quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DIÁRIO DA MANHÃ - 1º/1/11

UM ANO HISTÓRICO: BEM-VINDO, 2011!

Lêda Selma

“Nunca na História deste País”, um ano chega com tanta expectativa como 2011. Não, não, preciso rebobinar o tempo! A História deste País já viu, sim, algo parecido: 2003 surgiu ciceroneado por rastros de luz, emanados da eleição de Lula à Presidente da República. Um homem do povo, ex-operário, de pouco estudo, com um português avariado por regências e concordâncias verbais e nominais desconcertantes, um contraste, aparentemente constrangedor, em relação a seus três últimos antecessores, figuras traquejadas, empinadas, sorboneados e poliglotas, sempre de carona com seus ternos, camisas e gravatas de grifes italianas, inglesas e francesas. Todos, de fino trato e ilustres em seus círculos de convivência, quer nas esferas social e política, quer cultural e econômica. O primeiro, imortal, fez um governo malfadado. O outro, de empáfias mil, foi deposto pelo povo. E o mais falastrão, devorado pela impopularidade.
Parênteses: mamãe contava que, lá pelos idos de 1948, certo moço, de uma cidadezinha baiana, candidato a sacristão, foi desaprovado pelo padre: era analfabeto. Frustrado e com a humilhação a lhe contundir os brios, pois não pôde desempenhar o tão sonhado ofício, vendeu o pouco que tinha, e partiu, sem destino, à cata de alguma ocupação. Nem tardou tanto, achou os dois: o destino e a ocupação. Tempos depois, voltou abonado, no trote de um belo cavalo de raça, a bordo de um terno branco de linho 120, chapéu Ramenzoni 3 X, cabelos lustrados de brilhantina e pele recendendo Seiva de Alfazema. Uma pose de dar inveja. As línguas viperinas, de palmo e meio, logo propalaram a riqueza do retornante. Alguém, ironicamente, comentou: “Sem saber ler e escrever ele se enricou desse jeito, imagine se soubesse...”. Ao que outro concluiu: “Se soubesse, não teria passado de sacristão do padre!”. Nenhuma apologia ao analfabetismo, naturalmente! Fecho os parênteses.
Assim, 2003 começou apoteótico em emoções, comoções e prognósticos variados. Sonhos espocaram alegremente, esperanças acenderam-se aos borbotões, projetos de vida ressuscitaram, e um nordestino simples, barbudo, rouquenho, carente de um dedo e com a língua presa, apesar de solta (vá entender...), tornava-se o personagem maior de um Brasil que despontava para o futuro, sob certas desconfianças e milhares de esperanças.
Os quatro anos multiplicaram-se em oito, com a reeleição. E o Brasil cresceu, conquistou prestígio internacional e se fez grande e soberano aos olhos também do mundo. E milhares de brasileiros relegados à pobreza, à miserabilidade, ao abandono e à exclusão, marginalizados até pela própria vida, descobriram-se cidadãos, com direito à dignidade que o emprego formal, a casa própria, a comida na mesa, o lazer, a escola e a universidade lhes propiciaram. A economia em ascensão constante, a comunicação simples e sincera com as massas, a identidade com os desfavorecidos ajudaram o governo Lula a se fortalecer e a conquistar credibilidade e respeito lá fora. Ah! também contrastando com seus últimos antecessores, o ex-operário, como “nunca na História deste País”, deixou o poder com índice recorde de aprovação: 87%. Baita desafio, hem, Dilma?!
Pela segunda vez na História deste País, um ano já irrompe histórico e comboiado por muitas expectativas e emoções. Desta feita, uma mulher comandará o destino de quase duzentos milhões de brasileiros. Com euforia, 2011 abre-lhe passagem, desafiando-a a assumir o leme, com serenidade, discernimento e ousadia, como timoneira de um povo que já não se alimenta só de esperança, que já não se satisfaz com migalhas restadas de classes superiores, um povo que, pela cidadania, aprendeu a ocupar seu espaço e a ser verdadeiramente feliz. Que Deus a proteja, presidente (ou presidenta) Dilma Rousseff, e ajude-a a combater as sementes e as escaras da corrupção, da pobreza e da exclusão social!
A todos, um 2011 promissor, luminoso e abençoado!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

