domingo, 25 de julho de 2010

POEMAS DE LÊDA SELMA

DE DOR E DE PERDA....

A meu filho, Júnior

Dói muito, filho,
a certeza do dia
sempre vazio de você...

A noite a se imiscuir
em meus sonhos sem viço
e tão carentes dos seus...

Dói muito, meu menino,
esta tristeza envelhecida
que agoniza e não morre...

Teu riso no porta-retratos,
a transpor o sol
para se aquietar nas noites.

Dói, e como dói, meu anjo,
este tênue condão de vida.





SAUDADE


Saudade é candeia
baça e sem azeite,
ferida de silêncio
em peito espoliado,
momentos idos
na solidão dos rastos,
rebelião de dor amotinada.

Saudade é guizo
de ventos viajores,
sonho flagelado,
sumiço de estrelas,
noite a esvaecer
na sombra do abismo
que seviciou a lua
e esfolou a madrugada.





RUÍNAS



Há um poço de fundura íngreme,
um abismo em teu olhar.
Um vazio metálico, punhais
e um medo mais profundo ainda.


Rios escondem luares
e ruínas de noites, em teu olhar;
e meu olhar penetra a solidão
que neles busca sossego.

Um jeito triste de névoa
e turbulências de dores
desamparam teu olhar,
que não sobrevive ao meu.

Há um poço de fundura íngreme,
pedras de corte,
farpas e chispas, em teu olhar.
E um abismo entre nós.



VOLTA


Esta clareira aqui, sob o peito,
tem vazios, valas, lonjuras
e fósseis de amores tardios.

Nem mais ouço os alaridos
de minha carne chamuscada
sobre as peliças de outrora.

Mas sinto o rodopio do vento
grimpar ladeiras e flancos,
com a saudade nos ombros.



VINHO-SAUDADE


Gosto de vê-la sempre à deriva...
Vergão, cilada, estrepe, corredeira...

Gosto de seus trajes de ciprestes
e de suas mãos de vento e açucenas.

Se tumba, guarda sonhos putrefeitos;
se acervo, esconde espólio de amores.
Saudade é vinho não envelhecido,
mas entornado em noites de abrolhos.




TRAVO



Este amargo no meu verso
é dor deixada ao relento,
é mofo de amor arredio,
resto de coisa estragada.
Este cheiro no meu verso
é hálito de beijo dormido,
é suor de desejo magro,
sobra de amor confinado.
Este frio no meu verso
é saudade amanhecida,
é silêncio a mascar vazios,
restolho de amor puído.
Este travo no meu verso
é mofo, é hálito, é frio,
revés, avessos, saudades,
despojos de amor sozinho.

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