sábado, 16 de outubro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 16/10 - DM

O MENDIGO E O ASSESSOR POLÍTICO


Lêda Selma


– De novo por estas bandas, doutor? – iniciou a prosa, o mendigo Safadino.
– De novo, amigo. E, como sempre, de carona com a correria.
– “Amigo”, é? Pois sim! Olhe, a pressa é inimiga da eleição, e o apressado pode comer derrota, não é mesmo? Afinal, de voto em voto, o candidato enche a urna...
– O amigo tem certa razão... Mas fazer o quê? O tempo é padrasto e não favorece ninguém com alguma benessee...
– Benesse, doutor? Eta palavrão gostoso para o paladar político! Tão mágico quanto as promessas eleitoreiras, né?
– Há de se prometer muito durante a campanha. Prometer o bom e o melhor. O eleitor merece. Além do mais, ele é ávido por promessas.
– Por promessas, doutor?! Não seria por ações? Compromissos? Verdades?
– Talvez, sim. Olhe: prometer é preciso. “Faz parte”, já dizia, sabiamente, um famoso big brother, lembra-se?
– Se lembro, doutor...! Mas certas promessas, “ninguém merece!”, já dizia a outra da turma. De volta ao assunto das promessas, é cada uma...!
– As promessas adversárias, naturalmente. Desleais com os eleitores, garantem o absurdo. Nosso candidato não; suas promessas são verdadeiras e sólidas. Em sua gestão, teremos o paraíso. O paraíso prometido por tantos, mas só possível com ele. (Bem, depois da eleição, o purgatório é uma saída) – arremata em pensamento.
– O paraíso, é?! Rum, com as promessas descabidas que tenho ouvido por aí...? Paraíso, só quando o cabra morrer e for recebido pelo Pai. Mesmo assim, só se tiver o saldo de merecimento aprovado por Ele, a tal ficha limpa. E, no caso, sem maracutaia...
– O amigo é muito cético, desconfiado, ora! Há de se separar o mau do bom candidato.
– Seu candidato é o bom...
– Sem dúvida alguma, é o melhor: homem de bem, só promete o que pode realizar, não engana os eleitores, não lhes subestima a credulidade...
– “Serra, serra, serrador, serra o papo do...”
– Que gozação é essa, amigo?! Estou enganado ou há certa ironia nessa sua lembrança de infância?
– Ah! o senhor conhece a musiquinha...! E ela vem a calhar, doutor, percebeu? E o papo a ser serrado agora é outro, também de um vovô, porém, um vovô careca, com um papo enorme e que, de promessa em promessa, vai crescendo, vai crescendo até estourar a paciência do eleitor... “Serra, serra, serrador, serra o papo do vovô...!”. A sugestão está dada, quem se habilita...?!
– As promessas são fundamentais para o candidato e impactantes para o eleitorado mais carente: transporte farto e de qualidade (cafezinho, ar condicionado, toalete, TV LED); moradia com suíte e closet; cestas nem um pouco básicas, ao contrário, recheadas de guloseimas finas; isenção das taxas públicas a todos os do salário mínimo; saúde de primeiro mundo, sem fila, postos confortáveis e com médicos renomados; escolas em cada bairro; contingente policial quintuplicado, assim como o salário; policiamento diuturno em todos os cantos da periferia. Tudo muito simples. E possível. E o principal: já no primeiro dia de governo.
– A síndrome do engodo contaminou o senhor? O primeiro dia mal dá pra festança do porre, isto é, da posse. Pareço leso, doutor?
– O que é isso, amigo?
– Quem lhe pergunta sou eu, ora essa! Como todo esse despautério pode ser feito no primeiro dia se até Deus careceu de sete pra fazer o mundo?! Um super-Deus, seu homem-candidato, é!?
– O amigo nem parece brasileiro que vive e sobrevive de esperança...
– Nos últimos anos, felizmente, não mais só de esperança. Minha patroa tem invocado a intercessão de Maria para que esse tempo continue, afinal, a Santa é mulher, mãe, e mulher sabe das coisas, doutor, pode confiar!
– Sossegue! Após a eleição, promessa vira esquecimento...
– É, doutor, as promessas enganosas agridem nossa inteligência. Arre! Só mesmo criando o PROCEL...
– PROCEL...?!
– Sim, o Procon do eleitor!

sábado, 9 de outubro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 9/10 - DM