NATAL DE MUITOS NATAIS - DIÁRIO DA MANHÃ/25/12/10

Mais um Natal e, com ele, ritos e mitos, esperanças caducas, desejos senis e a paz, em sua brancura vermelha, mais uma vez, apenas um vulto baço perdido em muitas trincheiras que, no decorrer dos tempos, amotinaram ódios, disputas, megalomanias, loucuras. Apesar disso, é Natal e ele ainda ostenta o símbolo da fraternidade e da esperança de um reencontro com Cristo, o aniversariante do dia, nem sempre, o mais festejado. Guerras há, mas o Natal continua como vínculo que irmana a fé cristã.
No Natal, corações se abrem (e os espíritos...?!) e, em polvorosa, desenham sonhos luminosos, expectativas instigantes, momentos especiais. Afinal, ele é um mago de cabeleira, barba e promessas envelhecidas, porém, de vigor aceso. E, a cada ano, sem crise, então, o comércio se alvoroça e enfeitiça crianças e adultos que, em transe, se preparam para o banquete das compras, enquanto os problemas, numa fuga em massa, recolhem-se em asilos provisórios, pois nenhum desmancha-prazeres é bem-vindo nessa época. Todavia, o acinte da miséria permanece deitado sobre as calçadas, expondo à sociedade homens-molambos, carentes de dignidade e de cidadania, a banquetearem-se com a fome, com a exclusão, com o vazio das mãos e dos olhos, sob o testemunho do sol e das estrelas, únicas luzes de seu Natal.
Muitas são as caridades acontecidas neste período. Hospitais, creches, lares, abrigos... recebem doações de toda a espécie e de muitas mãos e, assim, participam da alegria momentânea que caracteriza a fugacidade das festas de fim de ano. É muito pouco. Não apenas no Natal a fome, a desesperança, as carências e o sofrimento clamam por socorro. Que se doem, pois, alegria, alimentos, oportunidades, trabalho, carinho, não só porque é Natal, mas porque também é Natal.
Nascedouro de impossíveis, de neve em pleno verão, de renas tropicais, de bons velhinhos saracoteantes e incansáveis, de chaminés em espigões, de bolsos mágicos, de dribles desconcertantes do comércio sobre os incautos consumidores, de alegrias e realidades mascaradas, é o Natal; e ele instiga sentimentos, encontros, festejos, esperanças, promessas... É verdade que, muitas vezes, o aniversariante do dia, o Menino Jesus, nem lembrado é e, talvez, já tenha se acostumado com tal esquecimento. Será...?! O melhor é acreditarmos que não, até porque é sabido que todo adulto carrega no íntimo o menino sobrado da infância, então, por que com o Menino Jesus seria diferente? Aquela criança nascida na manjedoura, há 2010 anos, renasce a cada dezembro. Então, precisamos saudá-la, comemorar seu renascimento.
Fascina-me o Natal e todos os seus ritos e mitos: desmancho as tranças de minha criança interior, e deixo-a patinar, planar, lambuzar-se de folia e traquinar no reino da fantasia, sem limites. E, como qualquer mortal, apesar da imortalidade acadêmica, deixo à solta meu lado lúdico e "profano" e espero ansiosa as surpresas deliciosas da noite natalina e a chegada dos presentes - encanta-me descobri-los, despertá-los.
Gostar do Natal, da expectativa que embrulha os presentes, da alegria a piruetar nos olhares de cada um é algo cultural em minha família. Fomos criados sob o encanto desses festejos. E, embora muitos dezembros me tenham trazido grandes perdas (a morte violenta de meu irmão, à véspera de um Natal; a partida de meu pai e, ano passado, a de minha mãe), apesar de ter sido privada da presença do meu filhote, mesmo assim, ainda consigo ver com deslumbramento quase pueril as luzes que enfeitam essa festa religiosa, com panca de profana.
Natal, para muitos, é templo da alegria; para outros, esconderijo da tristeza. Misto de alegria e tristeza, do religioso e profano, de afetos e de presentes, o Natal existe: para trazer o Cristo de volta. Um Cristo humanizado. Parceiro. Esperançoso. Um Cristo feliz!
A todos, um Natal abençoado

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO - DIA 18/12 - DIÁRIO DA MANHÃ

