sábado, 25 de setembro de 2010

Crônica publicada no Diário da Manhã, sábado, 25/9/10

AH! DESISTI!


Lêda Selma


Nenhum dos meus pretendidos aceitou a candidatura (que seres mais politizados, gente!). A Árvore, melindrada, repetiu-me seu desgosto por eu ter revolvido a história da maçã, naquele famoso escândalo do Paraíso, no início do mundo, em que se envolveu a Macieira. Achou que não foi bom para a classe, ativar a memória do povo, sempre tão acomodado ao esquecimento. Repudiou, injuriada, minha alusão ao outro escândalo, com a mesma personagem, no caso Bruxa versus Branca de Neve e os sete anões. Garantiu-me que nada mudou de lá para cá, ao contrário, a bruxa continua solta e os anões (os da era moderna), não faz muito tempo, mostraram sua performance: contas bancárias obesas, crias da corrupção. E continuou: hoje, os anões viraram gigantes e aperfeiçoaram suas estratégias, pois usam como transporte da carga (a propina), além da tradicional mala (para as mulheres, também bolsas grandes), as meias e a cueca. Sim, a cueca, nicho e transportadora, até pouco tempo, de um único passageiro. Cuecas e meias superlotadas de propinas, quem diria...
Bom, todo esse discurso arvoriano, com fortes conotações corporativas, deixou-me cabreira e com uma dúvida interrogativa: máfia de verde...?! Será?!
O Muro, ah!, esbravejou tanto contra minha ideia que, logo, reconheci: não entendo nada de política. Ele, candidato? Jurou-me: nem pensar! Todavia, apesar de seus protestos convertidos em recusa, muitos foram os leitores que se prontificaram a oferecer-lhe apoio. Ponderaram que o muro ostenta status de utilitário – utilidade pública e privada – e importante papel social a cumprir. Portanto, votos garantidos. Nem assim, o turrão abdicou da recusa, e minha proposta foi para o beleléu. Paciência!
Reconheço: ele tem lá suas razões, motivadas por grandes mágoas e ressentimentos antigos, já expostos. Além do mais, teme ser relegado, apenas, à condição de muro de aluguel, como certas legendas, o que poderia resultar em grandes chateações, como a venda ilegal de seu corpo. Resmungou, protestou, lamuriou... e só faltou buscar consolo junto ao colega israelense, o das lamentações. E, apenas para safar-se de minha insistência, entendi, sugeriu-me a candidatura da Praça. Aceitei e não me fiz de suplicada: tentei.
Que decepção! A Praça, ainda mais cheia de si que os outros, também não aceitou. Argumentei que, por ser do povo, poderia representá-lo com mais legitimidade e inspirar maior confiança ao eleitor, pois está sempre ali, de bancos abertos, acolhedora, democrática, ao alcance de todos, o que, por si só, já a diferencia dos demais candidatos. Não a convenci. Alegou alguns temores, e ressaltou o maior: ficar à mercê do descuido, caso não vença o pleito. Sob o pretexto de que tem um nome, isto é, umas flores e bancos a zelar, arrematou o assunto: de nenhum modo, correrá o risco de se transformar numa ilha cercada de mato, de marginais e de descaso público por todos os lados. Perdi meu tempo e meu vernáculo. E saí com a rábia entre as perdas.
Desisto de vez! A política não é minha raia nem minha laia. É um campo carrasquento no qual não devo me imiscuir: por falta de competência, malícia e, sobretudo, paciência. Não mais lançarei candidato, pronto!
Como nenhuma de minhas investidas pró-candidaturas excêntricas resultou em sucesso, resolvi dar mais uma olhadela no Horário Eleitoral Gratuito. Hilário! E, dizem, meus indicados são excêntricos...?! Pois sim! Assistam ao tal programa. Cada figura...! E as caricatas promessas eleitoreiras? Não há careca que resista à indignação dos ouvintes e telespectadores (que o digam as pesquisas)!
O povo quer se irritar com as tentativas de embromação? Horário Eleitoral Gratuito! Quer ter a inteligência subestimada? Horário Eleitoral Gratuito! Quer rir? Horário Eleitoral Gratuito. Desopila até o pé. Sim, aquele que está sempre atrás...!

