quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

DIÁRIO DA MANHÃ - 1º/1/11

UM ANO HISTÓRICO: BEM-VINDO, 2011!

Lêda Selma

“Nunca na História deste País”, um ano chega com tanta expectativa como 2011. Não, não, preciso rebobinar o tempo! A História deste País já viu, sim, algo parecido: 2003 surgiu ciceroneado por rastros de luz, emanados da eleição de Lula à Presidente da República. Um homem do povo, ex-operário, de pouco estudo, com um português avariado por regências e concordâncias verbais e nominais desconcertantes, um contraste, aparentemente constrangedor, em relação a seus três últimos antecessores, figuras traquejadas, empinadas, sorboneados e poliglotas, sempre de carona com seus ternos, camisas e gravatas de grifes italianas, inglesas e francesas. Todos, de fino trato e ilustres em seus círculos de convivência, quer nas esferas social e política, quer cultural e econômica. O primeiro, imortal, fez um governo malfadado. O outro, de empáfias mil, foi deposto pelo povo. E o mais falastrão, devorado pela impopularidade.
Parênteses: mamãe contava que, lá pelos idos de 1948, certo moço, de uma cidadezinha baiana, candidato a sacristão, foi desaprovado pelo padre: era analfabeto. Frustrado e com a humilhação a lhe contundir os brios, pois não pôde desempenhar o tão sonhado ofício, vendeu o pouco que tinha, e partiu, sem destino, à cata de alguma ocupação. Nem tardou tanto, achou os dois: o destino e a ocupação. Tempos depois, voltou abonado, no trote de um belo cavalo de raça, a bordo de um terno branco de linho 120, chapéu Ramenzoni 3 X, cabelos lustrados de brilhantina e pele recendendo Seiva de Alfazema. Uma pose de dar inveja. As línguas viperinas, de palmo e meio, logo propalaram a riqueza do retornante. Alguém, ironicamente, comentou: “Sem saber ler e escrever ele se enricou desse jeito, imagine se soubesse...”. Ao que outro concluiu: “Se soubesse, não teria passado de sacristão do padre!”. Nenhuma apologia ao analfabetismo, naturalmente! Fecho os parênteses.
Assim, 2003 começou apoteótico em emoções, comoções e prognósticos variados. Sonhos espocaram alegremente, esperanças acenderam-se aos borbotões, projetos de vida ressuscitaram, e um nordestino simples, barbudo, rouquenho, carente de um dedo e com a língua presa, apesar de solta (vá entender...), tornava-se o personagem maior de um Brasil que despontava para o futuro, sob certas desconfianças e milhares de esperanças.
Os quatro anos multiplicaram-se em oito, com a reeleição. E o Brasil cresceu, conquistou prestígio internacional e se fez grande e soberano aos olhos também do mundo. E milhares de brasileiros relegados à pobreza, à miserabilidade, ao abandono e à exclusão, marginalizados até pela própria vida, descobriram-se cidadãos, com direito à dignidade que o emprego formal, a casa própria, a comida na mesa, o lazer, a escola e a universidade lhes propiciaram. A economia em ascensão constante, a comunicação simples e sincera com as massas, a identidade com os desfavorecidos ajudaram o governo Lula a se fortalecer e a conquistar credibilidade e respeito lá fora. Ah! também contrastando com seus últimos antecessores, o ex-operário, como “nunca na História deste País”, deixou o poder com índice recorde de aprovação: 87%. Baita desafio, hem, Dilma?!
Pela segunda vez na História deste País, um ano já irrompe histórico e comboiado por muitas expectativas e emoções. Desta feita, uma mulher comandará o destino de quase duzentos milhões de brasileiros. Com euforia, 2011 abre-lhe passagem, desafiando-a a assumir o leme, com serenidade, discernimento e ousadia, como timoneira de um povo que já não se alimenta só de esperança, que já não se satisfaz com migalhas restadas de classes superiores, um povo que, pela cidadania, aprendeu a ocupar seu espaço e a ser verdadeiramente feliz. Que Deus a proteja, presidente (ou presidenta) Dilma Rousseff, e ajude-a a combater as sementes e as escaras da corrupção, da pobreza e da exclusão social!
A todos, um 2011 promissor, luminoso e abençoado!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

NATAL DE MUITOS NATAIS - DIÁRIO DA MANHÃ/25/12/10

Mais um Natal e, com ele, ritos e mitos, esperanças caducas, desejos senis e a paz, em sua brancura vermelha, mais uma vez, apenas um vulto baço perdido em muitas trincheiras que, no decorrer dos tempos, amotinaram ódios, disputas, megalomanias, loucuras. Apesar disso, é Natal e ele ainda ostenta o símbolo da fraternidade e da esperança de um reencontro com Cristo, o aniversariante do dia, nem sempre, o mais festejado. Guerras há, mas o Natal continua como vínculo que irmana a fé cristã.
No Natal, corações se abrem (e os espíritos...?!) e, em polvorosa, desenham sonhos luminosos, expectativas instigantes, momentos especiais. Afinal, ele é um mago de cabeleira, barba e promessas envelhecidas, porém, de vigor aceso. E, a cada ano, sem crise, então, o comércio se alvoroça e enfeitiça crianças e adultos que, em transe, se preparam para o banquete das compras, enquanto os problemas, numa fuga em massa, recolhem-se em asilos provisórios, pois nenhum desmancha-prazeres é bem-vindo nessa época. Todavia, o acinte da miséria permanece deitado sobre as calçadas, expondo à sociedade homens-molambos, carentes de dignidade e de cidadania, a banquetearem-se com a fome, com a exclusão, com o vazio das mãos e dos olhos, sob o testemunho do sol e das estrelas, únicas luzes de seu Natal.
Muitas são as caridades acontecidas neste período. Hospitais, creches, lares, abrigos... recebem doações de toda a espécie e de muitas mãos e, assim, participam da alegria momentânea que caracteriza a fugacidade das festas de fim de ano. É muito pouco. Não apenas no Natal a fome, a desesperança, as carências e o sofrimento clamam por socorro. Que se doem, pois, alegria, alimentos, oportunidades, trabalho, carinho, não só porque é Natal, mas porque também é Natal.
Nascedouro de impossíveis, de neve em pleno verão, de renas tropicais, de bons velhinhos saracoteantes e incansáveis, de chaminés em espigões, de bolsos mágicos, de dribles desconcertantes do comércio sobre os incautos consumidores, de alegrias e realidades mascaradas, é o Natal; e ele instiga sentimentos, encontros, festejos, esperanças, promessas... É verdade que, muitas vezes, o aniversariante do dia, o Menino Jesus, nem lembrado é e, talvez, já tenha se acostumado com tal esquecimento. Será...?! O melhor é acreditarmos que não, até porque é sabido que todo adulto carrega no íntimo o menino sobrado da infância, então, por que com o Menino Jesus seria diferente? Aquela criança nascida na manjedoura, há 2010 anos, renasce a cada dezembro. Então, precisamos saudá-la, comemorar seu renascimento.
Fascina-me o Natal e todos os seus ritos e mitos: desmancho as tranças de minha criança interior, e deixo-a patinar, planar, lambuzar-se de folia e traquinar no reino da fantasia, sem limites. E, como qualquer mortal, apesar da imortalidade acadêmica, deixo à solta meu lado lúdico e "profano" e espero ansiosa as surpresas deliciosas da noite natalina e a chegada dos presentes - encanta-me descobri-los, despertá-los.
Gostar do Natal, da expectativa que embrulha os presentes, da alegria a piruetar nos olhares de cada um é algo cultural em minha família. Fomos criados sob o encanto desses festejos. E, embora muitos dezembros me tenham trazido grandes perdas (a morte violenta de meu irmão, à véspera de um Natal; a partida de meu pai e, ano passado, a de minha mãe), apesar de ter sido privada da presença do meu filhote, mesmo assim, ainda consigo ver com deslumbramento quase pueril as luzes que enfeitam essa festa religiosa, com panca de profana.
Natal, para muitos, é templo da alegria; para outros, esconderijo da tristeza. Misto de alegria e tristeza, do religioso e profano, de afetos e de presentes, o Natal existe: para trazer o Cristo de volta. Um Cristo humanizado. Parceiro. Esperançoso. Um Cristo feliz!
A todos, um Natal abençoado

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO - DIA 18/12 - DIÁRIO DA MANHÃ

À TRIPA FORRA

Lêda Selma

– É mesmo como dizem: até Deus duvida das coisas acontecidas nestas bandas.
– Se duvida... E é cada uma de deixar até Ele de queixo na mão.
– Verdade. Ah! e esses nossos amigos, patusqueiros incorrigíveis!? Criam rebordosas que não deixam saudade.
– E que rebordosas! Aquela, então, da menina Imaculada, pouco depois de tomar estado...
– “Tomar estado”...?! E que esquisitice é essa?! Por acaso, a tal Imaculada sofreu possuição?
– Que possuição que nada! Ela se matrimoniou, ora! Os senhores não se lembram do falatório que zanzou de língua em língua?
– Todos se lembram! Um caso danado de esquisito, aquele, Deus me sombreie a memória e me refresque o espírito!
– E o vexame, então?! Dos piores, convenhamos...
– Também, pudera: um marido como aquele...
– Ih! estou por fora! Sou novo aqui, portanto, desconheço o ocorrido. O ocorrido e esse palavreado. Como imaginar que “tomar estado” é o mesmo que casar?! Bom, minha curiosidade lhe pergunta: e o tal marido?
– Muito bem. Matracaram por aí que, três dias após o casamento da coitada com o Pescanildo, filho mais moço de um fazendeiro de muitas posses, pois bem, em pleno fulgor da lua de mel, ele saiu pra pescar, com uns amigos, por “pura falta do que fazer”, pasme!
– O quê?! “Por pura falta do que fazer, em pleno fulgor da lua de mel”...? Quer dizer que o marido trocou a mulher pelos peixes?!
– Foi o que concluíram, após a história evadir-se da própria boca do recém-casado! Dizem que toda aquela manhã, destinada às estripulias do amor, foi consumida em tentativas impeixíferas, melhor dizendo, inúteis. Os peixes? Que nada! “Carência de isca boa”, resmungava, aos companheiros, o ocioso, isto é, o marido, a bem da realidade, o faltoso conjugal.
– E a mulher... Hum!... suponho, fresquinha, cheirosinha e cheia das vontades, na vã espera pelo inativo... É, no quesito folguedos conjugais, um canastrão, hem?! Mas e daí?
– Daí é que ele tentava, a todo custo, resolver o impeixe, não, não, o impasse, ou seja, a “carência de isca boa”. De repente, uma dica paterna sobrevoou sua mente; decidido, adonou-se da velha espingarda e... cric! Com um tiro, um só, alvejou de morte uma rolinha doméstica – xodó familiar e, em especial, da Imaculada – antiga hóspede da enorme e velha árvore que refrescava o varandão, nos fundos da cozinha. Distraída, a pobre avezinha passeava lépida pelo local, sem desconfiar que fazia seu último voo...
– Bem, e então?
– Sem o mínimo remorso, nem mesmo afetivo ou ecológico, o malvado cortou a cabeça da falecida rolinha.
– Uma rolinha morta e decapitada... Deixa pra lá. Prossiga.
– Afoito, e com a expectativa ainda mais acesa, Pescanildo, após o malfeito, reanimou a tralha e rumou, de volta, para a lagoa.
– E...
– Peixes aos borbotões! Cada peixe! Sem dúvida, pesca farta, mas que quase enfarta a desgostosa esposa, já farta de tanta inadimplência marital.
– Como assim, criatura!?
– Animado com a façanha, que lotou cestos e cestos de peixes, o tresloucado marido entrou em casa atroando: “Mulher! Mulher! É peixe que não acaba mais, aos montões, venha ver, venha! Isca batuta aquela bendita cabeça!”.
– Homem de Deus, posso adivinhar o motivo do quase enfartamento da mulher do tal marido, ou melhor, fiasco de marido! Prossiga.
– Bem, com o semblante meio nublado, Pescanildo baixou a voz, jogou os olhos no chão, e falou para a mulher: “Só há um problema, querida, e sei, vai chatear você. Lamento, mas tive de sacrificar um bem muito precioso: nossa rolinha, mais precisamente, sua pobre cabeça”...
– E ela?!
– Surpreendente, respondeu: “O que não tem jeito, ajeitado está. A rola é morta e não adianta chorar sobre as penas espalhadas, nem sobre nossa lua de mel depenada. Agora, se vira, negligente! Quero curtir à tripa forra o que resta desta tarde. Portanto, levanta, sacode a moleza e dá a volta por cima. De mim, naturalmente. Arre!”.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