À TRIPA FORRA

Lêda Selma

– É mesmo como dizem: até Deus duvida das coisas acontecidas nestas bandas.
– Se duvida... E é cada uma de deixar até Ele de queixo na mão.
– Verdade. Ah! e esses nossos amigos, patusqueiros incorrigíveis!? Criam rebordosas que não deixam saudade.
– E que rebordosas! Aquela, então, da menina Imaculada, pouco depois de tomar estado...
– “Tomar estado”...?! E que esquisitice é essa?! Por acaso, a tal Imaculada sofreu possuição?
– Que possuição que nada! Ela se matrimoniou, ora! Os senhores não se lembram do falatório que zanzou de língua em língua?
– Todos se lembram! Um caso danado de esquisito, aquele, Deus me sombreie a memória e me refresque o espírito!
– E o vexame, então?! Dos piores, convenhamos...
– Também, pudera: um marido como aquele...
– Ih! estou por fora! Sou novo aqui, portanto, desconheço o ocorrido. O ocorrido e esse palavreado. Como imaginar que “tomar estado” é o mesmo que casar?! Bom, minha curiosidade lhe pergunta: e o tal marido?
– Muito bem. Matracaram por aí que, três dias após o casamento da coitada com o Pescanildo, filho mais moço de um fazendeiro de muitas posses, pois bem, em pleno fulgor da lua de mel, ele saiu pra pescar, com uns amigos, por “pura falta do que fazer”, pasme!
– O quê?! “Por pura falta do que fazer, em pleno fulgor da lua de mel”...? Quer dizer que o marido trocou a mulher pelos peixes?!
– Foi o que concluíram, após a história evadir-se da própria boca do recém-casado! Dizem que toda aquela manhã, destinada às estripulias do amor, foi consumida em tentativas impeixíferas, melhor dizendo, inúteis. Os peixes? Que nada! “Carência de isca boa”, resmungava, aos companheiros, o ocioso, isto é, o marido, a bem da realidade, o faltoso conjugal.
– E a mulher... Hum!... suponho, fresquinha, cheirosinha e cheia das vontades, na vã espera pelo inativo... É, no quesito folguedos conjugais, um canastrão, hem?! Mas e daí?
– Daí é que ele tentava, a todo custo, resolver o impeixe, não, não, o impasse, ou seja, a “carência de isca boa”. De repente, uma dica paterna sobrevoou sua mente; decidido, adonou-se da velha espingarda e... cric! Com um tiro, um só, alvejou de morte uma rolinha doméstica – xodó familiar e, em especial, da Imaculada – antiga hóspede da enorme e velha árvore que refrescava o varandão, nos fundos da cozinha. Distraída, a pobre avezinha passeava lépida pelo local, sem desconfiar que fazia seu último voo...
– Bem, e então?
– Sem o mínimo remorso, nem mesmo afetivo ou ecológico, o malvado cortou a cabeça da falecida rolinha.
– Uma rolinha morta e decapitada... Deixa pra lá. Prossiga.
– Afoito, e com a expectativa ainda mais acesa, Pescanildo, após o malfeito, reanimou a tralha e rumou, de volta, para a lagoa.
– E...
– Peixes aos borbotões! Cada peixe! Sem dúvida, pesca farta, mas que quase enfarta a desgostosa esposa, já farta de tanta inadimplência marital.
– Como assim, criatura!?
– Animado com a façanha, que lotou cestos e cestos de peixes, o tresloucado marido entrou em casa atroando: “Mulher! Mulher! É peixe que não acaba mais, aos montões, venha ver, venha! Isca batuta aquela bendita cabeça!”.
– Homem de Deus, posso adivinhar o motivo do quase enfartamento da mulher do tal marido, ou melhor, fiasco de marido! Prossiga.
– Bem, com o semblante meio nublado, Pescanildo baixou a voz, jogou os olhos no chão, e falou para a mulher: “Só há um problema, querida, e sei, vai chatear você. Lamento, mas tive de sacrificar um bem muito precioso: nossa rolinha, mais precisamente, sua pobre cabeça”...
– E ela?!
– Surpreendente, respondeu: “O que não tem jeito, ajeitado está. A rola é morta e não adianta chorar sobre as penas espalhadas, nem sobre nossa lua de mel depenada. Agora, se vira, negligente! Quero curtir à tripa forra o que resta desta tarde. Portanto, levanta, sacode a moleza e dá a volta por cima. De mim, naturalmente. Arre!”.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

