domingo, 18 de julho de 2010

SEGREDOS DO ARAGUAIA...



Lêda Selma




Julho é tempo de Araguaia. Neste mês, deixo-me seduzir pelos encantos do rio e reverencio toda a sua majestade durante uma semana, cheia de xodó com o namorado de tantos e tantos goianos.
Dos mosquitos, não gosto. Aliás, detesto-os. Tanto, que me preparo para combatê-los com um arsenal quase bélico: roupa à prova de “porvinha” e de muriçoca; repelente especialmente manipulado para bani-los de meu perímetro humano; luvas, telinha para a cabeça, meias de grosso calibre, enfim. “Um astronauta”, “o monstro das águas”, “espanta mosquito”, “fantasma do Araguaia”, “ET”... não me poupam elogios, os companheiros (ah! sempre tão carinhosos...!).
Assim, imune às picadas dos malditos, desato a fantasia, dou passagem à emoção e mergulho no fascínio misterioso e plácido do Araguaia (mergulho no sentido conotativo, pois, sequer, coloco os pés em suas águas: sou “fluviófoba”; perdoem-me o arremedo de neologismo, mas foi o jeito...). E a bordo do barco Xambioá, motor 25, vou tecendo intimidades com o rio, trocando cochichos secretos, mornos carinhos e silêncios espreitados, apenas, pelas serestas dos pássaros ou pela altivez das garças, estátuas brancas fincadas às margens daquela imensidão azulcristalina.
É disso que gosto: do passeio de barco. De deixar meus olhos tocarem toda a beleza arregalada naquelas águas andarilhas. De deixar a imaginação rastrear o tênue vai...e...vem dos peixes. De me encantar com a acrobacia dos botos. Com o zurzir do vento. E, com o dia já em arribada, ver o sol, vermelhejante, escorregar pelo barranco e debruçar-se sobre o rio para o banho de fim de tarde. Ah! um espetáculo que concentra magia, solidão e deslumbramento!
Pescadora, sou também. Pesco tudo: de garrancho a candiru. E até arraia. Enorme. Fui apresentada a ela, assim, de supetão, por um anzol competente, quando a vara, em total tremedeira, parecia intimidar-se com tamanha presença. Estranha flor dançarina de veneno exposto no ostensivo caule, a pescada. Lutadora, não se rendeu. Bravia, impôs-me a excitação e o cansaço como preço pela conquista. Dizem, de carne saborosíssima e saudável. De minha parte, não digo nada, pois todo tradicionalista que se preze não sai da rotina gastronômica tão facilmente. Além do mais, nem gosto tanto assim de peixes nem de seus similares.
Mas não só de arraia, garranchos e azulões vive esta pescadora. Pesquei quatro mandubés e um barbado. Um deles – acho que o mandubé –, mesmo bem fisgado, lutou o quanto pôde e, quase abatido, já na beirada do barco (isso é que foi o pior!), fugiu, debochadamente, com isca, dignidade, tino de sobrevivência e tudo o mais. Requebrando de forma acintosa, abanou-me o rabo como testemunho de minha derrota. Felicidade de peixe, decepção de pescadora. Ainda não me conformei com tamanha desfeita.
É assim que gosto de curtir o Araguaia: navegando por sua lassidão. Alcovitando a lua que despenca sobre o dorso do rio e, sorrateira, quase de joelhos, curva-se para beber uns goles de água. Jogando sonhos, feito sementes de estrelas, por entre espumas e estrias do majestoso rio. Vendo o barco desenhar, sobre o silêncio das águas, cardumes imaginários. Sentindo a saudade colear no rastro de lembranças tantas. É assim, também, que gosto de sentir o toque do Araguaia: do alto do Rancho Apolo (onde o deus-Sol extravasa sua soberania), deitada na rede, lambuzar-me de segredos da noite, do silêncio e do rio...

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