DESCOMUNICAÇÃO DAS BRAVAS

Lêda Selma

Tudo começou ainda na infância. O menino não tinha sossego. A tosse chegava num rompante, troteava peito adentro, escapulia boca afora, um suplício que o sacolejava impiedosamente. Zelosa, a mãe não se descuidava: simpatias, benzeções, preces, promessas, tudo o que a fé e as crendices lhe apontavam como solução.
Já dizia sua trisavó: “Mais vale uma má esperança que um bom desengano”. Apoiada nisso, partiu para a lida das crendices: capturou um peixe, cuspiu em sua boca, e o devolveu ao rio, vivo, como mandava o ritual. Por precaução, engatou logo uma outra: escreveu a Ave-Maria num papel, introduziu-o no patuá de cor indefinida, e pendeu-o no pescoço do cachorro; ali ficaria até que o coitado do animal se libertasse dele naturalmente. Todavia, a mais estapafúrdia das doidices, com o fito de acabar com aquela tosse ladrante, veio pouco tempo depois da morte do cachorro (com patuá e tudo o mais). Não é que a aflita mãe colocou o menino para tossir no ouvido da imagem de São Braz? Sim, desassossegando o santo, ele haveria de milagrear em favor do filho, acreditava. Por analogia, deduziu: se o santo era especialista em engasgo, entenderia de tosse convulsa, a tal tosse comprida, afinal, eram áreas afins, meio aparentadas, e, além do mais, todo santo tinha por obrigação ser bom em conhecimentos gerais.
A palavra de ordem, portanto, para aquela desesperada mãe, “tentar”. Sem medidas. Sem economia de sacrifícios. Tudo valia a pena se a tosse não fosse pequena (desculpe-me o trocadilho, Fernando Pessoa), e a do menino era enorme. O filho precisava livrar-se daquele “regougo infernento”. Se necessário, flagelaria São Braz, sem misericórdia, até que agisse de forma competente.
Alguns meses corridos, e a tosse, já nem tão comprida, espaçava-se e, aos poucos, enfraquecia-se. O menino, apenas, vez ou outra, tossicava, “tossinha de cemitério”, afirmava a vizinha. E a mãe comemorava seus feitos com preces de gratidão. A coqueluche, finalmente, estava derrotada em tempo recorde. E graças aos santos e às mandingas.
Passaram-se os tempos, o menino cresceu, virou um homem atarracado e franzino, de pele bacenta e cabelos esporádicos (modelo nem ficam nem desocupam a telha). De repente, ei-la, a tosse, ressurgida com novo status: bronquite asmática. “Culpa da tosse comprida mal-curada”, retumbava, incansável, a avó. “Nem tudo foi feito. Faltou cortar um pedacinho da parte branca da pena do urubu, introduzi-la num amuleto e pendurá-lo no pescoço do coqueluchento”, arrematava insistente.
O certo é que a tosse, de volta, não dava trégua àquele homem de olhar vermelho, olhar de meu Deus, cadê meu fôlego?! Um fôlego cambaleante, raquítico, feito bêbado à mercê da intuição para encontrar o caminho de casa. Um fôlego de deixar qualquer um sem fôlego.
Ano após ano, Troncoso continuava com crises de asmas, cansaço e falta de ar. Aos arrancos, a tosse não o deixava dormir. Uma consumição dividida com a mulher que, conforme prometeu ao marido, instigada pelo padre, no dia do casamento, lhe seria “fiel na saúde e na doença”. Casada, pois, em comunhão também de tosse, fazer o quê, senão uma simpatia? Colheu um punhado de alecrim, deixou-o secar e, depois, amassou-o. Em seguida, colocou-o em um cachimbo virgem. Cada vez que a asma se manifestasse, o marido tossegoso fumaria o alecrim.
Não tardou muito, o médico foi chamado; e intrigou-se com o cachimbo sobre a mesinha de cabeceira. Pensou logo no tabaco.
– Olhe, tente fumar uma vez por dia.
– Fumar, é? Uma..?! Vou tentar, vai ser difícil, mas se é o doutor quem diz...
Dez dias depois, e Troncoso pior.
– Foi complicado, doutor, mas consegui fumar só um.
O médico, ao auscultar-lhe os pulmões, confirmou a piora.
– Doutor, acho que a culpa é do cigarro.
– Sem dúvida. Foi justo por isso que lhe pedi que diminuísse as fumadas...
– Diminuísse?! Fiz foi aumentar, doutor! Afinal, eu não fumava, só fumei agora por prescrição médica, ora!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Crônica publicada no Diário da Manhã, sábado, 2/10/10