UM SONO SOSSEGADO - DM 11/12/10

UM SONO SOSSEGADO


Lêda Selma


– É, doutora-juíza, meu caso é complicado. Sou homem sério, maduro e, na verdade, carecia de uma companheira, moça honesta, voltada para as coisas do lar e com pensamentos de asas curtinhas, bem curtinhas! Se necessário, cortadas bem rente que é pra não deixar a mente sair voando por aí, perdida na vadiagem. Pensamento é um perigo, é atalho pra perdição – falou pausada e arrastadamente um senhor de porte franzino, voz e gestos trêmulos e olhos de um marrom cansado e sonolento.
A juíza, uma cinquentona insossa, de ar austero e nenhuma simpatia, esfregou as mãos como se espantasse a impaciência, mexeu em alguns papéis sobre a mesa, como a demonstrar pressa, e olhou fixamente para o quereloso, exigindo-lhe objetividade:
– Bem, o que posso fazer pelo senhor? Se é que posso...
E ele, meio sem jeito, tentando fugir da impertinência da magistrada, encantoou a timidez, pigarreou duas vezes e, encolhendo-se na cadeira, respirou fundo, desviou o olhar e recomeçou:
– Fiquei viúvo há mais de vinte anos, meritíssima, e, desde então, a tristeza se acomodou em meu peito. Assim como o peso, a idade aumentou, a velhice chegou implacável, na rapidez do tempo (já virei os oitenta e quatro), a solidão, dia a dia, acochou mais e mais, a necessidade de uma companheira para cuidar de mim não parou de esgoelar noite a dentro, dia afora... e, então, resolvi procurar alguém pra sossegar todo o meu desassossego. A senhora sabe, quem procura, quase sempre acha, pois é, achei: uma sessentona simpática, discreta, recatada, evangélica, daquelas com a bíblia sempre nas mãos, olhos fincados no chão, tranquila por demais, quero dizer, durante os dois meses de namoro. Foi só a gente se casar, e ela se endiabrou, doutora, se revelou gananciosa pelas coisas do sexo, uma perdulária sexual compulsiva; olhe, não sei onde a desregrada arranja tanta energia pra gastar, não sei, a senhora entende?
– Não, não entendo; se o senhor puder ser objetivo, quem sabe?!
– Bem, por conta dessa gulodice, a faminta não me dá mais trégua noite alguma, nem nas tardes pares da semana, que, aliás, são mais que as ímpares. Diz, esbravejando, que quer tirar a diferença do tempo perdido no marasmo da virgindade, que exige seus direitos de mulher casada, e que preciso cumprir meus deveres de marido, conforme a senhora falou no dia do casamento, e eu prometi. A bem da verdade, meritíssima, não me lembro disso... Também, surdo dos ouvidos e da memória, como sempre fui em certos momentos...
– Mas, e daí? – retrucou, irritada, a juíza.
– E daí é que a gananciosa solicita meus préstimos carnais com uma pontualidade e sofreguidão constrangedoras, de arrepiar até os cabelos que me faltam. E eu lhe pergunto, doutora-juíza: tenho lá idade para tais extravagâncias, para trabalhos forçados e até horas-extras?! Além do mais, não me casei pra ser consumido e sim, consolado.
– O senhor conclua logo o motivo de sua vinda, pois ainda não entendi o que posso fazer...
– Anular o casamento. A lei tem que ter misericórdia de mim, senão, qualquer noite dessas, durmo aqui e acordo do lado de lá, porque meu coração não tem mais fôlego pra tantas danuras.
– Não é assim, meu senhor. Eu não posso ir anulando casamentos...
– Pode, sim! A senhora fez o casamento, desaguou todo aquele palavrório, me fez prometer o que nem ouvi, então, pode muito bem desfalar o falado, e eu desprometer o prometido (que, a bem da verdade, se prometi, foi sem querer). A senhora não me entendeu, meritíssima: na realidade, eu só queria me casar pra ter uma mulher relando em mim enquanto eu dormia um sono sossegado. Afinal, meu patrimônio sexual foi tombado, há muito, e não há lei que reverta isso.

SUA BÊNÇÃO, MESTRE URSULINO! DM 4/12/10

SUA BÊNÇÃO, MESTRE URSULINO!

