domingo, 18 de julho de 2010

EU, HEM?!

Lêda Selma

No mínimo, estranho o jeito como as pessoas portadoras de qualquer tipo de deficiência (hoje, cognominadas “pessoas especiais” – mais um eufemismo...!? – ) são tratadas. Não importa o jeito, mas há sempre um ranço de discriminação à mostra, quer por excesso de comiseração, quer pela carência de respeito. O ponto de equilíbrio, ih! cada vez mais distante! É cada fiasco! E os constrangimentos? Até Deus duvida.
Outro dia, um senhor, integrado aleatoriamente à emergente classe de “pessoas especiais”, acompanhou um amigo à casa de uma família enlutada, para a tradicional visita de pêsames. Ao amigo, os visitados dirigiram-se de forma contida, à altura do momento. Entretanto, ao notarem seu acompanhante, o “bom-dia!” retumbou em decibéis à prova dos mais resistentes tímpanos, capazes de quebrar até vidraças. Desentendidos, entraram. Mal o fizeram, a viúva mandou a filha buscar umas almofadas, “aquelas mais macias”, e as colocou na poltrona maior da sala e, no mesmo tom estridente, conclamou o visitante “especial” a acomodar-se: “Aqui é mais claro e arejado”. Pouco depois, entregou-lhe, à revelia de qualquer solicitação, um gorducho copo com água e, logo após, com ar condoído e solidário, postou um ventilador perto do homem, abriu todas as janelas, libertou-as das cortinas e persianas, acendeu as luzes e, com os decibéis ainda mais à toda, ofereceu ao estupefato agraciado um farto sanduíche, uma fatia de bolo e uma coca-cola bem geladinha. E cheia de propriedade, fitou-o preocupada:
– O senhor está bem? Coma! Ah! a coca é zero. É melhor para o seu caso...
– Não, minha senhora, grato. Estou ainda saturado com o almoço. “Para o meu caso...?”, pensou intrigado.
– É, mas o senhor não pode brincar com a saúde e ainda mais com a alimentação...
– Sim, não me descuidarei de ambas. “Por que será?”, indagou-se.
– Mais um copinho com água, então? – insistiu a viúva, no mesmo tom gritante.
– Não, senhora, obrigado, estou saciado.
– Ah! espere um pouquinho, vou buscar um puf para o senhor espichar as pernas...
– Não, por favor, estou bem! Prefiro assim mesmo...
– Como, prefere assim mesmo? O senhor precisa poupar suas pernas, ora!
– Preciso? “Ai meu Deus, o que está acontecendo?” – perguntou-se injuriado.
– Claro! Não é bom ficar com as próprias penduradas. Ainda mais no seu caso...
– Meu caso? Mas que caso? Não estou entendendo... Olhe, dona, não sou surdo, nem retardado, nem doente, nem coitadinho. Ao contrário: sou forte, sadio, feliz e, por obra do destino, cego de nascença. Portanto, sossegue, por favor, sossegue! Inclusive o tom. Ufa!!!
Também ouvi de uma amiga paraplégica que, não raras veze, foi confundida com pedinte de rua e, em algumas circunstâncias, até moedinhas lhe ofereceram. A cadeira de rodas (“minhas pernas de aço”, como diz), a seu ver, transporta, além do corpo, também o estigma, pois nem o fato de pertencer à classe média alta, de ser bem apessoada e de deixar a vaidade sempre exposta em roupas bonitas, acessórios vistosos e maquilagem bem feita deixa-a invulnerável a certas reações sociais. E até uma cena estapafúrdia protagonizou: numa tarde de céu já desbotado e de vento irreverente, passeava pela Feira da Lua quando, a súbitas, uma senhora de mente e cabelos grisalhos parou à sua frente, aboletou a mão em seu ombro e ofertou-lhe “uma ajudinha”, sob o argumento de que “é muito feio ficar com esse olhão comprido e pidão estendido sobre as coisas alheias”. Assustada, a moça das “pernas de aço” recusou a caridade e, em resposta, recebeu um tapa-corretivo e um pito.“Além de tudo, ainda é orgulhosa? Vai ficar com esse dinheirinho sim, que é pra deixar de ser pobre de espírito e pobre soberba. Onde já se viu...?!”.

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