?! Você nunca teve bigode! Algum disfarce?

“Sossegue e venha, comadre”...

– Sossegar, sossegar, como?! O Pio resolveu partir disfarçado. Minha
Nossa Senhora! Sinto que tem sirigaita na jogada. Cadê a infernenta, cadê, cadê?! Ah! se eu pego essa bisca...!?

“Vai dar confusão, comadre, levante-se”...

– Esse disfarce é, sim, pra enganar alguém! Mas quem? Confesse, ande,
homem, vamos, confesse! Sou eu a enganada? Se for, mato você sem piedade!

“Chega! Saia daí, comadre, já! – perdi a paciência”.

– Só depois que ele me disser onde arranjou esse bigode e por quê?!

“Comadre, comadre – sacolejei-a, com força –; acalme-se, e olhe o
vexame! Todos estão espantados... Venha, você errou de velório, criatura! Compadre Pio está é na sala ao lado. E sem bigode!”.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

POEMAS DE LÊDA SELMA

FÚRIA POÉTICA



O poema arregalou a boca
e mostrou-me terríveis mandíbulas,
enquanto seus dentes rilhantes
trituravam-me as palavras.

E os estilhaços dos versos
fugiram desarvorados,
em rastejos se lançaram,
e sumiram dor adentro.



DESAPONTAMENTO



Esbarrei nas palavras doidivanas
que vagavam, às cegas,
pelos labirintos do poema torto,
cavando riachos e túneis
em metáforas insaciadas.

Indultei as palavras
que saciaram loucuras
em tonéis de vinholetas
e nas barrentas águas,
que dançavam sobre a noite,
banharam-se entorpecidas.

Amansei as palavras doidinsanas
com a solidão da flauta
escondida displicente
nas artimanhas do vento.
E elas, ofegantes,
ocuparam o escuro
que guardei tanto e fundo
para minhas emergências.



RISCO



Fechei-me em teias
e nos fios de minhas sinas
estrangulei-me.

Mas sobrevivi ao rufar de asas.

Fecundei silêncios
e desatei a solidão
que me repartiu em nadas.

E sobrevivi ao cadáver de tantas dores.



NÃO TE DAREI POEMAS



Não te darei poemas presos em ataúdes
nem concebidos à luz de morte-cor.
Quero-os livres, mesmo doloridos,
quero-os vivos, ainda que insanos.

Não te darei poemas amortalhados
nem serei camélia em noites torturadas.
Quero fincar-te o poema na carne,
quero o ferrão do verso a devastar-te.

Quero poemas de desejos fartos
para te dar em noites libertinas.
Quero suores, rubores, amoras,
e em teu corpo, odores de meus rastros.
UM PATUSCO SACRISTÃO

Lêda Selma


Certo jovem, após realizar seu sonho de atuar como sacristão, passou uma chuva na igreja. Para estabelecer um pouco mais de intimidade com São Jorge, vistoriou o santo, mediu-lhe a espada e, nesse bole, rebole, assustou-se com um cofrinho que parecia esconder-se atrás da imagem.

– Espertinho, hem, Jorjão, escondendo a abastança, né?! E eu precisando tanto dessa gaita... Um empréstimo... e por que não? Sim, só um empréstimo. Juro pela alma de minha ex-quase-sogra, a nem um pouco saudosa dona Valentina, mãe da Alma (sempre estranhei este nome, cruzes! Até lhe dei um apelido: Coração), moça dotada de formosura e de virgindade, por quem tive um xodó de passagem. Mas que conversório é este, homem, vamos à facada, isto é, à espadada, não, não, ao empréstimo. O senhor me favorece com sua bondade e eu lhe retribuo com generosidade: uma espada nova – por conta dos juros – quando lhe devolver a mufunfa. Grato pelo consentimento, sim, quem cala... Sua bênção, sua licença e agradecido pelo empréstimo!

Tempos depois, numa noite de pele suada, o sacristão, tombado não só como patrimônio da cachaça, ouviu batidas na porta. E sentiu arrepios:

– Abra a porta, homem, sou eu, Alma, lembra? A Alma, da finada dona Valentina, já esqueceu?

“Danou-se: é ela, a injuriada alma da maldita, por quem jurei e, de propósito, nomeei minha avalista. Não abro e é nunca o ferrolho da porta – decidiu, de si para si, tropegando nas raquíticas palavras. Passado o susto, encorajou-se, e decidiu enfrentar o suposto fantasma:

– Não me lembro de nada. Vai-te embora, alma desgarrada! E que o diabo te leve. Meu negócio é com São Jorge, e não aceito procurador!

Passados alguns dias, um antigo vizinho, de nome Jorge, resolveu procurar Sacristiano, pois, semanas antes, haviam combinado matar um porco, daqueles engordados à meia:

– Ô de dentro, é o Jorge. Tô aqui com o facão em punho pra matar...

“Pronto, minha alma foi de vez pro brejo! Hum! que cheiro é esse... Será de alma esturricada?! Jurado de morte é o que tô. E o santo resolveu se abalar até aqui pra adiantar o serviço, recebendo, pessoalmente e com sangue, a maldita dívida” – deduziu, baixinho, enquanto se recompunha do tremendo susto. E tentou enrolar o lá de fora:

– Se amofine não, meu santo!. Olhe, volte pro sossego do seu altar que amanhã, nem que seja montado no rabo do primeiro sol, chego com o dinheiro. Agora, vá cuidar dos pedidos dos seus devotos, vá!

Preocupado com o sumiço do sacristão, mais para sacripanta, o vigário pediu a um amigo do procurado que descobrisse o sucedido.

– Sacristiano, ocê taí, sujeito? Aqui é o Jesus...

“Agora, sim, tô deveras perdido, e sem chance de salvação! O próprio Jesus, em pessoa e voz, me cobrando a dívida. Já sinto em definitivo minha alma churrascada no inferno! Mas, perdido por um...” – pensou com voz rateada. O jeito, ganhar tempo. Então, foi incisivo:

– Olá, Senhor Jesus, vossa bênção! Olhe, não vou abrir a porta porque a noite tá danada de feia, raivosa e traiçoeira, não convém lhe dar moleza, né? Vai que um raio mais atrevido se aproveita de meu descuido... O amigo é santo, tá protegido, mas esse pecador aqui, não. Mesmo assim, é melhor se recolher. Nada de confiar demais no próprio taco, pois os raios não respeitam ninguém, pergunte a seu Pai! Então, assunte, meu irmão, volte pros seus aposentos no paraíso, que, pelo andar das cobranças, não demora, a gente se topa por aquelas bandas. Já tô quase de posse da passagem... Agorinha mesmo, se bobeio, tinha embarcado, e o senhor já teria notícias minhas. Bastava eu ter deixado o santo – São Jorge, meu credor – entrar, com aquela enorme espada, que, a estas horas, já tava a caminho do além, todo espadaçado. Vou lhe propor um trato, Jesus: já que tô jurado de morte, pago a dívida diretamente pro senhor, sim, mas só quando chegar lá, combinado? Diga isso ao Jorjão.

Um 2012 de muitas renovações, muitos sonhos robustos e emoções em profusão, leitor.