domingo, 19 de setembro de 2010

ALGUNS POEMAS DE LÊDA SELMA

Silêncio é vastidão do nada
e poesia, um colibri verdourado,
com hálito de primavera,
a polinizar desertos e escuridões.
...................................................
O amor que irrompe da estiagem
é abrupto como um insulto:
acende lareira na alma
e carboniza o coração.
......................................................
Araguaia de aruanãs, de saudades ao relento,
do pescar ágil das garças, das gaivotas em alvoroço,
das madrugadas sozinhas, deitadas ao léu, n’areia,
sob algazarra de estrelas.
Araguaia abençoado, alma dos Carajás.
.............................................................................
Esta ferida vermelha,
bem aqui, do lado esquerdo,
seria só cicatriz
se dor não fosse ainda.
...........................................................................
O tempo é pressa. A espera, passo.
Se corro, canso. Se ando, paro.
A vida é fio. O sonho, laço.
Se amo, arrisco. Se desisto, parto.
...........................................................

No silêncio do olhar ausente
se esconde a dor e refugia o medo
e morre o sonho que se fez finito.
............................................................

sábado, 18 de setembro de 2010

Crônica publicada no Diário da Manhã, sábado, 18/9/10

A RECUSA DO MURO


Lêda Selma



O leitor Bruno Andreatta Baldacci, atualmente em Turin, Itália, terra de seus ascendentes, pediu-me, por e-mail, que republicasse a trilogia em que sugiro alguns nomes para candidatos ao executivo ou mesmo ao legislativo.
Semana passada, foi a vez da Árvore. Todavia, revendo sua vida pregressa, lembrei-me da macieira e de seus maus antecedentes, como falta de decoro ambiental por envolvimento em corrupção (o escândalo no Paraíso, em que a maçã foi usada como propina para corromper Adão) e em tentativa de homicídio (quem não se lembra da pobre da Branca de Neve...?!). Resultado: ficha suja, o que me fez cassar a sugestão. Aí, pensei: quem sabe, o Muro!? Eis a segunda crônica:
O Muro, que eu julgava um potencial candidato a qualquer posto político, detestou minha ideia e indispôs seu nome ao pleito de 2010. Diga-se, rechaçou-a veemente, sob a alegação de não possuir as características tão comuns à maioria dos candidatos: voz de falsete, olhar de negaça, boca beijoqueira, sempre à espreita de um inocente rostinho infantil, sorriso fácil e ambíguo, promessas estapafúrdias... Além do mais, aludiu a certos ressentimentos em relação a alguns candidatos, seus antigos torturadores, já que se considera vítima da ditadura praticada por eles, em nome da democracia, o que reputa contraditório e infame. Meio desentendida, tentei inteirar-me de mais detalhes, e ele foi taxativo: em tempos passados, disse-me injuriado, sofreu bastante com o desrespeito contra seu espaço, assim, na maior sem-cerimônia. Quantas vezes, afirmou-me, não teve o corpo agredido e mutilado por propagandas demagógicas!? Quantas vezes, insistiu, não se fez porta-voz de promessas eleitoreiras e impraticáveis, mesmo à revelia de seu próprio desejo ou consentimento!? Quantas vezes, assumiu cores e legendas partidárias que não as suas!? E tudo de forma impositiva, lastimou! E não foram poucos os momentos em que ficou branco de pasmo, confessou-me. Felizmente, desta vez, comemorou, a lei coibiu tais ações e ninguém poderá mais usá-lo como letreiro, cúmplice ou propagador de poluição visual. Sente-se, portanto, vingado e, mais ainda, aliviado.
Assim, por todos os motivos abordados, está descartada qualquer possibilidade de candidatura. Melhor permanecer silencioso como convém a um autêntico muro, concluiu. Não que tenha índole murista, apesar do parentesco linguístico, não, não, garantiu-me. Até porque desempenha, ou já desempenhou, várias funções (algumas nem um pouco ortodoxas ou louváveis, convenhamos): Muro de arrimo, Muro de testa, Muro das lamentações, Muro de Berlim, Paredão... E o pior é que lhe arranjaram até uma companheira: a Muralha da China!
Também, mesmo a contragosto, já amuralhou muita gente – fazer o quê?! – arrematou conformado. Contudo, por via das incertezas, abriu uma fresta para o caso de, em algum momento, optar por romper o silêncio: se o fizer, que seja com poesia, “Poesia em doses”, assegurou- me (ufa! quem ficou aliviada fui eu, claro!). E o silêncio rompeu-se: lá na Alameda Ricardo Paranhos, onde a poesia brotou num murão azul-amarelo. É, o Demóstenes gosta de poesia!
Mas o Muro tem outras queixas graves: não raro, serve de bode-expiatório à polícia, a assaltantes e a carros desgovernados; recebe murros e chutes de casais em desarmonia, e empurrões de bêbados em atrito com o equilíbrio; intoxica-se com drogas e tabaco e, o mais humilhante, funciona como mictório masculino e vomitório coletivo. Ah! e as pichações, então? Obrigam-no a poluir cidades, a proferir gritos de guerra, a emitir opiniões odiosas, a propalar protestos descabidos, a paparicar governantes, a desafiar gangues adversárias, além de ser usado como xingódromo (é cada palavrão...!) Triste sina a sua, lamentou desconsolado.
Bem, como ele, o Muro, sente-se vítima, na plenitude do termo, e exausto de tanto cultuar a esperança e padecer com a falta de perspectivas, acredita que está mais para espectador do que para candidato. O jeito, compreender tamanha frustração e revolta, e aceitar sua negativa.
Já estava descrente quando ele, após matutar:“Tente a Praça. Ótima candidata!”, sugeriu-me. Hum... a Praça...?! Sei não... Será?! No próximo sábado, saberemos.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 11/9 - DM