UM SONO SOSSEGADO - DM 11/12/10

UM SONO SOSSEGADO


Lêda Selma


– É, doutora-juíza, meu caso é complicado. Sou homem sério, maduro e, na verdade, carecia de uma companheira, moça honesta, voltada para as coisas do lar e com pensamentos de asas curtinhas, bem curtinhas! Se necessário, cortadas bem rente que é pra não deixar a mente sair voando por aí, perdida na vadiagem. Pensamento é um perigo, é atalho pra perdição – falou pausada e arrastadamente um senhor de porte franzino, voz e gestos trêmulos e olhos de um marrom cansado e sonolento.
A juíza, uma cinquentona insossa, de ar austero e nenhuma simpatia, esfregou as mãos como se espantasse a impaciência, mexeu em alguns papéis sobre a mesa, como a demonstrar pressa, e olhou fixamente para o quereloso, exigindo-lhe objetividade:
– Bem, o que posso fazer pelo senhor? Se é que posso...
E ele, meio sem jeito, tentando fugir da impertinência da magistrada, encantoou a timidez, pigarreou duas vezes e, encolhendo-se na cadeira, respirou fundo, desviou o olhar e recomeçou:
– Fiquei viúvo há mais de vinte anos, meritíssima, e, desde então, a tristeza se acomodou em meu peito. Assim como o peso, a idade aumentou, a velhice chegou implacável, na rapidez do tempo (já virei os oitenta e quatro), a solidão, dia a dia, acochou mais e mais, a necessidade de uma companheira para cuidar de mim não parou de esgoelar noite a dentro, dia afora... e, então, resolvi procurar alguém pra sossegar todo o meu desassossego. A senhora sabe, quem procura, quase sempre acha, pois é, achei: uma sessentona simpática, discreta, recatada, evangélica, daquelas com a bíblia sempre nas mãos, olhos fincados no chão, tranquila por demais, quero dizer, durante os dois meses de namoro. Foi só a gente se casar, e ela se endiabrou, doutora, se revelou gananciosa pelas coisas do sexo, uma perdulária sexual compulsiva; olhe, não sei onde a desregrada arranja tanta energia pra gastar, não sei, a senhora entende?
– Não, não entendo; se o senhor puder ser objetivo, quem sabe?!
– Bem, por conta dessa gulodice, a faminta não me dá mais trégua noite alguma, nem nas tardes pares da semana, que, aliás, são mais que as ímpares. Diz, esbravejando, que quer tirar a diferença do tempo perdido no marasmo da virgindade, que exige seus direitos de mulher casada, e que preciso cumprir meus deveres de marido, conforme a senhora falou no dia do casamento, e eu prometi. A bem da verdade, meritíssima, não me lembro disso... Também, surdo dos ouvidos e da memória, como sempre fui em certos momentos...
– Mas, e daí? – retrucou, irritada, a juíza.
– E daí é que a gananciosa solicita meus préstimos carnais com uma pontualidade e sofreguidão constrangedoras, de arrepiar até os cabelos que me faltam. E eu lhe pergunto, doutora-juíza: tenho lá idade para tais extravagâncias, para trabalhos forçados e até horas-extras?! Além do mais, não me casei pra ser consumido e sim, consolado.
– O senhor conclua logo o motivo de sua vinda, pois ainda não entendi o que posso fazer...
– Anular o casamento. A lei tem que ter misericórdia de mim, senão, qualquer noite dessas, durmo aqui e acordo do lado de lá, porque meu coração não tem mais fôlego pra tantas danuras.
– Não é assim, meu senhor. Eu não posso ir anulando casamentos...
– Pode, sim! A senhora fez o casamento, desaguou todo aquele palavrório, me fez prometer o que nem ouvi, então, pode muito bem desfalar o falado, e eu desprometer o prometido (que, a bem da verdade, se prometi, foi sem querer). A senhora não me entendeu, meritíssima: na realidade, eu só queria me casar pra ter uma mulher relando em mim enquanto eu dormia um sono sossegado. Afinal, meu patrimônio sexual foi tombado, há muito, e não há lei que reverta isso.

SUA BÊNÇÃO, MESTRE URSULINO! DM 4/12/10

SUA BÊNÇÃO, MESTRE URSULINO!

Lêda Selma

A Academia Goiana de Letras instituiu 2010 como “Ano Cultural Ursulino Tavares Leão” em homenagem ao acadêmico que militou tanto na educação e na política, quanto na advocacia e, ainda hoje, ativamente, na literatura, sempre se destacando pelo talento e sensibilidade. Romancista de ponta, poeta de estações e cronista de verve cheia (que o digam suas crônicas no jornal O Popular) Ursulino é um intelectual de posturas claras e sérias, homem de invejável caráter e grandeza de espírito, e seu senso inovador jamais lhe permitiu abster-se de enfrentar desafios e adversidades. Tudo isso converteu-se em respeito e admiração de todos aqui e acolá.
Vários eventos, no decorrer do ano, reverenciaram o ilustre escritor, que presidiu, por 16 anos, com entusiasmo, competência e empreendedorismo, a Academia Goiana de Letras; como membro da Casa, é um dos mais assíduos.
Cidades como Crixás e Anápolis promoveram solenidades focadas na trajetória de vida e na obra literária do homenageado. Em Crixás, foram muitas as festividades e até uma escola ganhou seu nome. Em Anápolis, após saudado por vários oradores, em calorosas falas que realçaram seus feitos como escritor, professor, advogado, político e até fazendeiro, enfatizadas, naturalmente, suas notáveis qualidades humanas,
a prefeitura outorgou-lhe o troféu “Mérito da Cidadania”, distinção conferida apenas aos que se destacaram nas diversas áreas de desenvolvimento do município, com atuações marcantes em benefício da comunidade.
O ápice da sessão, entretanto, ainda aconteceria, protagonizado pelo prefeito Antônio Roberto Gomide, que propiciou a Ursulino o momento mais emocionante da solenidade: a revelação de que o nome de seu filho Tomás foi uma homenagem ao amigo de infância, Tomás, o primogênito de Ursulino, que se estrelizou há alguns anos, coincidentemente, em um 30 de setembro, no limiar da primavera. Tal surpresa mudou o compasso do coração ursuliniano.
Com a emoção à flor dos olhos, Ursulino Tavares Leão ofereceu o troféu à Lara, filha de Tomás, que o recebeu sensibilizada; em seguida, bastante comovido, enfatizou o significado e a importância de tamanha homenagem, invocando a lembrança de sua mulher Lena, partícipe de todos os momentos que construíram sua história, e a quem devota, como já é notório, além da imensa saudade, um amor à prova de tempo, de saudade, de dor e de morte. Lena eternizou-se no coração apaixonado de Ursulino Leão, que deixa a alma voejar pelo parnaso da poesia para reverenciar a mulher amada, muitas vezes sob as bênçãos verdejantes da fazenda São João, também personagem constante de suas crônicas.
A referida sessão, outra vertente das várias comemorações alusivas ao “Ano Cultural Ursulino Tavares Leão”, realizada no gabinete do prefeito anapolino, começou com música, na voz da cantora Goiana Vieira, e encerrou-se também com música, nos acordes do violão de Cláudio Lima, professor da Escola de Música da Prefeitura de Anápolis.
Após a solenidade, Nazaré, irmã do homenageado, convidou os acadêmicos presentes para um coquetel em sua casa – ressalte-se, delicioso! –, o que aconteceu numa atmosfera de alegria e de fraternização. “Leãozinho”, assim chamado carinhosamente na intimidade, estava feliz, e seus familiares e confrades, orgulhosos. O Ano Cultural, que ostenta orgulhosamente seu nome, dimensionou, uma vez mais, o prestígio desse renomado intelectual, que tanto dignifica a história sociocultural e política de Goiás.
Ah! em clima de euforia – claro!, o Verdão da Serra despertou de um longo estado letárgico, e caminha, em grandes passadas, para seu maior momento, marco histórico, a conquista do título de Campeão da Copa Sul-amerticana, como representante do Brasil! – faço, também, nesta crônica, minha homenagem ao especial amigo Ursulino, o querido Leãozinho, que tantas lições já me repassou nesses tempos de estreita convivência. E o curioso: embora as festejações sejam todas para o dileto confrade, a presenteada fui eu: Ursulino, num gesto máximo de afeto e carinho, transferiu-me a “guarda” de uma relíquia da língua portuguesa, presente de seu pai, em 15/6/1938, o “Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa”, de Cândido de Figueiredo, editado em Lisboa. Sem palavras, meu mestre! Apenas, peço-lhe a bênção.