DE VOLTA, SAFADINO

Lêda Selma

Nada escapa aos olhos-lupa do astuto Safadino, o velho mendigo trapaceiro e vivaldino, o tal que possui assessora, celular com TV, cartão de crédito e de visita, ar condicionado com controle remoto, carro (sem dúvida, não popular), muita intimidade com certos políticos, pinta de politizado e mania de intelectual.
Com tanta fama adquirida, não surpreendeu os colegas ao criar o mesalão, um derivado do original, mas com característica própria: mesada semanal – matreira inovação. Safadino não ficaria à margem dessa baita mamata, ora, e, tampouco, deixaria sem melhorias a ideia original! Justo ele, chegadinho a uma corrupção?
Nem Safadino suportou as promessas esdrúxulas e carnavalescas de alguns políticos, durante o Horário Eleitoral Gratuito. E, convenhamos, nada há de mais hilário no momento. Novidade? Nem ela, a própria. Tudo velho e insosso. Blablablás comuníssimos. Candidatos com embromações senis. Estratégias de bengala. Discursos reumáticos.
Na verdade, Safadino cansou-se das balelas e embelecos dos canastrões da política na arte de representar. “Cada figura...!” – injuriou-se, ao desligar sua LCD, 52 polegadas, adquirida com mensalinhos amealhados da boa-fé dos passantes. E, antes que a estupefação de todos se lhe mostrasse “invasiva e ultrajante”, encheu o peito e a voz: “Mendigo também gosta de luxo! Pensam que coisa boa é privilégio só de rico? Ih...! já foi o tempo, ó!”.
Safadino, apesar do nome e da postura rotineira, indignou-se com a avalanche de baixarias que enodoou a internet e a mídia nacional, sob a chancela do denuncismo, nas últimas semanas; não que tudo fosse inverdade, óbvio que não!, porém, na carona das pseudoverdades, inúmeras calúnias foram disseminadas pelos veículos de comunicação mais afeitos ao poder da notícia a qualquer preço. Como a comédia e o drama, não raro, completam-se, algumas denúncias margearam o ridículo, tornaram-se até risíveis, e alvoroçaram os incautos. Algumas, como as do “Jornal Serra Abaixo”, Safadino divulgou: “Foi Dilma quem furou os olhos do Assum Preto!”. “Joãozinho sem braço é mais uma vítima da Dilma”. “No escândalo do Paraíso, Dilma deu propina à Macieira para que ela cedesse sua filha (a maçã) a Eva para corromper Adão”. “Exclusivo: Dilma induziu o Todo-Poderoso à criação do Pecado Original”. “Segundo Noé, Dilma é a responsável pelo Dilúvio”. “Está comprovado: Dilma, Ministra de Hitler, deflagrou a 2ª Guerra Mundial”. E, com seu jeito matreiro, Safadino contou-me como tudo começou:
– VEJA: queriam que Dilma, nesta ÉPOCA de campanha, fosse apenas uma FOLHA perdida no GLOBO, à mercê de serração. Não deu certo, naturalmente. Nem poderia, ora! Assim, sem se intimidar, ela serrou os bicos dos tucanos, que ficaram num ESTADÃO lastimável, pôs Lula a tiracolo e PT saudações! Primeiro turno neles!”.
Crítico incomparável, estilo “não olhe o que eu faço e não faça o que eu olho”, e diante de tantas e tantas embófias eleiçoeiras, Safadino resolveu fazer seu protesto, após assistir a um daqueles debates. E desceu o verso:

Em tempos de eleição,
tudo se torna normal:
promessas, sorrisos, abraços,
“bondade” dos candidatos,
sua “rica” história de vida,
sua “pobreza” ancestral,
todos eles, uns santinhos,
distribuindo beijinhos
(tadinhas das criancinhas!)
e tudo é só carnaval!

Para que os tais se elejam
é preciso muito cobre...
Coitadinhos...! O que fazer...
se todos eles são “pobres”...!?!

Pobres são, ah! de espírito,
Ih...! nem Deus dá jeito nisso!
E por falta de propostas,
campanha vira fuxico.
E não há careca, meu nego,
que resista a tudo isso.