CUIDADO COM O VOTO
QUE O CANDIDATO É DE BARRO


Lêda Selma


Um leitor brasileiro, de ascendência italiana, Bruno Andreatta Baldacci, residente em Turin, Itália, enviou-me este e-mail: “Cara escritora Lêda Selma, sei que aí no Brasil é tempo de eleição e de enganação. Será que a “dama de ferro” será mesmo presidenta? Cara escritora, há muito tempo, ainda aí em Goiânia, li umas crônicas de sua lavra sobre uns candidatos esdrúxulos como árvore, praça e morri de dar risada. Temos um grupo divertido aqui em Turin e todo sábado acessamos o Diário da Manhã para ler seus artigos que quase sempre são muito hilários. Você se chateará com o meu pedido para republicar essas crônicas, porque assim os outros da turma também poderão lê-las?Se puder me atender, fico grato. Se não puder, coloque as mesmas em seu blog e nós o acessaremos”(...).
É uma alegria atendê-lo, Bruno. Eis a primeira crônica da trilogia, diga-se, bem atual, sem nenhum vestígio de senilidade ou caduquice.
Já houve quem preferisse votar no poste. Pois é, o poste, sempre ereto, altivo e observador, embora silencioso e impassível. Uma preferência defendida sob consistente argumentação, levadas em conta a postura, tradição e potencialidade do candidato, cuja rigidez é algo concreto e notório. Tido como de utilidade pública, o poste é um trabalhador de luz cheia, solidário e solitário, cordato e servil. E, também, adepto da infidelidade posicionária: pouco se lhe dá ser de direita, de centro ou de esquerda e, menos ainda, alvo de fisiologismos ou de atos fisiológicos. Problema mesmo só com o álcool. Não que ele seja afeiçoado a umas doses, não, não, é o álcool dos motoristas que, não raro, o vitima com sérias contusões. Mas, aí, a lei do retorno se propõe logo a vingá-lo. E depois, como na política, fica sempre o dito pelo não dito...
Apesar de hipoteticamente habilitado a disputar uma vaga, tanto no executivo como no legislativo, ao que parece, ele, o poste, não colocou ainda seu nome à disposição de nenhum partido. Caso o faça, penso, será pelo PSOL – questão de analogia, ora! Luz é luz! –, e o sol não nasceu para todos?!
As possibilidades de candidaturas são fartas. Alguém, outro dia, pensou em lançar a árvore, pelo PV, claro!, o que, a boca larga, causou zunzunzuns e blablablás. Talvez, por causa da tal sombra e água fresca tão pretendidas por muitos... De minha parte, reputo-a, boa candidata. Essa coisa de casca grossa é relativa: todos temos as nossas. É, a árvore tem lá seu potencial e, além do mais, já detém imunidade ecológica e decoro ambiental. Hum... espere aí, decoro...?! Pensando melhor, nem toda árvore... Segundo informações bíblicas, por exemplo, a Macieira não goza de antecedentes recomendáveis. Não foi ela uma das envolvidas naquele escândalo sobre o pecado original, ao fornecer a propina com que a Serpente aliciou Eva para corromper Adão? Que quarteto, hem?! Um escândalo sem precedentes. Um detalhe importante: os culpados foram punidos com expulsão imediata e sumária, do Paraíso. Decisão do Todo-Poderoso, que não admite impunidade. E mais: sem as lengalengas ou as embromações das CPIs.
Ah! se a Polícia Federal estivesse por aquelas bandas, à época, os infratores seriam presos e indiciados por formação de quadrilha. E, por lá, seria diferente: a Justiça Divina não os soltaria!
Ih! fui cutucada por uma curiosidade: como se chamaria a inusitada operação? Pensei em Operação paradísica, ou Operação porno-maçã ou, então, Operação desmancha-prazer. Operação, cirurgia, tanto faz. Importante, em qualquer tempo ou circunstância, é enxotar a impunidade, mais robusta a cada dia aqui e acolá.
Que outra árvore se candidate, tudo bem! A Macieira não! Tem fama duvidosa e ficha suja. E não foi a primeira vez que a matusalênica senhora usou uma de suas filhas para fins suspeitos. Quem não se lembra daquela Bruxa trambiqueira que ofereceu maçã à inocente Branca de Neve? Baita tentativa de homicídio!
Depois dessas lembranças, acho mais prudente um outro possível candidato. E por que não o Muro? Por enquanto, só uma ideia...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