O IMPREVISÍVEL FUTEBOL CLUBE -DM 27/11/10

O IMPREVISÍVEL FUTEBOL CLUBE

LÊDA SELMA

Há que se entender o futebol... Feito de raça e de graça, de poesia e de acrobacias, de sonhos e de frustrações, de balbúrdia e de silêncio, de peito a pulsar sob o distintivo, de paixão incondicional à camisa...
Há que se entender o torcedor... Generoso ou incondescendente, vibrante ou omisso, passional ou alheado. Seu combustível, a vitória. Sua felicidade, o grito de gol. Seu orgulho, o brilho de suas cores.
Há que se enfocar a ação de certos jogadores... Ora movidos por interesses pessoais, ora pelo dinheiro, ora pelo descaso, ora por seu ideal, ignoram, muitas vezes, o compromisso com o clube e o amor pela camisa.
Na final da Copa Sul-americana, está o Goiás. Um fato histórico. Um feito heroico. Um momento de devoção. De comoção. De louvor a Deus na voz sufocada de Harlei. No gesto, ainda em campo, de Rafael Moura, pedindo sangue e garra a seus companheiros. Uma alegria inusitada, que brotou do lodo, de um sonho murchado há três das, e que deu sobrevivência moral a uma nação desencantada e sofrida: a esmeraldina.
O Goiás Esporte Clube, o Verdão da Serra, conterrâneo de Cora Coralina e de Hugo de Carvalho Ramos, é o Brasil, com os tons e sabores do cerrado, vestido de verde e branco, lambuzado de pequi, cheirando flor de ipê. Um Brasil banhado pelo Araguaia, enfeitado pela Serra Dourada, pousado no Centro-Oeste, bem onde seu coração bate ao ritmo da catira.
Sem dúvida, um feito grandioso a classificação do alviverde goiano. E o instante é de comemoração. De emoções entrelaçadas. De orgulho renascido. Afinal, há uma semana, o Goiás tombou combalido, humilhado e com a dignidade esgarçada, após um ano de agonia, um ano em que alguns jogadores pisotearam sua história e enodoaram sua honra. Um ano em que vaidades se exibiram e se digladiaram num jogo de poder. Fragilizado, o Verdão arrastou-se, lesma claudicante, pelos gramados daqui e dacolá, envergonhando sua torcida, e deixando à mostra suas entranhas e machucaduras profundas. Isso não pode ser esquecido, assim, num bater de cílios, ou porque as lágrimas, momentaneamente, cederam lugar ao riso.
O time está na final da Sul-americana, parabéns!, mas também está na Série B do Campeonato Brasileiro, longe da elite futebolística. Aquele que sempre foi referência nacional, hoje, está relegado a um lugar que não condiz com sua tradição e, menos ainda, com críticas destrutivas, achincalhes e desapontamentos.
Durante meses e meses, o Goiás figurou nas páginas policiais e nas do esporte debochativo, ridicularizado, chacoteado (e chicoteado) pela imprensa e por seus adversários (de todas as esferas): isso é fato, e não pode ser subestimado. Apático, o time não reagiu, não ostentou sua dignidade, muito pelo contrário, expôs sua fragilidade em atitudes indignas de legítimos esmeraldinos e de profissionais competentes. Rafael Moura, corajoso e indignado, apontou os “inimigos” do Goiás, e Harlei, com a lucidez de sempre, referendou o companheiro, e trouxe à tona sua decepção. Dois esmeraldinos de coração, de alma, de atitudes, de fibra, lutadores incansáveis, que mostraram, dentro e fora das quatro linhas, respeito pelo alviverde e senso profissional. A garra de Marcão, nos momentos críticos dos jogos, emocionou-me sobremaneira, bem como a de mais um ou outro que, apesar das limitações técnicas, tentavam defender seu distintivo, e evitar a desonra esmeraldina.
O Goiás está na final da Sul-americana, fico envaidecida, porém, não me diminui a indignação por tudo o que aconteceu em 2010, como o rebaixamento; tampouco, cala-me a pergunta: por que só nessa copa os tais jogadores resolveram levar a sério a profissão? Por causa da visibilidade que uma competição internacional dá às suas carreiras? Baitas oportunistas!
É hora, sim, de dizer tudo isso; antes, talvez não fosse, pois não se pisa em quem agoniza, em quem está no chão mutilado e impotente. E não me chamem de desmancha-prazeres! O que digo tem a forma de alerta.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 20/11

PROFESSORA LOUSINHA CARVALHO: MATRIARCA TAMBÉM
DA EDUCAÇÃO

Lêda Selma

Mães são manhãs/ a colher lembranças/ deixadas nas frestas/ de tantos silêncios./ São fios de noites/ a cerzir saudades/ nos beirais do vento.// Mãe das sinas/ mãe dos caminhos/ onde brincam estrelas,/ sossegam temores,/ dormem silêncios,/ despertam manhãs.// Mãe não morre, estreliza-se.
Há perdas que deixam rastos vivos e indesmancháveis. A de um filho e de uma mãe, então... Eu que o diga... Para aplacar tudo isso, esta crônica, um tributo à minha mãe, a professora Lousinha Carvalho, baiana de Urandi.
Desde muito cedo, a bela mocinha já se mostrava vanguardista na arte de ensinar. E, lá para as bandas do sertão baiano, a única “filha mulher” de abastado e respeitável fazendeiro da região inicia sua saga de educadora. A cavalo.
Ainda com jeito de recém-nascida, a primavera goianiense saúda aquela família vinda do interior da Bahia: uma brava mulher, seu marido pernambucano, uma adiantada gravidez e duas filhas pequenas. Na bagagem, também uma trouxa robusta de sonhos e o desejo incontido de dar continuidade ao seu ofício de educadora. Assim, a jovem professora (título que sempre ostentou com desmedido orgulho), tão logo chega por aqui, retoma o exercício do magistério.
Vinte e seis anos após deixar a Bahia, recebe da Câmara Municipal de Goiânia o título de Cidadã Goianiense. Também a Assembleia Legislativa, em 2002, concede-lhe o título de Cidadã Goiana, forma justa de homenagear tanta dedicação na área educacional. Mas, mesmo oficializada sua goianidade, seu orgulho de baiana sequer foi arranhado.
Quarenta e dois anos de atividades educacionais, e a professora Lousinha aposenta-se, mesmo ainda com fôlego e competência para desempenhar o ofício para o qual se qualificou, aos 18 anos, quando interna do Colégio Imaculada Conceição, de Montes Claros/MG.
Uma vitoriosa, minha mãe! Mulher guerreira, de fibra, de coração em permanente estado de amor. Católica fervorosa e praticante, devota de N. Srª de Fátima, Santa Mônica e Santo Antônio (a cada dia 13, distribuía pães aos “pobres” do santo, como dizia), resignou-se quando perdeu o filho, à véspera do Natal, de forma trágica, e, pouco depois, dois netos jovens. Nem tanto sofrimento tirou-lhe o leme; respeitava os desígnios divinos, e enfrentava tudo com dignidade, galhardia, sustentada pela fé que a guiava. Uma bênção que Deus concedeu a seus quatro filhos, em forma de luz (tudo em que tocava reluzia e que continuará acendendo sonhos, abençoando-nos e velando a família.
Pois é, louros e adversidades compuseram os 89 anos da professora Lousinha, bem vividos, bem sofridos e bem vencidos, sempre com a dignidade dos fortes. Muitas tristezas, dores e perdas precoces entremearam suas conquistas, alegrias e vitórias. Apesar de tudo, a matriarca, patrimônio da Educação e do antigo Bairro Popular (hoje, Centro), jamais deixou arrefecer sua força, consolidada na fé sempre renovada na frequência à Capela Santa Mônica, dirigida pelos padres agostinianos, seus amigos de muitas décadas.
Anteontem, dia 18, minha mãe completaria 90 anos, e a festa seria ainda maior que a dos 80 e 85 anos. Tristeza e saudade fundiram-se, e fundiram-nos, nós, seus filhos. Mas seremos sempre consolados pela grandeza dos exemplos que nossa mãe nos deixou: garra, perseverança, integridade, sabedoria, religiosidade e amor. Tudo isso nos norteará as andanças pelos intrincados da vida.
À oportunidade, reitero o pedido que fiz ao vereador Anselmo Pereira e o estendo a seus pares: dar à praça em frente ao Colégio Estadual Prof. José Honorato, do qual minha mãe foi diretora e professora, além de vizinha por mais de 50 anos, o nome de “Professora Lousinha Carvalho”. Nem preciso ilustrar minha solicitação, pois todos sabem o tamanho do merecimento dessa mulher fantástica, educadora de primeira linha e uma das pioneiras de Goiânia.

domingo, 7 de novembro de 2010

PRESIDENTA OU PRESIDENTE? - JORNAL OPÇÃO - 7/10/10

PRESIDENTA OU PRESIDENTE?
Lêda Selma*
A ascensão de Dilma Rousseff à presidência do Brasil mexeu com o imaginário de muitos e com o vocabulário de outros, o que gerou polêmicas, dúvidas e, em consequência, tergiversações descabidas e conclusões temerárias.
Vários “lexicólogos” – que canastrões! – de plantão esbaldaram-se no ofício de disseminar desinformação aqui, ali, acolá. Assim, grassou pela internet, e pousou em meu endereço eletrônico, um e-mail intitulado Exceção Gramatical. Tal “exceção”, afirmava seu autor e ou difusor, a palavra presidenta. “Uma agressão ao pobre português”, “Invenção da Dilma e de seus sequazes”, “Coisas do Lula” – quantas asneiras apregoava o texto! Ignorância pouca é luxo, francamente!
Nem exceção nem agressão ou invenção (que rimas pobres e enjoativas, credo!). Afinal, a palavra foi dicionarizada há muuuuuito tempo! Em 1943, com aprovação unânime da Academia Brasileira de Letras, surgiu o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, do Prof. Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, cuja base foi o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa (edição de 1940), após acordo entre as duas academias: a Brasileira e a Portuguesa. Nele, consta “presidenta – s.f.”. Em 1956, o termo figura na 1ª edição do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, aquele de capa dura, grossa, preta, organizado por Francisco da Silveira Bueno, e patrocinado pela Fundação Nacional de Material Escolar/FENAME, órgão do Ministério da Educação e Cultura/MEC. Pois é, e naquela época, nem sonhávamos com uma presidenta, até porque, no Brasil, só em meados da década de 30, a mulher conquistou o direito de votar, bem entendido, se o marido, seu chefe e senhor, autorizasse. Presidenta? Nem no pensamento. Rainha, sim, do lar! Porém, visionária, a palavra estava lá no dicionário: “presidenta, s.f. (Neol.) Mulher que preside, a esposa do presidente”. Convenhamos, nesta última acepção, bastante curiosa; os outros dicionaristas também a adotam, todavia, não a consideram neologismo.
Nem de Lula nem de Dilma. A Invenção é da língua mesmo, sempre viva e mutável. Quem duvidar, consulte o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa/VOLP (publicação da Academia Brasileira de Letras), os dicionários do Aurélio, do Houaiss, do Antenor Nascentes, do Paschoal Cegalla, a Enciclopédia Delta Larousse...
Presidenta, sim senhor, com muita honra e autonomia, que fique claro!, defende-se o feminino de presidente, exigindo respeito e direito à vida e à legalidade. E com toda razão, ora! Que muitos a julguem um modismo, não lhe percebam atributos femininos, não a considerem bonita, charmosa, bem soante, que a sintam com ares de pernóstica, tudo bem!, mas daí a lhe negarem espaço, tenham paciência! Afinal, se se trata de um vocábulo correto, qual o inconveniente em lhe darem legitimidade? A palavra existe, e pronto! Respeito é bom e ela gosta.
Presidenta ou presidente, o Brasil, que mantém ainda fortes ranços machistas, elegeu a primeira mulher para o topo do poder, e isso é histórico. Então, que cada um faça uso da palavra mais condizente com seu gosto ou intimidade. Quem optar por presidenta, use-a sem susto, sem medo de errar, e sobreponha-se às críticas e ao preconceito, convicto de que nenhuma agressão à Língua Portuguesa o vocábulo perpetrará. A malfadada teoria da “exceção gramatical”, ah! essa, sem dúvida, é um acinte à presidenta, ora se é!
Agora, cá pra nós, acho mais bonita a palavra presidente. Mais suave, bem mais elegante. No entanto, presidenta é imponente, ressoa forte, tem algo de inusitado e muita personalidade. E então?
Bem, seja qual for nossa escolha, estaremos bem servidos. Além do mais, é instigante a possibilidade da variação, da troca do lugar-comum pela novidade. O usual, às vezes, torna-se sem graça, insosso...
Bem-vindos, pois, os dois vocábulos! E que Deus os proteja das polêmicas inócuas, e abençoe nossa presidenta, ou presidente, como queiram!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

