quarta-feira, 9 de março de 2011

VINHO-SAUDADE


Lêda Selma



Gosto de vê-la sempre à deriva...
Vergão, cilada, estrepe, corredeira...

Gosto de seus trajes de ciprestes
e de suas mãos de vento e açucenas.

Se tumba, guarda sonhos putrefeitos;
se acervo, esconde espólio de amores.
Saudade é vinho não envelhecido,
mas entornado em noites de abrolhos.
QUERO FALAR...


Lêda Selma

... do amor alagado nas enchentes
ou tosquiado nas secas,
amor de estiagem,
de retalhos e cacos,
ou de setembros molhados...

Amor de retratos,
amor de passagem,
amor das estepes
(humanas ou agrestes),
amor fuligem, amor de Eros,
amor deixado em espelhos rotos,
amor dormido, amor sem viço,
amor frugal, eternal, morrediço...

Não me importa se amor de seda,
amor de mitos, com vestes, sem ritos...
Só quero falar de amor,
amor sem teias, amor sem ermos,
amor sem estrepes...
E POR QUE SIM?

Lêda Selma



É, mal principia março e, a toda a brida, chega, de batom e esmalte, botox e silicone, o cantado e recantado 8 de março, “Dia da Mulher”, dia de se outorgarem comendas, títulos e mimos àquelas que, desde o finado segundo milênio, caminham decididas, e quase imbatíveis, por trilhas nunca dantes imaginadas, em busca de espaços e conquistas. E, depois da queima dos sutiãs (bem antes do silicone), lembraram-se da lei da gravidade, imposta pelo tempo, e retornaram os indesejados para o guarda-roupa e, em consequência, para os devidos interessados. Melhor prevenir que os ver despencar.

Mas um só dia é pouco. Quero mais. Quero todos. No mínimo, incontáveis. Se for para questionar a função da mulher nas várias vertentes da vida, 365 dias é absurdamente pouco. Nesse caso, melhor inventar um tempo maior. Todavia, se for só para homenageá-la... hum... os 365 já quebram o galho! Nada de dispensá-los.

Sou contra o “Dia da mulher”. Acho-o apenas alegórico, discriminatório e inócuo. Dia de luta? O que se resolve ou se decide nesse dia: a roupa para essa ou aquela solenidade? Com qual sorriso se receberá a flor? Todos os dias são de luta. E os resultados consistentes, reais e significativos vêm daí. Não somos mais minoria, sombras ou espectros, marionetes... Não estamos mais “atrás de um grande homem” (e se o tal fosse pequeno, qual seria nossa posição?). Não monopolizamos mais o “trono” de “rainha do lar” (há “rei” também nele), para nos contentarmos com um bombom quando podemos ser donas da caixa inteira.

Um dia não nos basta mais. É bom que se lembrem de que o avental cedeu lugar ao terninho; o fogão, à mesa de trabalho; a vassoura, ao teclado (éramos rainhas ou bruxas?!) e estamos por aí, ativas, eficientes, “chefes” de família, comandando, encabeçando listas de concursos, de vestibulares, de frentes de trabalho... O segundo lugar, hoje, espanta-nos. Já nos habituamos ao primeiro. Mudamos valores machistas e até constitucionais, rompemos as barreiras das profissões “masculinas”, tornamo-nos donas do nosso corpo, do nosso destino, do nosso prazer. Abdicamos da condição de objeto sexual (só se é, hoje, por opção ou por gosto. Conquistamos muito, mas não ainda o bastante, bem o sabemos. Apesar disso, não há motivo para que nos discriminem com um “Dia Especial”. Existe o “Dia do Homem”? Acredito até que, se ainda não existe, o instituirão logo: a classe já faz por merecer. Coisas da modernidade. Ou da abolição daquela velha doutrina que relegava a mulher à categoria de “sexo frágil”. Um senhor disse-me: “Vou exigir que a mulher abra a porta do carro e puxe a cadeira pra mim. Direitos iguais, deveres também”. Aviso a quem interessar possa: não conte comigo!

No passado, a instituição de um dia, com a chancela de “protesto”, para lembrar e repudiar o massacre contra as mulheres americanas, primeira fresta de acesso feminino à contextura real, foi válida. Mais que isso: um marco que abriu os olhos do mundo para o verdadeiro “padecer no paraíso”, alcunha de ostracismo, de não-direito à genuína cidadania, de confinamento a um mundo do tamanho de uma casa, de uma mulher-mãe (abnegada, despojada, delicada...) e de mulher-esposa (virtuosa, carinhosa, prendada...). Era só o que nos permitiam ser. Abrimos as portas de inimagináveis amanhãs, escancaramos as janelas do futuro, descobrimos a vida e reivindicamos nossos legítimos direitos. No decorrer dos tempos. Não em apenas um dia: simbólico e anual.
Independente do dia 8, minha homenagem às mulheres: Carrego em mim tantas marias/ e em meu ventre, sangue,/estrelas e fomes./Se me querem santa, maçã ou serpente,/se me querem seda, seios ou lua.../ me mostro Maria de todas as dores,/me torno Maria de todas as cores,/me faço esfinge, mulher simplesmente.