POEMAS AVULSOS

O PÃO NOSSO...


Lêda Selma


A boca silencia a fome
que também foge dos olhos
e pousa nas mãos vazias.

No milagre do grão, o trigo;
no vigor da espiga, o milho;
no calor da fornalha, o pão.

O pão que engole a fome,
o pão que sossega a dor,
o pão que acolhe o sonho,
o pão que renasce a vida.




PRECE DO DESALENTO


Lêda Selma


– Óia, Deus, encarecido,
Te suplico, neste instante,
um bocadinho que seja
de Tua imensa bondade
pra desiludir a miséria,
esperançar a labuta,
arrefecer a descrença
e botar a vida nos prumos.

– Nesta prece encardida
de precisões sem tamanho,
Te peço, Sinhô, meu Deus
– se por graça merecer
de Tua bondade tanta –,
um pedacinho de terra
(coisa pouca, meia manta)
pra extrair dela o grão
que vai encorpar o pão,
acalentar minha mesa
e sujigar a boca da fome.

– Mas se não der, óia, Pai,
nem zangado vou ficar,
apenas dessossegado;
afinal, fiquei sem rumo,
pois a finada esperança
de mim, agora apartada,
me levou as miudezas
que guardei com muito agrado
em meu embornal de sonhos.

– Óia, Pai, tenta entender
o que pretendo explicar,
pois não quero desinteirar
Tua santa paciência:
só incomodei o Sinhô,
por falta de outra via,
pois os homens do poder
não se deixam molestar.
Todos sofrem de surdez,
só os desmandos têm vez,
o pobre...? Vá se danar!

– E embora meio sem jeito,
o jeito é mesmo implorar
por Tua intercessão.
Estou cansado, meu Pai,
de tanto sacolejar
esta agonia medonha
que não me deixa viver.
Minha fé já arriou,
perdi tudo o que eu tinha:
saúde, sonho, família...
e com a alma vazia,
me restou esmorecer.
Assim, melhor descansar!

– Óia, Deus, sei que o Sinhô
é por demais ocupado:
tanta guerra, tanta fome,
e quantos desempregados
(e pra dar conta dos políticos,
é preciso tempo dobrado!)!
Mas me permita, meu Pai,
por força do desespero
(pois careço tanto, tanto
de um caminho, um trieiro)
Te sugerir, respeitoso,
uma nova empreitada:
se por castigo me deste,
ou quem sabe por esmola,
esta vida malfadada,
já é hora, meu Sinhô,
de me dar, por misericórdia,
a morte como escora.
Eu já fiz por merecer...!



CAMINHO ESTÉRIL

Lêda Selma


Caminho um chão de carne estriada,
um chão sem chão, com fendas e vazios,
um não sei quê de agonia fastiosa,
preguiça de sonho, miúdos de coisa morta.