CRÔNICA: PORTO DE GALINHAS - Sábado, 6/10/10

PORTO DE GALINHAS: NICHO DA BELEZA

Lêda Selma


Belo passeio, apesar de alguns vieses e reveses. Viagem com nuanças saudosistas, familiares, lá pelas bandas nordestinas, mais precisamente, Pernambuco.
O início, Porto de Galinhas, um encanto de lugar, mar de verde instigante (ai, meu Deus, por falar em verde... socorro! Piedade, Santo Expedido, todos os santos, anjos, arcanjos, orixás!!!), pois é, verde permeado de um branco espuma a colear imponente, às vezes, em forma de bailado, às vezes, em ritmo de contorções.
A origem do nome Porto de Galinhas, lenda ou não, remete-nos a um tempo sombrio, que tem em sua história capítulos de uma indignidade aviltante: o período da escravatura. Pois bem, dizem que o curioso nome surgiu após a abolição, quando os negros vindos da África entravam no Brasil, clandestinamente, por rota que se desviava do Recife, devido à fiscalização rigorosa, e rumavam para uma praia nas cercanias da capital, onde desembarcavam em engradados de galinhas-d’angola, para serem traficados e escravizados. Ao aportarem, bradavam os contrabandistas: “Tem galinha nova no porto!”. Daí, a denominação Porto de Galinhas. Baita ironia: antes, um lugar infernal. Hoje, um lugar paradísico. Um dos locais que Deus, por certo, escolhe para descansar ou para apreciar a magnitude de Sua criação, ostentada na mornidade clara daquelas águas transparentes, nas piscinas naturais, redutos de serelepes peixinhos multicoloridos, no balanço lânguido das jangadas deslizando sobre a verdice do mar, tudo sob um céu azul-turqueza que torna encantada a paisagem de um dos mais admirados balneários do litoral pernambucano, a 70 quilômetros de Recife, no município de Ipojuca.
Próxima parada, “Ricife”, como dizem os nativos, no emblemático bairro da Boa Viagem, cuja praia xará restringe-se, hoje, quase só a um belo cartão de visitas – xô, tubarão! O Hotel Atlante Plaza, coisa fina! E foi lá que, à noite, véspera do meu retorno a Goiânia, (antecipado devido ao 2º turno, afinal, queria participar da eleição de Dilma), a camareira, toda orgulhosa e doidinha para mostrar-me sua “importância”, disse-me, forjando um tom displicente: “Amanhã, vai ser um tumulto e tanto aqui. Eu cuido da suíte de Lula, e ele chegará logo no início da tarde, aí, é só correria”. Maximizei a função desempenhada pela moça e, então, ela não se fez de suplicada: “Sou muito amiga dos artistas da Globo, do Zezé Di Camargo, tenho foto com essa gente toda, até com Lula, homem simples, o pai dos pobres”. E, em ritmo de carreira, despediu-se com a convicção de que me impingiu forte impressão. Uma simpatia, a Maria do Carmo!
A visita a Caruaru, terra de meu pai, o almoço preparado por uma prima, as conversas sobre nossa família, tudo ungido por lembranças e saudades, construíram momentos tocantes e inesquecíveis. Uma viagem que me permitiu resgatar raízes paternas e conhecer, mesmo com atraso, histórias familiares.
Em Olinda, além da beleza e riqueza históricas, o som invisível e não, inaudível, do bloco de Alceu Valença, marcando o carnaval da sacada azul de seu sobrado. O frevo e o maracatu parecem vivos nas ladeiras.
Ah! voltarei a Recife, ao hotel Atlante Plaza. Parênteses: é sabido por todos que, não raro, tenho “brancos” inacreditáveis, distrações antológicas. Neste caso, o elevador, o cenário (após meu desjejum). Bom, entrei, seguida por dois senhores, um de cabelos grisalhos e o outro de cor morena. Cumprimentei-os, apertei o botão do 8º andar e, ao sair, disse-lhes alegremente: um lindo dia para vocês! Encaminhei-me à suíte, bati à porta, pois imaginava meu marido lá dentro (ele detinha o cartão) e, de repente, percebi alguém às minhas costas. Quem? O marido, para meu espanto! Intrigada, perguntei-lhe: uai, onde você estava? E ele, ainda mais desentendido: “No elevador, ora, subi com você!”. Meu Deus! – retruquei apalermada – então, você era o senhor de cabelos grisalhos...?!

sábado, 16 de outubro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 16/10 - DM

O MENDIGO E O ASSESSOR POLÍTICO


Lêda Selma


– De novo por estas bandas, doutor? – iniciou a prosa, o mendigo Safadino.
– De novo, amigo. E, como sempre, de carona com a correria.
– “Amigo”, é? Pois sim! Olhe, a pressa é inimiga da eleição, e o apressado pode comer derrota, não é mesmo? Afinal, de voto em voto, o candidato enche a urna...
– O amigo tem certa razão... Mas fazer o quê? O tempo é padrasto e não favorece ninguém com alguma benessee...
– Benesse, doutor? Eta palavrão gostoso para o paladar político! Tão mágico quanto as promessas eleitoreiras, né?
– Há de se prometer muito durante a campanha. Prometer o bom e o melhor. O eleitor merece. Além do mais, ele é ávido por promessas.
– Por promessas, doutor?! Não seria por ações? Compromissos? Verdades?
– Talvez, sim. Olhe: prometer é preciso. “Faz parte”, já dizia, sabiamente, um famoso big brother, lembra-se?
– Se lembro, doutor...! Mas certas promessas, “ninguém merece!”, já dizia a outra da turma. De volta ao assunto das promessas, é cada uma...!
– As promessas adversárias, naturalmente. Desleais com os eleitores, garantem o absurdo. Nosso candidato não; suas promessas são verdadeiras e sólidas. Em sua gestão, teremos o paraíso. O paraíso prometido por tantos, mas só possível com ele. (Bem, depois da eleição, o purgatório é uma saída) – arremata em pensamento.
– O paraíso, é?! Rum, com as promessas descabidas que tenho ouvido por aí...? Paraíso, só quando o cabra morrer e for recebido pelo Pai. Mesmo assim, só se tiver o saldo de merecimento aprovado por Ele, a tal ficha limpa. E, no caso, sem maracutaia...
– O amigo é muito cético, desconfiado, ora! Há de se separar o mau do bom candidato.
– Seu candidato é o bom...
– Sem dúvida alguma, é o melhor: homem de bem, só promete o que pode realizar, não engana os eleitores, não lhes subestima a credulidade...
– “Serra, serra, serrador, serra o papo do...”
– Que gozação é essa, amigo?! Estou enganado ou há certa ironia nessa sua lembrança de infância?
– Ah! o senhor conhece a musiquinha...! E ela vem a calhar, doutor, percebeu? E o papo a ser serrado agora é outro, também de um vovô, porém, um vovô careca, com um papo enorme e que, de promessa em promessa, vai crescendo, vai crescendo até estourar a paciência do eleitor... “Serra, serra, serrador, serra o papo do vovô...!”. A sugestão está dada, quem se habilita...?!
– As promessas são fundamentais para o candidato e impactantes para o eleitorado mais carente: transporte farto e de qualidade (cafezinho, ar condicionado, toalete, TV LED); moradia com suíte e closet; cestas nem um pouco básicas, ao contrário, recheadas de guloseimas finas; isenção das taxas públicas a todos os do salário mínimo; saúde de primeiro mundo, sem fila, postos confortáveis e com médicos renomados; escolas em cada bairro; contingente policial quintuplicado, assim como o salário; policiamento diuturno em todos os cantos da periferia. Tudo muito simples. E possível. E o principal: já no primeiro dia de governo.
– A síndrome do engodo contaminou o senhor? O primeiro dia mal dá pra festança do porre, isto é, da posse. Pareço leso, doutor?
– O que é isso, amigo?
– Quem lhe pergunta sou eu, ora essa! Como todo esse despautério pode ser feito no primeiro dia se até Deus careceu de sete pra fazer o mundo?! Um super-Deus, seu homem-candidato, é!?
– O amigo nem parece brasileiro que vive e sobrevive de esperança...
– Nos últimos anos, felizmente, não mais só de esperança. Minha patroa tem invocado a intercessão de Maria para que esse tempo continue, afinal, a Santa é mulher, mãe, e mulher sabe das coisas, doutor, pode confiar!
– Sossegue! Após a eleição, promessa vira esquecimento...
– É, doutor, as promessas enganosas agridem nossa inteligência. Arre! Só mesmo criando o PROCEL...
– PROCEL...?!
– Sim, o Procon do eleitor!

sábado, 9 de outubro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 9/10 - DM