Lêda Selma

A Academia Goiana de Letras instituiu 2010 como “Ano Cultural Ursulino Tavares Leão” em homenagem ao acadêmico que militou tanto na educação e na política, quanto na advocacia e, ainda hoje, ativamente, na literatura, sempre se destacando pelo talento e sensibilidade. Romancista de ponta, poeta de estações e cronista de verve cheia (que o digam suas crônicas no jornal O Popular) Ursulino é um intelectual de posturas claras e sérias, homem de invejável caráter e grandeza de espírito, e seu senso inovador jamais lhe permitiu abster-se de enfrentar desafios e adversidades. Tudo isso converteu-se em respeito e admiração de todos aqui e acolá.
Vários eventos, no decorrer do ano, reverenciaram o ilustre escritor, que presidiu, por 16 anos, com entusiasmo, competência e empreendedorismo, a Academia Goiana de Letras; como membro da Casa, é um dos mais assíduos.
Cidades como Crixás e Anápolis promoveram solenidades focadas na trajetória de vida e na obra literária do homenageado. Em Crixás, foram muitas as festividades e até uma escola ganhou seu nome. Em Anápolis, após saudado por vários oradores, em calorosas falas que realçaram seus feitos como escritor, professor, advogado, político e até fazendeiro, enfatizadas, naturalmente, suas notáveis qualidades humanas,
a prefeitura outorgou-lhe o troféu “Mérito da Cidadania”, distinção conferida apenas aos que se destacaram nas diversas áreas de desenvolvimento do município, com atuações marcantes em benefício da comunidade.
O ápice da sessão, entretanto, ainda aconteceria, protagonizado pelo prefeito Antônio Roberto Gomide, que propiciou a Ursulino o momento mais emocionante da solenidade: a revelação de que o nome de seu filho Tomás foi uma homenagem ao amigo de infância, Tomás, o primogênito de Ursulino, que se estrelizou há alguns anos, coincidentemente, em um 30 de setembro, no limiar da primavera. Tal surpresa mudou o compasso do coração ursuliniano.
Com a emoção à flor dos olhos, Ursulino Tavares Leão ofereceu o troféu à Lara, filha de Tomás, que o recebeu sensibilizada; em seguida, bastante comovido, enfatizou o significado e a importância de tamanha homenagem, invocando a lembrança de sua mulher Lena, partícipe de todos os momentos que construíram sua história, e a quem devota, como já é notório, além da imensa saudade, um amor à prova de tempo, de saudade, de dor e de morte. Lena eternizou-se no coração apaixonado de Ursulino Leão, que deixa a alma voejar pelo parnaso da poesia para reverenciar a mulher amada, muitas vezes sob as bênçãos verdejantes da fazenda São João, também personagem constante de suas crônicas.
A referida sessão, outra vertente das várias comemorações alusivas ao “Ano Cultural Ursulino Tavares Leão”, realizada no gabinete do prefeito anapolino, começou com música, na voz da cantora Goiana Vieira, e encerrou-se também com música, nos acordes do violão de Cláudio Lima, professor da Escola de Música da Prefeitura de Anápolis.
Após a solenidade, Nazaré, irmã do homenageado, convidou os acadêmicos presentes para um coquetel em sua casa – ressalte-se, delicioso! –, o que aconteceu numa atmosfera de alegria e de fraternização. “Leãozinho”, assim chamado carinhosamente na intimidade, estava feliz, e seus familiares e confrades, orgulhosos. O Ano Cultural, que ostenta orgulhosamente seu nome, dimensionou, uma vez mais, o prestígio desse renomado intelectual, que tanto dignifica a história sociocultural e política de Goiás.
Ah! em clima de euforia – claro!, o Verdão da Serra despertou de um longo estado letárgico, e caminha, em grandes passadas, para seu maior momento, marco histórico, a conquista do título de Campeão da Copa Sul-amerticana, como representante do Brasil! – faço, também, nesta crônica, minha homenagem ao especial amigo Ursulino, o querido Leãozinho, que tantas lições já me repassou nesses tempos de estreita convivência. E o curioso: embora as festejações sejam todas para o dileto confrade, a presenteada fui eu: Ursulino, num gesto máximo de afeto e carinho, transferiu-me a “guarda” de uma relíquia da língua portuguesa, presente de seu pai, em 15/6/1938, o “Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa”, de Cândido de Figueiredo, editado em Lisboa. Sem palavras, meu mestre! Apenas, peço-lhe a bênção.