Plano na força que gravita à toa,
e sinto o bafio dos dias esquecidos.
Chantada na aridez do caminho infértil,
me farto de sol e de mim, mas prossigo.
E, assim, mais e mais machuco o chão
e me firo com as feridas em que piso.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

SONHO E POESIA NÃO COMBINAM COM FUTEBOL BUROCRÁTICO
Lêda Selma
“Para mim, o futebol é arte, é um jeito especial de dançar, de fazer malabarismos, de poetizar com os pés, com a cabeça, com asas invisíveis. Não teria sentido se assim não o fosse. Até porque o mundo não transformaria em deuses simples apaixonados pelo ofício de conquistar a bola, enfeitiçados por ela, nem, tampouco, cultuaria um esporte que se limitasse a um amontoado de perseguidores disputando, sôfrega e aleatoriamente, um pedaço redondo de couro. A reverência é, sim, a um esporte capaz de entrelaçar raças, credos, culturas, posições sociais, um esporte quase oracular, misto de mítico e de místico, sem trocadilhos.
Sempre vi o futebol como espetáculo de vibrações e de cores, de emoção, de corações desafinados, movidos pela paixão, amotinados e prontos para saltar no gramado, quer para reger a chuteira, quer para hastear a camisa, quer para empurrar o time. São noventa e alguns minutos (incluídos os acréscimos e não, os “descontos” como apregoam alguns narradores) de devoção à bola, de confronto entre defesa e ataque, de aflição, de transe para a torcida. Ah! e de desalento para o goleiro! Afinal, que solitária dor, a sua, quando a bola, toda sem-cerimônia, ultrapassa seus domínios. Cabisbaixo, sofre, como se traído, e, em rito quase fúnebre, retira, desconsolado, a leviana da rede.
Futebol é urdidura de momentos intermináveis, permeados de alegria e de tristeza, de assombro e de deleite, de decepção e de glória. É uma confraria de sentimentos contraditórios e indomáveis, conjunção de dor e prazer, ritual em que o mago e a bruxa se defrontam e se desafiam. Nele, refugiam-se ansiedades e expectativas, agonia e redenção, sonhos, quedas, voos”.
Este texto é parte da crônica “O bom filho a casa torna”, publicada em 6 de fevereiro de 2009, quando, a convite do recém-eleito presidente, Dr. Syd de Oliveira Reis, a quem apoiei, independente das composições feitas para elegê-lo, retornei ao Goiás, após seis anos de ausência, apenas física, diga-se, pois meu coração continuou presente, sofrendo, alegrando-se, conchavando-se com os santos e orixás, torcendo pelo Verdão, o maior bem da família esmeraldina, motivo por que sempre o coloquei acima das discórdias.
Retornei, com muita alegria, ao nicho esmeraldino, como Coordenadora Cultural do Clube, criação inovadora do presidente. E assumi o cargo com muito entusiasmo, permeado de sonhos e planos, sempre motivada pelos sonhos e projetos de Syd de Oliveira Reis, um presidente sonhador, um presidente amante da poesia, da poesia que também joga futebol, do futebol que também compõe poesia. Um presidente que liberava seus sonhos mesmo sentado na cadeira de presidente da maior representação futebolística do Centro-oeste, o Goiás Esporte Clube. Todavia, sonhar, poetizar, voar, a bordo de um mundo tão materialista, como o futebol, cuja objetividade chega a ser cruel, é leda fantasia, é loucura de poeta, uma loucura, quem sabe, até por excesso de lucidez...
Despedi-me do Departamento Cultural do Goiás. Retirei de minhas gavetas os sonhos que lá se hospedaram. Dr. Syd, sem dúvida, também recolheu os seus.
Se poesia não sobrevive à frieza do gabinete – tão desprovido de emoção! –, se não é o idioma do futebol burocrático que, além das quatro linhas, é pedra bruta, não tem versos, é feito de malícia, de reversos, de artimanhas, de pecados capitais, realmente, não há lugar para o sonho, para a ingenuidade, para a pureza de espírito e, tampouco, para um presidente sonhador e amante da poesia. Então, que sobreviva a arte no talento dos jogadores, na magia das jogadas, no pulsar do distintivo sobre o peito. Que pés e cabeças poetas retornem ao seu ofício, e teçam gols e vitórias para alegria e orgulho da comunidade esmeraldina.
Syd de Oliveira Reis teve como algoz seu sonho. E bebeu o veneno que pensava ser poesia.
“Eu sou Goiás Esporte Clube, eu sou Goiás”...