DESCOMUNICAÇÃO DAS BRAVAS

Lêda Selma

Tudo começou ainda na infância. O menino não tinha sossego. A tosse chegava num rompante, troteava peito adentro, escapulia boca afora, um suplício que o sacolejava impiedosamente. Zelosa, a mãe não se descuidava: simpatias, benzeções, preces, promessas, tudo o que a fé e as crendices lhe apontavam como solução.
Já dizia sua trisavó: “Mais vale uma má esperança que um bom desengano”. Apoiada nisso, partiu para a lida das crendices: capturou um peixe, cuspiu em sua boca, e o devolveu ao rio, vivo, como mandava o ritual. Por precaução, engatou logo uma outra: escreveu a Ave-Maria num papel, introduziu-o no patuá de cor indefinida, e pendeu-o no pescoço do cachorro; ali ficaria até que o coitado do animal se libertasse dele naturalmente. Todavia, a mais estapafúrdia das doidices, com o fito de acabar com aquela tosse ladrante, veio pouco tempo depois da morte do cachorro (com patuá e tudo o mais). Não é que a aflita mãe colocou o menino para tossir no ouvido da imagem de São Braz? Sim, desassossegando o santo, ele haveria de milagrear em favor do filho, acreditava. Por analogia, deduziu: se o santo era especialista em engasgo, entenderia de tosse convulsa, a tal tosse comprida, afinal, eram áreas afins, meio aparentadas, e, além do mais, todo santo tinha por obrigação ser bom em conhecimentos gerais.
A palavra de ordem, portanto, para aquela desesperada mãe, “tentar”. Sem medidas. Sem economia de sacrifícios. Tudo valia a pena se a tosse não fosse pequena (desculpe-me o trocadilho, Fernando Pessoa), e a do menino era enorme. O filho precisava livrar-se daquele “regougo infernento”. Se necessário, flagelaria São Braz, sem misericórdia, até que agisse de forma competente.
Alguns meses corridos, e a tosse, já nem tão comprida, espaçava-se e, aos poucos, enfraquecia-se. O menino, apenas, vez ou outra, tossicava, “tossinha de cemitério”, afirmava a vizinha. E a mãe comemorava seus feitos com preces de gratidão. A coqueluche, finalmente, estava derrotada em tempo recorde. E graças aos santos e às mandingas.
Passaram-se os tempos, o menino cresceu, virou um homem atarracado e franzino, de pele bacenta e cabelos esporádicos (modelo nem ficam nem desocupam a telha). De repente, ei-la, a tosse, ressurgida com novo status: bronquite asmática. “Culpa da tosse comprida mal-curada”, retumbava, incansável, a avó. “Nem tudo foi feito. Faltou cortar um pedacinho da parte branca da pena do urubu, introduzi-la num amuleto e pendurá-lo no pescoço do coqueluchento”, arrematava insistente.
O certo é que a tosse, de volta, não dava trégua àquele homem de olhar vermelho, olhar de meu Deus, cadê meu fôlego?! Um fôlego cambaleante, raquítico, feito bêbado à mercê da intuição para encontrar o caminho de casa. Um fôlego de deixar qualquer um sem fôlego.
Ano após ano, Troncoso continuava com crises de asmas, cansaço e falta de ar. Aos arrancos, a tosse não o deixava dormir. Uma consumição dividida com a mulher que, conforme prometeu ao marido, instigada pelo padre, no dia do casamento, lhe seria “fiel na saúde e na doença”. Casada, pois, em comunhão também de tosse, fazer o quê, senão uma simpatia? Colheu um punhado de alecrim, deixou-o secar e, depois, amassou-o. Em seguida, colocou-o em um cachimbo virgem. Cada vez que a asma se manifestasse, o marido tossegoso fumaria o alecrim.
Não tardou muito, o médico foi chamado; e intrigou-se com o cachimbo sobre a mesinha de cabeceira. Pensou logo no tabaco.
– Olhe, tente fumar uma vez por dia.
– Fumar, é? Uma..?! Vou tentar, vai ser difícil, mas se é o doutor quem diz...
Dez dias depois, e Troncoso pior.
– Foi complicado, doutor, mas consegui fumar só um.
O médico, ao auscultar-lhe os pulmões, confirmou a piora.
– Doutor, acho que a culpa é do cigarro.
– Sem dúvida. Foi justo por isso que lhe pedi que diminuísse as fumadas...
– Diminuísse?! Fiz foi aumentar, doutor! Afinal, eu não fumava, só fumei agora por prescrição médica, ora!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Crônica publicada no Diário da Manhã, sábado, 2/10/10

DE VOLTA, SAFADINO

Lêda Selma

Nada escapa aos olhos-lupa do astuto Safadino, o velho mendigo trapaceiro e vivaldino, o tal que possui assessora, celular com TV, cartão de crédito e de visita, ar condicionado com controle remoto, carro (sem dúvida, não popular), muita intimidade com certos políticos, pinta de politizado e mania de intelectual.
Com tanta fama adquirida, não surpreendeu os colegas ao criar o mesalão, um derivado do original, mas com característica própria: mesada semanal – matreira inovação. Safadino não ficaria à margem dessa baita mamata, ora, e, tampouco, deixaria sem melhorias a ideia original! Justo ele, chegadinho a uma corrupção?
Nem Safadino suportou as promessas esdrúxulas e carnavalescas de alguns políticos, durante o Horário Eleitoral Gratuito. E, convenhamos, nada há de mais hilário no momento. Novidade? Nem ela, a própria. Tudo velho e insosso. Blablablás comuníssimos. Candidatos com embromações senis. Estratégias de bengala. Discursos reumáticos.
Na verdade, Safadino cansou-se das balelas e embelecos dos canastrões da política na arte de representar. “Cada figura...!” – injuriou-se, ao desligar sua LCD, 52 polegadas, adquirida com mensalinhos amealhados da boa-fé dos passantes. E, antes que a estupefação de todos se lhe mostrasse “invasiva e ultrajante”, encheu o peito e a voz: “Mendigo também gosta de luxo! Pensam que coisa boa é privilégio só de rico? Ih...! já foi o tempo, ó!”.
Safadino, apesar do nome e da postura rotineira, indignou-se com a avalanche de baixarias que enodoou a internet e a mídia nacional, sob a chancela do denuncismo, nas últimas semanas; não que tudo fosse inverdade, óbvio que não!, porém, na carona das pseudoverdades, inúmeras calúnias foram disseminadas pelos veículos de comunicação mais afeitos ao poder da notícia a qualquer preço. Como a comédia e o drama, não raro, completam-se, algumas denúncias margearam o ridículo, tornaram-se até risíveis, e alvoroçaram os incautos. Algumas, como as do “Jornal Serra Abaixo”, Safadino divulgou: “Foi Dilma quem furou os olhos do Assum Preto!”. “Joãozinho sem braço é mais uma vítima da Dilma”. “No escândalo do Paraíso, Dilma deu propina à Macieira para que ela cedesse sua filha (a maçã) a Eva para corromper Adão”. “Exclusivo: Dilma induziu o Todo-Poderoso à criação do Pecado Original”. “Segundo Noé, Dilma é a responsável pelo Dilúvio”. “Está comprovado: Dilma, Ministra de Hitler, deflagrou a 2ª Guerra Mundial”. E, com seu jeito matreiro, Safadino contou-me como tudo começou:
– VEJA: queriam que Dilma, nesta ÉPOCA de campanha, fosse apenas uma FOLHA perdida no GLOBO, à mercê de serração. Não deu certo, naturalmente. Nem poderia, ora! Assim, sem se intimidar, ela serrou os bicos dos tucanos, que ficaram num ESTADÃO lastimável, pôs Lula a tiracolo e PT saudações! Primeiro turno neles!”.
Crítico incomparável, estilo “não olhe o que eu faço e não faça o que eu olho”, e diante de tantas e tantas embófias eleiçoeiras, Safadino resolveu fazer seu protesto, após assistir a um daqueles debates. E desceu o verso:

Em tempos de eleição,
tudo se torna normal:
promessas, sorrisos, abraços,
“bondade” dos candidatos,
sua “rica” história de vida,
sua “pobreza” ancestral,
todos eles, uns santinhos,
distribuindo beijinhos
(tadinhas das criancinhas!)
e tudo é só carnaval!

Para que os tais se elejam
é preciso muito cobre...
Coitadinhos...! O que fazer...
se todos eles são “pobres”...!?!

Pobres são, ah! de espírito,
Ih...! nem Deus dá jeito nisso!
E por falta de propostas,
campanha vira fuxico.
E não há careca, meu nego,
que resista a tudo isso.

sábado, 25 de setembro de 2010

Crônica publicada no Diário da Manhã, sábado, 25/9/10

AH! DESISTI!


Lêda Selma


Nenhum dos meus pretendidos aceitou a candidatura (que seres mais politizados, gente!). A Árvore, melindrada, repetiu-me seu desgosto por eu ter revolvido a história da maçã, naquele famoso escândalo do Paraíso, no início do mundo, em que se envolveu a Macieira. Achou que não foi bom para a classe, ativar a memória do povo, sempre tão acomodado ao esquecimento. Repudiou, injuriada, minha alusão ao outro escândalo, com a mesma personagem, no caso Bruxa versus Branca de Neve e os sete anões. Garantiu-me que nada mudou de lá para cá, ao contrário, a bruxa continua solta e os anões (os da era moderna), não faz muito tempo, mostraram sua performance: contas bancárias obesas, crias da corrupção. E continuou: hoje, os anões viraram gigantes e aperfeiçoaram suas estratégias, pois usam como transporte da carga (a propina), além da tradicional mala (para as mulheres, também bolsas grandes), as meias e a cueca. Sim, a cueca, nicho e transportadora, até pouco tempo, de um único passageiro. Cuecas e meias superlotadas de propinas, quem diria...
Bom, todo esse discurso arvoriano, com fortes conotações corporativas, deixou-me cabreira e com uma dúvida interrogativa: máfia de verde...?! Será?!
O Muro, ah!, esbravejou tanto contra minha ideia que, logo, reconheci: não entendo nada de política. Ele, candidato? Jurou-me: nem pensar! Todavia, apesar de seus protestos convertidos em recusa, muitos foram os leitores que se prontificaram a oferecer-lhe apoio. Ponderaram que o muro ostenta status de utilitário – utilidade pública e privada – e importante papel social a cumprir. Portanto, votos garantidos. Nem assim, o turrão abdicou da recusa, e minha proposta foi para o beleléu. Paciência!
Reconheço: ele tem lá suas razões, motivadas por grandes mágoas e ressentimentos antigos, já expostos. Além do mais, teme ser relegado, apenas, à condição de muro de aluguel, como certas legendas, o que poderia resultar em grandes chateações, como a venda ilegal de seu corpo. Resmungou, protestou, lamuriou... e só faltou buscar consolo junto ao colega israelense, o das lamentações. E, apenas para safar-se de minha insistência, entendi, sugeriu-me a candidatura da Praça. Aceitei e não me fiz de suplicada: tentei.
Que decepção! A Praça, ainda mais cheia de si que os outros, também não aceitou. Argumentei que, por ser do povo, poderia representá-lo com mais legitimidade e inspirar maior confiança ao eleitor, pois está sempre ali, de bancos abertos, acolhedora, democrática, ao alcance de todos, o que, por si só, já a diferencia dos demais candidatos. Não a convenci. Alegou alguns temores, e ressaltou o maior: ficar à mercê do descuido, caso não vença o pleito. Sob o pretexto de que tem um nome, isto é, umas flores e bancos a zelar, arrematou o assunto: de nenhum modo, correrá o risco de se transformar numa ilha cercada de mato, de marginais e de descaso público por todos os lados. Perdi meu tempo e meu vernáculo. E saí com a rábia entre as perdas.
Desisto de vez! A política não é minha raia nem minha laia. É um campo carrasquento no qual não devo me imiscuir: por falta de competência, malícia e, sobretudo, paciência. Não mais lançarei candidato, pronto!
Como nenhuma de minhas investidas pró-candidaturas excêntricas resultou em sucesso, resolvi dar mais uma olhadela no Horário Eleitoral Gratuito. Hilário! E, dizem, meus indicados são excêntricos...?! Pois sim! Assistam ao tal programa. Cada figura...! E as caricatas promessas eleitoreiras? Não há careca que resista à indignação dos ouvintes e telespectadores (que o digam as pesquisas)!
O povo quer se irritar com as tentativas de embromação? Horário Eleitoral Gratuito! Quer ter a inteligência subestimada? Horário Eleitoral Gratuito! Quer rir? Horário Eleitoral Gratuito. Desopila até o pé. Sim, aquele que está sempre atrás...!