O IMPREVISÍVEL FUTEBOL CLUBE -DM 27/11/10

O IMPREVISÍVEL FUTEBOL CLUBE

LÊDA SELMA

Há que se entender o futebol... Feito de raça e de graça, de poesia e de acrobacias, de sonhos e de frustrações, de balbúrdia e de silêncio, de peito a pulsar sob o distintivo, de paixão incondicional à camisa...
Há que se entender o torcedor... Generoso ou incondescendente, vibrante ou omisso, passional ou alheado. Seu combustível, a vitória. Sua felicidade, o grito de gol. Seu orgulho, o brilho de suas cores.
Há que se enfocar a ação de certos jogadores... Ora movidos por interesses pessoais, ora pelo dinheiro, ora pelo descaso, ora por seu ideal, ignoram, muitas vezes, o compromisso com o clube e o amor pela camisa.
Na final da Copa Sul-americana, está o Goiás. Um fato histórico. Um feito heroico. Um momento de devoção. De comoção. De louvor a Deus na voz sufocada de Harlei. No gesto, ainda em campo, de Rafael Moura, pedindo sangue e garra a seus companheiros. Uma alegria inusitada, que brotou do lodo, de um sonho murchado há três das, e que deu sobrevivência moral a uma nação desencantada e sofrida: a esmeraldina.
O Goiás Esporte Clube, o Verdão da Serra, conterrâneo de Cora Coralina e de Hugo de Carvalho Ramos, é o Brasil, com os tons e sabores do cerrado, vestido de verde e branco, lambuzado de pequi, cheirando flor de ipê. Um Brasil banhado pelo Araguaia, enfeitado pela Serra Dourada, pousado no Centro-Oeste, bem onde seu coração bate ao ritmo da catira.
Sem dúvida, um feito grandioso a classificação do alviverde goiano. E o instante é de comemoração. De emoções entrelaçadas. De orgulho renascido. Afinal, há uma semana, o Goiás tombou combalido, humilhado e com a dignidade esgarçada, após um ano de agonia, um ano em que alguns jogadores pisotearam sua história e enodoaram sua honra. Um ano em que vaidades se exibiram e se digladiaram num jogo de poder. Fragilizado, o Verdão arrastou-se, lesma claudicante, pelos gramados daqui e dacolá, envergonhando sua torcida, e deixando à mostra suas entranhas e machucaduras profundas. Isso não pode ser esquecido, assim, num bater de cílios, ou porque as lágrimas, momentaneamente, cederam lugar ao riso.
O time está na final da Sul-americana, parabéns!, mas também está na Série B do Campeonato Brasileiro, longe da elite futebolística. Aquele que sempre foi referência nacional, hoje, está relegado a um lugar que não condiz com sua tradição e, menos ainda, com críticas destrutivas, achincalhes e desapontamentos.
Durante meses e meses, o Goiás figurou nas páginas policiais e nas do esporte debochativo, ridicularizado, chacoteado (e chicoteado) pela imprensa e por seus adversários (de todas as esferas): isso é fato, e não pode ser subestimado. Apático, o time não reagiu, não ostentou sua dignidade, muito pelo contrário, expôs sua fragilidade em atitudes indignas de legítimos esmeraldinos e de profissionais competentes. Rafael Moura, corajoso e indignado, apontou os “inimigos” do Goiás, e Harlei, com a lucidez de sempre, referendou o companheiro, e trouxe à tona sua decepção. Dois esmeraldinos de coração, de alma, de atitudes, de fibra, lutadores incansáveis, que mostraram, dentro e fora das quatro linhas, respeito pelo alviverde e senso profissional. A garra de Marcão, nos momentos críticos dos jogos, emocionou-me sobremaneira, bem como a de mais um ou outro que, apesar das limitações técnicas, tentavam defender seu distintivo, e evitar a desonra esmeraldina.
O Goiás está na final da Sul-americana, fico envaidecida, porém, não me diminui a indignação por tudo o que aconteceu em 2010, como o rebaixamento; tampouco, cala-me a pergunta: por que só nessa copa os tais jogadores resolveram levar a sério a profissão? Por causa da visibilidade que uma competição internacional dá às suas carreiras? Baitas oportunistas!
É hora, sim, de dizer tudo isso; antes, talvez não fosse, pois não se pisa em quem agoniza, em quem está no chão mutilado e impotente. E não me chamem de desmancha-prazeres! O que digo tem a forma de alerta.