segunda-feira, 5 de julho de 2010

O SARAPATEL E A CALIBRINA

Lêda Selma


Lá pras bandas do Rego do Padre, sim senhor! Foi lá que ela, a amaldiçoada, se amoitou, sorrateira que nem serpente, num descaro de botar medo.
A mal-vinda lavou-se, como se quisesse livrar-se de seu próprio cheiro, fitou-se na risca d’ água, que a espiava trêmula e gelada, ajeitou os cabelos esfiapados, como se precisasse melhorar a aparência, e caminhou ladeira acima. Na mão esquerda, uma ceifa enferrujada e de corte afiado.
Medrolino, o sacristão, fazia pouco, acometeu-se de mal-de-engasgo, após a última colherada de um sarapatel apimentado que, escarreirado, escapou pela contramão, e o fez tossir tosse graúda e espichada. E, ainda com a voz sumida e o pasmo do susto entalado, agradeceu a ingerência divina antes que Deus confundisse demora com ingratidão:
De repente, batidas esquisitas na porta e outras tantas no peito do sacristão, que tremeu feito graveto seco à revelia de lufadas de vento.
– Boa-noite, senhora! Procura alguém? – indaga Medrolino, assustado com a visão horripilante que lhe salta à frente.
– Boa-noite! Posso entrar? A demora é miúda, e há muito serviço a ser executado. Falando nisto, o senhor é o sacristão? Vim dar-lhe as boas-idas.
– Boas-idas...? Boas-vindas, a senhora quis dizer – interrompeu-a o embasbacado sacristão.
– Bem, falo com o auxiliar paroquial, o sacristão?
– Não. Nunca fui. Nem quero ser. Por total falta de vocação. Capricho de Deus, sabe? E se é assim que Ele quer, quem sou eu para provocar seu calundu...
– Me disseram que o senhor...
– Disseram errado. Mentiram. Se enganaram. Nem sacristão, nem auxiliar! Nenhum dom pro ofício. Mas se acomode, e venha provar do meu sarapatel e beber um golinho de leite-de-anjo (cruzes! Nada de anjo, pode empolgar a nefasta), isto é, um gole da calibrina.
– Leite-de-anjo...! Se eu apressar o serviço e o senhor tomar um voo sem escala, ainda hoje poderá beber leite com eles...
– Voo...? Agradecido. E leite, nem o de mãe. Recomendação médica.
– Não posso desperdiçar tempo, mas aceito uma provinha do sarapa...
Medrolino pensa rápido: sarapatel, fervendo de pimenta, à fatídica. E uma talagada de calibrina. Até ela se estrebuchar, achará uma saída. Pensamento em ação e a dama das trevas, com pimenta a lhe sair por todos os ossos, cambaleia, sufocada, até arriar.
Com os pensamentos ainda em correria, ele decide livrar-se da traiçoeira. Recolhe num saco de estopa o esqueleto da desconjuntada figura, e o faz despencar ribanceira abaixo.
Aliviado, liga o rádio, toma uma talagada da tal calibrina, desaba sobre o sofá, e dorme. À beira da meia-noite, sobressalta-se: batidas na porta. A contragosto, atende-a. Uma formosa mulher, de silhueta esbelta, cabelos e pele cor de tamarindo, encanta-o.
– Estava perdida por estas bandas, ouvi a música... O senhor é...
– O sacristão. Com muito orgulho. Pra mais de trinta anos. Por excesso de vocação. Um capricho de Deus, sabe?
– Hã... sei...
– Aceita um sarapatelzinho supimpa e um golinho de calibrina? Preparo em meio tempo. Uma mão lá, outra cá. E até lhe faço companhia.
– Sem pimenta, por favor! Ah! não bebo em serviço!
Não tarda, ela olha o relógio e desiste da última colherada do sarapatel. Levanta-se, estende a mão ao rapaz, e lhe sorri uma despedida:
– Obrigada e até logo. Ah! bom sono! Com os anjos, tomara...
– Oxente, até logo...?!
O moleque Traquinildo, malino e curioso, avisou o padre e os vizinhos: da janela, deparou-se com Medrolino, todo arroxeado, olhos enormes e bacentos, boca arregalada e mãos crispadas no pescoço. No chão, perto da caneca, rastro de pinga e um velho prato esmaltado, cheirando ainda a pimenta fumegante.
Uma mulher esbelta, de cabelos e pele cor de tamarindo, surgiu do nada, e cochichou ao padre em tom misterioso:
– Mal-de-engasgo, descambado em morte. Um tal de sarapatel, o assassino. O danado empacou que nem jegue em refugo: nem ia, nem vinha. E o pobre do sacristão, foi-se.

Um comentário:

  1. As aparências enganam, Medrolino(que nome engraçado e apropriado) que o diga, não é mesmo Lêda?

    ResponderExcluir