domingo, 19 de setembro de 2010

ALGUNS POEMAS DE LÊDA SELMA

Silêncio é vastidão do nada
e poesia, um colibri verdourado,
com hálito de primavera,
a polinizar desertos e escuridões.
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O amor que irrompe da estiagem
é abrupto como um insulto:
acende lareira na alma
e carboniza o coração.
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Araguaia de aruanãs, de saudades ao relento,
do pescar ágil das garças, das gaivotas em alvoroço,
das madrugadas sozinhas, deitadas ao léu, n’areia,
sob algazarra de estrelas.
Araguaia abençoado, alma dos Carajás.
.............................................................................
Esta ferida vermelha,
bem aqui, do lado esquerdo,
seria só cicatriz
se dor não fosse ainda.
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O tempo é pressa. A espera, passo.
Se corro, canso. Se ando, paro.
A vida é fio. O sonho, laço.
Se amo, arrisco. Se desisto, parto.
...........................................................

No silêncio do olhar ausente
se esconde a dor e refugia o medo
e morre o sonho que se fez finito.
............................................................

sábado, 18 de setembro de 2010

Crônica publicada no Diário da Manhã, sábado, 18/9/10

A RECUSA DO MURO


Lêda Selma



O leitor Bruno Andreatta Baldacci, atualmente em Turin, Itália, terra de seus ascendentes, pediu-me, por e-mail, que republicasse a trilogia em que sugiro alguns nomes para candidatos ao executivo ou mesmo ao legislativo.
Semana passada, foi a vez da Árvore. Todavia, revendo sua vida pregressa, lembrei-me da macieira e de seus maus antecedentes, como falta de decoro ambiental por envolvimento em corrupção (o escândalo no Paraíso, em que a maçã foi usada como propina para corromper Adão) e em tentativa de homicídio (quem não se lembra da pobre da Branca de Neve...?!). Resultado: ficha suja, o que me fez cassar a sugestão. Aí, pensei: quem sabe, o Muro!? Eis a segunda crônica:
O Muro, que eu julgava um potencial candidato a qualquer posto político, detestou minha ideia e indispôs seu nome ao pleito de 2010. Diga-se, rechaçou-a veemente, sob a alegação de não possuir as características tão comuns à maioria dos candidatos: voz de falsete, olhar de negaça, boca beijoqueira, sempre à espreita de um inocente rostinho infantil, sorriso fácil e ambíguo, promessas estapafúrdias... Além do mais, aludiu a certos ressentimentos em relação a alguns candidatos, seus antigos torturadores, já que se considera vítima da ditadura praticada por eles, em nome da democracia, o que reputa contraditório e infame. Meio desentendida, tentei inteirar-me de mais detalhes, e ele foi taxativo: em tempos passados, disse-me injuriado, sofreu bastante com o desrespeito contra seu espaço, assim, na maior sem-cerimônia. Quantas vezes, afirmou-me, não teve o corpo agredido e mutilado por propagandas demagógicas!? Quantas vezes, insistiu, não se fez porta-voz de promessas eleitoreiras e impraticáveis, mesmo à revelia de seu próprio desejo ou consentimento!? Quantas vezes, assumiu cores e legendas partidárias que não as suas!? E tudo de forma impositiva, lastimou! E não foram poucos os momentos em que ficou branco de pasmo, confessou-me. Felizmente, desta vez, comemorou, a lei coibiu tais ações e ninguém poderá mais usá-lo como letreiro, cúmplice ou propagador de poluição visual. Sente-se, portanto, vingado e, mais ainda, aliviado.
Assim, por todos os motivos abordados, está descartada qualquer possibilidade de candidatura. Melhor permanecer silencioso como convém a um autêntico muro, concluiu. Não que tenha índole murista, apesar do parentesco linguístico, não, não, garantiu-me. Até porque desempenha, ou já desempenhou, várias funções (algumas nem um pouco ortodoxas ou louváveis, convenhamos): Muro de arrimo, Muro de testa, Muro das lamentações, Muro de Berlim, Paredão... E o pior é que lhe arranjaram até uma companheira: a Muralha da China!
Também, mesmo a contragosto, já amuralhou muita gente – fazer o quê?! – arrematou conformado. Contudo, por via das incertezas, abriu uma fresta para o caso de, em algum momento, optar por romper o silêncio: se o fizer, que seja com poesia, “Poesia em doses”, assegurou- me (ufa! quem ficou aliviada fui eu, claro!). E o silêncio rompeu-se: lá na Alameda Ricardo Paranhos, onde a poesia brotou num murão azul-amarelo. É, o Demóstenes gosta de poesia!
Mas o Muro tem outras queixas graves: não raro, serve de bode-expiatório à polícia, a assaltantes e a carros desgovernados; recebe murros e chutes de casais em desarmonia, e empurrões de bêbados em atrito com o equilíbrio; intoxica-se com drogas e tabaco e, o mais humilhante, funciona como mictório masculino e vomitório coletivo. Ah! e as pichações, então? Obrigam-no a poluir cidades, a proferir gritos de guerra, a emitir opiniões odiosas, a propalar protestos descabidos, a paparicar governantes, a desafiar gangues adversárias, além de ser usado como xingódromo (é cada palavrão...!) Triste sina a sua, lamentou desconsolado.
Bem, como ele, o Muro, sente-se vítima, na plenitude do termo, e exausto de tanto cultuar a esperança e padecer com a falta de perspectivas, acredita que está mais para espectador do que para candidato. O jeito, compreender tamanha frustração e revolta, e aceitar sua negativa.
Já estava descrente quando ele, após matutar:“Tente a Praça. Ótima candidata!”, sugeriu-me. Hum... a Praça...?! Sei não... Será?! No próximo sábado, saberemos.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 11/9 - DM

CUIDADO COM O VOTO
QUE O CANDIDATO É DE BARRO


Lêda Selma


Um leitor brasileiro, de ascendência italiana, Bruno Andreatta Baldacci, residente em Turin, Itália, enviou-me este e-mail: “Cara escritora Lêda Selma, sei que aí no Brasil é tempo de eleição e de enganação. Será que a “dama de ferro” será mesmo presidenta? Cara escritora, há muito tempo, ainda aí em Goiânia, li umas crônicas de sua lavra sobre uns candidatos esdrúxulos como árvore, praça e morri de dar risada. Temos um grupo divertido aqui em Turin e todo sábado acessamos o Diário da Manhã para ler seus artigos que quase sempre são muito hilários. Você se chateará com o meu pedido para republicar essas crônicas, porque assim os outros da turma também poderão lê-las?Se puder me atender, fico grato. Se não puder, coloque as mesmas em seu blog e nós o acessaremos”(...).
É uma alegria atendê-lo, Bruno. Eis a primeira crônica da trilogia, diga-se, bem atual, sem nenhum vestígio de senilidade ou caduquice.
Já houve quem preferisse votar no poste. Pois é, o poste, sempre ereto, altivo e observador, embora silencioso e impassível. Uma preferência defendida sob consistente argumentação, levadas em conta a postura, tradição e potencialidade do candidato, cuja rigidez é algo concreto e notório. Tido como de utilidade pública, o poste é um trabalhador de luz cheia, solidário e solitário, cordato e servil. E, também, adepto da infidelidade posicionária: pouco se lhe dá ser de direita, de centro ou de esquerda e, menos ainda, alvo de fisiologismos ou de atos fisiológicos. Problema mesmo só com o álcool. Não que ele seja afeiçoado a umas doses, não, não, é o álcool dos motoristas que, não raro, o vitima com sérias contusões. Mas, aí, a lei do retorno se propõe logo a vingá-lo. E depois, como na política, fica sempre o dito pelo não dito...
Apesar de hipoteticamente habilitado a disputar uma vaga, tanto no executivo como no legislativo, ao que parece, ele, o poste, não colocou ainda seu nome à disposição de nenhum partido. Caso o faça, penso, será pelo PSOL – questão de analogia, ora! Luz é luz! –, e o sol não nasceu para todos?!
As possibilidades de candidaturas são fartas. Alguém, outro dia, pensou em lançar a árvore, pelo PV, claro!, o que, a boca larga, causou zunzunzuns e blablablás. Talvez, por causa da tal sombra e água fresca tão pretendidas por muitos... De minha parte, reputo-a, boa candidata. Essa coisa de casca grossa é relativa: todos temos as nossas. É, a árvore tem lá seu potencial e, além do mais, já detém imunidade ecológica e decoro ambiental. Hum... espere aí, decoro...?! Pensando melhor, nem toda árvore... Segundo informações bíblicas, por exemplo, a Macieira não goza de antecedentes recomendáveis. Não foi ela uma das envolvidas naquele escândalo sobre o pecado original, ao fornecer a propina com que a Serpente aliciou Eva para corromper Adão? Que quarteto, hem?! Um escândalo sem precedentes. Um detalhe importante: os culpados foram punidos com expulsão imediata e sumária, do Paraíso. Decisão do Todo-Poderoso, que não admite impunidade. E mais: sem as lengalengas ou as embromações das CPIs.
Ah! se a Polícia Federal estivesse por aquelas bandas, à época, os infratores seriam presos e indiciados por formação de quadrilha. E, por lá, seria diferente: a Justiça Divina não os soltaria!
Ih! fui cutucada por uma curiosidade: como se chamaria a inusitada operação? Pensei em Operação paradísica, ou Operação porno-maçã ou, então, Operação desmancha-prazer. Operação, cirurgia, tanto faz. Importante, em qualquer tempo ou circunstância, é enxotar a impunidade, mais robusta a cada dia aqui e acolá.
Que outra árvore se candidate, tudo bem! A Macieira não! Tem fama duvidosa e ficha suja. E não foi a primeira vez que a matusalênica senhora usou uma de suas filhas para fins suspeitos. Quem não se lembra daquela Bruxa trambiqueira que ofereceu maçã à inocente Branca de Neve? Baita tentativa de homicídio!
Depois dessas lembranças, acho mais prudente um outro possível candidato. E por que não o Muro? Por enquanto, só uma ideia...

terça-feira, 7 de setembro de 2010

POEMAS AVULSOS

O PÃO NOSSO...


Lêda Selma


A boca silencia a fome
que também foge dos olhos
e pousa nas mãos vazias.

No milagre do grão, o trigo;
no vigor da espiga, o milho;
no calor da fornalha, o pão.

O pão que engole a fome,
o pão que sossega a dor,
o pão que acolhe o sonho,
o pão que renasce a vida.




PRECE DO DESALENTO


Lêda Selma


– Óia, Deus, encarecido,
Te suplico, neste instante,
um bocadinho que seja
de Tua imensa bondade
pra desiludir a miséria,
esperançar a labuta,
arrefecer a descrença
e botar a vida nos prumos.

– Nesta prece encardida
de precisões sem tamanho,
Te peço, Sinhô, meu Deus
– se por graça merecer
de Tua bondade tanta –,
um pedacinho de terra
(coisa pouca, meia manta)
pra extrair dela o grão
que vai encorpar o pão,
acalentar minha mesa
e sujigar a boca da fome.

– Mas se não der, óia, Pai,
nem zangado vou ficar,
apenas dessossegado;
afinal, fiquei sem rumo,
pois a finada esperança
de mim, agora apartada,
me levou as miudezas
que guardei com muito agrado
em meu embornal de sonhos.

– Óia, Pai, tenta entender
o que pretendo explicar,
pois não quero desinteirar
Tua santa paciência:
só incomodei o Sinhô,
por falta de outra via,
pois os homens do poder
não se deixam molestar.
Todos sofrem de surdez,
só os desmandos têm vez,
o pobre...? Vá se danar!

– E embora meio sem jeito,
o jeito é mesmo implorar
por Tua intercessão.
Estou cansado, meu Pai,
de tanto sacolejar
esta agonia medonha
que não me deixa viver.
Minha fé já arriou,
perdi tudo o que eu tinha:
saúde, sonho, família...
e com a alma vazia,
me restou esmorecer.
Assim, melhor descansar!

– Óia, Deus, sei que o Sinhô
é por demais ocupado:
tanta guerra, tanta fome,
e quantos desempregados
(e pra dar conta dos políticos,
é preciso tempo dobrado!)!
Mas me permita, meu Pai,
por força do desespero
(pois careço tanto, tanto
de um caminho, um trieiro)
Te sugerir, respeitoso,
uma nova empreitada:
se por castigo me deste,
ou quem sabe por esmola,
esta vida malfadada,
já é hora, meu Sinhô,
de me dar, por misericórdia,
a morte como escora.
Eu já fiz por merecer...!



CAMINHO ESTÉRIL

Lêda Selma


Caminho um chão de carne estriada,
um chão sem chão, com fendas e vazios,
um não sei quê de agonia fastiosa,
preguiça de sonho, miúdos de coisa morta.

Plano na força que gravita à toa,
e sinto o bafio dos dias esquecidos.
Chantada na aridez do caminho infértil,
me farto de sol e de mim, mas prossigo.
E, assim, mais e mais machuco o chão
e me firo com as feridas em que piso.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

SONHO E POESIA NÃO COMBINAM COM FUTEBOL BUROCRÁTICO
Lêda Selma
“Para mim, o futebol é arte, é um jeito especial de dançar, de fazer malabarismos, de poetizar com os pés, com a cabeça, com asas invisíveis. Não teria sentido se assim não o fosse. Até porque o mundo não transformaria em deuses simples apaixonados pelo ofício de conquistar a bola, enfeitiçados por ela, nem, tampouco, cultuaria um esporte que se limitasse a um amontoado de perseguidores disputando, sôfrega e aleatoriamente, um pedaço redondo de couro. A reverência é, sim, a um esporte capaz de entrelaçar raças, credos, culturas, posições sociais, um esporte quase oracular, misto de mítico e de místico, sem trocadilhos.
Sempre vi o futebol como espetáculo de vibrações e de cores, de emoção, de corações desafinados, movidos pela paixão, amotinados e prontos para saltar no gramado, quer para reger a chuteira, quer para hastear a camisa, quer para empurrar o time. São noventa e alguns minutos (incluídos os acréscimos e não, os “descontos” como apregoam alguns narradores) de devoção à bola, de confronto entre defesa e ataque, de aflição, de transe para a torcida. Ah! e de desalento para o goleiro! Afinal, que solitária dor, a sua, quando a bola, toda sem-cerimônia, ultrapassa seus domínios. Cabisbaixo, sofre, como se traído, e, em rito quase fúnebre, retira, desconsolado, a leviana da rede.
Futebol é urdidura de momentos intermináveis, permeados de alegria e de tristeza, de assombro e de deleite, de decepção e de glória. É uma confraria de sentimentos contraditórios e indomáveis, conjunção de dor e prazer, ritual em que o mago e a bruxa se defrontam e se desafiam. Nele, refugiam-se ansiedades e expectativas, agonia e redenção, sonhos, quedas, voos”.
Este texto é parte da crônica “O bom filho a casa torna”, publicada em 6 de fevereiro de 2009, quando, a convite do recém-eleito presidente, Dr. Syd de Oliveira Reis, a quem apoiei, independente das composições feitas para elegê-lo, retornei ao Goiás, após seis anos de ausência, apenas física, diga-se, pois meu coração continuou presente, sofrendo, alegrando-se, conchavando-se com os santos e orixás, torcendo pelo Verdão, o maior bem da família esmeraldina, motivo por que sempre o coloquei acima das discórdias.
Retornei, com muita alegria, ao nicho esmeraldino, como Coordenadora Cultural do Clube, criação inovadora do presidente. E assumi o cargo com muito entusiasmo, permeado de sonhos e planos, sempre motivada pelos sonhos e projetos de Syd de Oliveira Reis, um presidente sonhador, um presidente amante da poesia, da poesia que também joga futebol, do futebol que também compõe poesia. Um presidente que liberava seus sonhos mesmo sentado na cadeira de presidente da maior representação futebolística do Centro-oeste, o Goiás Esporte Clube. Todavia, sonhar, poetizar, voar, a bordo de um mundo tão materialista, como o futebol, cuja objetividade chega a ser cruel, é leda fantasia, é loucura de poeta, uma loucura, quem sabe, até por excesso de lucidez...
Despedi-me do Departamento Cultural do Goiás. Retirei de minhas gavetas os sonhos que lá se hospedaram. Dr. Syd, sem dúvida, também recolheu os seus.
Se poesia não sobrevive à frieza do gabinete – tão desprovido de emoção! –, se não é o idioma do futebol burocrático que, além das quatro linhas, é pedra bruta, não tem versos, é feito de malícia, de reversos, de artimanhas, de pecados capitais, realmente, não há lugar para o sonho, para a ingenuidade, para a pureza de espírito e, tampouco, para um presidente sonhador e amante da poesia. Então, que sobreviva a arte no talento dos jogadores, na magia das jogadas, no pulsar do distintivo sobre o peito. Que pés e cabeças poetas retornem ao seu ofício, e teçam gols e vitórias para alegria e orgulho da comunidade esmeraldina.
Syd de Oliveira Reis teve como algoz seu sonho. E bebeu o veneno que pensava ser poesia.
“Eu sou Goiás Esporte Clube, eu sou Goiás”...

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

POEMAS DE LÊDA SELMA

Um silêncio de madressilva
pelos cantos, silva, silva,
e pousa sobre a esfinge
que tenho dentro dos olhos.
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Silêncio é vastidão do nada
e poesia, um colibri verdourado,
com hálito de primavera,
a polinizar desertos e escuridões.
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O amor que irrompe da estiagem
é abrupto como um insulto:
acende lareira na alma
e carboniza o coração.
MALFADADA INUTILIDADE


Lêda Selma
Tarde transpirando respingos de tempo abafado, muitas nuvens migrantes e restos de sol derretido escorrendo pela cratera fumegante do céu, de onde brota a singela Aldeia das Querências, cidadezinha simplória, verdadeira pousada de tardes gorduchas de alegria.
No fórum, salas e corredores cobertos por silêncios enormes e sozinhos, mesas já peladas e tão impessoais e um juiz, ex-oficial do exército, homem de hábitos severos e paciência miudinha, preparando-se metodicamente para o fim de mais um acanhado expediente, à espera apenas de que o velho e pontual relógio marche rápido e anuncie logo o toque de recolher.
Vestida com disfarçada sobriedade, muita certeza nos passos e desconcertante segurança na voz, uma mulher de rosto risonho, aparentando uns dois pares e meio de décadas bem distribuídos num físico pequeno e falsamente magro, entra no gabinete do juiz, acena um cumprimento polido, ignora o relógio com suas largas passadas e, ante a não iminência do convite, pede licença para sentar-se, como a buscar garantia para a pretendida audiência. E, para surpresa e estupefação do magistrado, açucara a voz, simula um sorriso cordial e, alteando o olhar, sem a menor timidez, justifica sua presença:
– Flor de Lis (Flor, para os mais íntimos) é meu nome e também é meu o prazer de conhecer de pertinho o senhor. Pois é, meritíssimo, guardei – ah! e como! – esta vontade que tanto me incomodou durante anos até demais, prendendo a irrequieta como se fosse uma meliante. Até que num dia de sol encapetado, vi se alegrar a queixosa, quer dizer, a vontade... Por obra e intercessão de uma simpatia bem feita, em nome de um santo entendedor do assunto...
– E que esse santo faça o que a senhora, até o momento, não me permitiu: entender o assunto que a trouxe, a estas horas, aqui.
– Eu explico. Hã... melhor pensando, explicação miúda, esmiuçada, não convém. Basta o resultado: um homem com cara de quero-mais, de mãos sapecas e, às vezes, sorrateiras, bateu, entrou e, sem qualquer formalidade, engordou os olhos e, de um bote só, abocanhou meu coração.
– Vamos ao fato em si, de forma mais direta, dona Flor de Lis.
– Continuo: rendida espontaneamente, a bem da verdade, tratei logo de trancar a hospedaria e oferecer boas-vindas ao hospedante, que não economizou satisfação nem agradecimentos. E eu, de soslaio, doutor, falei cá com a minha vontade: aguente só mais um pouco que o tempo de fartura chegou e, loguinho, lhe solto as rédeas... Duas semanas depois, eu e o deflorador de coração pusemos os documentos em correria e, quase num trote, fomos atrás do tempo...
– Por favor, seja mais objetiva, senhora, o tempo urge e eu ...
– Pois então, o casamento foi rápido e bonito. Digo, casamento, casamento, só mesmo o da assinatura com o papel, porque o do corpo, aquele de agradar as exigências da vontade... ah! esse ainda está semi-donzelo e ela, a coitada, sim, a vontade, desembestada ao deus-dará, feito uma proscrita. Dá até pena seus queixumes...!
– Afinal, pode ser mais clara e menos prolixa? Tenha paciência: dispense os pormenores...
– Os pormenores, meritíssimo, posso dispensar. Fico só com os pormaiores pra facilitar a compreensão. Pois é, o danado, ele, o quase marido (porque, marido, marido, ele não é) me enganou. Prometeu com os olhos, confirmou com as mãos e, com palavras cheirosas, me garantiu mil travessuras noturnas (e, de bônus, algumas diurnas). E não é que o negaceante descumpriu o prometido?
– Já lhe pedi, senhora, seja menos detalhista. Descumpriu o prometido, pois bem, prossiga.
– Descumpriu. Daquele modelo, doutor: prometeu largo e deu estreito. E já virou repetição: assistência requerida, indeferimento no ato (acho que é a tal lei do menor esforço amasiada com aquela outra, a lei seca). O certo (que tá mais é pra errado) é que, de desserviço em desserviço, toda noite, o arremedo de marido nega serventia.
– E a senhora quer tomar providências...
– É, não dá mais, doutor, pra de novo encarcerar tanta vontade amotinada. E o risco de uma rebelião dos sentidos? Afinal, até hoje, o falso marido só fez, no duro, no duro, aquecimento. E como o homem é sovina! Uma coisiquinha ali, outra quase nunca acolá, uma carícia pequena (e eu sou lá mulher de gostar só de miudezas, doutor?). E por causa dessa ridiqueza – corpo mole, só pode ser – a lesada, digo, a vontade, confiscou minha paciência e ...
– Bom, vamos esclarecer os fatos: a senhora quer se separar do marido por falta de...
– O que é isso, meu Santo Antônio, o meritíssimo malucou? Separação? De jeito e modo. Nem pensar. E juramento meu, doutor, é o quê? Além do mais, do vigário, escutei bem: “até que a morte” e, não, até que a desserventia “os separe” (e quero lá ser mulher disponível e mal- falada?). E marido tem outras utilidades... E não tem?! Então. O que quero mesmo, doutor, é terceirizar os serviços do inativo, e abrir uma franquia, o senhor entende, não entende? Assim, dou ao inoperante outras funções e ao futuro atuante, a tal serventia. Desse modo, nem o folgado se encosta na moleza nem eu, na consumição.
– Será que entendi sua pretensão ou será que meus ouvidos resolveram brincar comigo? Sim, porque, se ouvi mesmo o que ouvi, a senhora está querendo...
– Sua autorização, meritíssimo. Dentro das regras e rigidez da moral. Porque, o que não quero, de jeito algum, é estropiar a lei. Ah! isso não (Santo Antônio me guarde de tamanho desatino. Amém!). Afinal, sou mulher séria e sem a menor mancha no currículo de minha honra. Por isso mesmo, quero tudo oficial, legalizado, no papel com timbre da justiça, carimbo e assinatura de juiz. Concubinada com a lei, doutor, aí sim, aquieto a desassossegada, o senhor entende, a vontade, e deixo o enfastiado, quer dizer, o quase marido, desfrutar de sua malfadada inutilidade...
UM CHECAPE

Lêda Selma

Sala de espera lotada, calor misturando suores e impaciências, tarde ameaçando se recolher mais cedo e o consultório do doutor Zé repleto de consulentes.
– Vim mesmo só pra fazer um checape, doutor. Não que eu esteja sentindo alguma coisa, não, não. Estou bem; mas, depois dos enta (a primeira parte da palavra não vem ao caso, claro!), é sempre bom ter cuidado, não é? Atualmente, não tenho sentido quase nada, a não ser umas dorzinhas de cabeça que costumo atribuir à má digestão: este meu estômago é fogo! Pode ser também enxaqueca ou mal funcionamento da vesícula, do fígado ou do intestino...
– Bem, vamos aferir sua pressão...
– Ah! minha pressão é meio desregulada, mais pra alta; acho que é culpa da taquicardia que me ataca vez sim, vez não; ou quem sabe, devido à falta de ar que sinto quando me ataca a bronquite asmática...
– Certo, vamos aferir a...
– Não é tanto assim, doutor, mas tenho sentido umas agulhadas no pé da barriga, as pernas doloridas e inchadas... problema de ovário ou de rins, naturalmente, porque de circulação não é, embora a minha não seja lá das melhores, já que, não raro, sinto um formigamento incrível nos pés e nas mãos...
– Sei, sei, vamos aferir...
– Umas tonturinhas, doutor, me incomodam de quando em vez; é taxa de glicose um pouco elevada, creio. Calafrios e sudorese, sei, são sintomas de menopausa; chateiam, mas nada preocupante. Ah! sim, as dores nas costas! Certamente, por causa da coluna ou até da osteoporose...
– Pois é, vamos...
¬– Não é dos melhores, o meu apetite e, às vezes, sinto certa fadiga, palpitação, mal-estar generalizado, coisas do estresse ou, talvez, do ciclo menstrual desregrado, já que o maldito está a caminho da aposentadoria compulsória, acredito...
– Então...
– Me peça uns exames só pra controle, afinal, a gente nunca sabe... No entanto, só vim mesmo aqui, doutor, prum checape, questão de rotina, pois estou bem, sem novidades, a não ser o cansaço da vista e uma fisgadinha no ouvido, uma vez ou outra. No mais, tudo sobre controle, quer dizer, quase tudo: minha língua tá cheia de aftas, doutor, e quase não consigo falar...
DOSE DUPLA?!


LÊDA SELMA

Um senhor de idade entrou aflito no Pronto Socorro, com uma moça de uns trinta e cinco anos a tiracolo.
– O problema, doutor, é sério. Dá pena ver essa bichinha sofrer tanto! Uma dor sem misericórdia. Ela tá num padecimento que só.
O médico quis saber da moça que problema tanto a afligia. Mas ela, encolhida nas próprias certezas, olhos assustados e mãos transpirando medo, parecia nada ouvir. Então, o pai, com ares de porta-voz:
– Pedra no rim, doutor, eu acho. Daquelas malvadas; uma bichona das maiores. Veja que judiação: minha filha toda inchada e sem dormir o sono dos anjos, desde ontem. Espie os olhinhos dela, murchinhos. E o descoramento? Parece até que o sangue esbranquiçou e sumiu. Ela desmerece essa consumição. É boa demais a bichinha. Moça recatada, trabalhadeira. Não tem tempo pra si, não tem vaidade nem quentura de moça passada.
– Descaramento, digo, descoramento... Está bem, vamos dar uma examinada nesses rins.
Já vaticinando o diagnóstico, o médico encaminhou-se com a paciente para uma saleta ao lado do ambulatório. Demora vai, demora vem, terminada a tarefa, e antes mesmo de chegar ao consultório...
– E então, doutor, vai pedir uma chapa ou já vai passar o medicamento pra coitadinha se aliviar? Diga-me, por Deus, que não é nada grave. A pedra saiu?
– Grave...? Não, grávida! Da pedra, não dou notícia. O que saiu foi um cálculo renal macho, de uns três quilos mais ou menos, com pulmões bem ativos e reflexos perfeitos...
– Peraí, doutor. Num tô entendendo essa embromação. Minha menina expulsou ou não a pedra? — interrompeu, abobalhado, o velho.
– Pedra... pedra... não. Digamos que ela expulsou o Pedro, um menino de saco rox... epa, melhor, preto! Essa outra já deu muito o que falar...
Realmente, um alvoroço no Pronto Socorro, naquela noite. Desmaios histéricos, contusões conjugais, coma alcoólico... E, de repente, uma senhora gorda, crente fanática, puxando a filha pelo braço, iniciou a consulta como se fosse a paciente:
– Essa menina, doutor, tá muito doente. Acho que é problema de estômago, por causa da vomitação que não acaba mais e do fastio, sabe?
– “Que brincadeira é essa, Nossa Senhora do bom parto?! De novo, não!” – pensou o médico.
Exame concluído, diagnóstico rejeitado pela mãe:
– O senhor não sabe o que diz, doutor. Essa menina não conhece o bicho-mau. Nem poderia: nunca viu ao vivo nem nas fotos as intimidades de um homem. Nesses trinta anos, não se despurificou; temente a Deus, nunca se acalorou com a fome dos sentidos. Safadeza é coisa de moça mundana, sem crença. E intimidade com as intimidades de homem, só depois do casamento. Gravidez é coisa de mulher bulida, doutor. Só se o Espírito Santo despencou das alturas prum plantãozinho rápido, só se foi.
Conversa vai, conversa vem, um argumento aqui, um contra-argumento ali, uma hipótese alhures e um lance providencial de memória escapa da desbulida balzaca:
– Jesus, socorro! Me lembrei do sucedido! Foi no vaso do banheiro da igreja, mãe. Que fatal azar! Senti necessidade de me desapertar, e necessidade daquela natureza não aceita cabresto. Meu Senhor Jesus, moça virgem não pode mesmo titubear: sentou em vaso suspeito, o malfeito, ó, dá o bote...! Coisa do azucrim...
– Não lhe disse, doutor?! Tá explicado. Foi isso: o vaso, aquele maldito, o culpado! Donzela bobeou, o diabo força passagem. A pobrezinha, pra vencer a precisão de aliviar a bexiga ou um outro vizinho próximo, usou o maldito, o vaso; e lá estava a maldição escapulida de algum amaldiçoado.
Com um ar sério, apesar do tom debochado, o doutor apresenta sua versão:
– Acho que para sossegar outra necessidade, que não aceita rédeas até por força da natureza... essa moça inocente, por descuido, sentou-se justo no maldito (que não era o vaso, claro! – disse de si para si). Só que, no maldito, estava o tal, o amaldiçoado. E foi aí que aconteceu a maldição: a “pobrezinha” conheceu o bicho-mau. E o resultado está aí na cara, isto é, na barriga.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Crônica publicada no Diário da Manhã, sábado, 28/8/10

COISAS DA VIROSE...

Lêda Selma

Houve um tempo em que a moda era problema psicológico. “Ah! isso é psicológico!”, dizia o doutor. Depois, toxoplasmose. Certa amiga recebeu o controverso diagnóstico durante uma consulta. E, mesmo ignorante no assunto, percebeu claramente que aquele nome (estranho, perigoso e incomum, à época) nada mais era que um “quebra galho” para seu diagnosticador. Tanto que a rotina, logo, logo, se consolidou: todo mal não imediatamente identificado recebia a “providencial” alcunha. Era raro em uma família, na vizinhança, no trabalho, na escola... não se encontrar alguém acometido da tal doença que, de tão comum, ganhou popularidade e perdeu o status.
Hoje, a moda é virose. Fulano está com virose. Beltrano foi ao médico e este lhe disse tratar-se de uma virose. Massificação igual só no tempo do psicológico e da toxoplasmose...
– Não tô bem, seu dotô. Meu incômodo é a mardita escandescência!
–“Ai, ai, ai, ai, ai, que diabo é isso, meu Deus?” – pensou o médico. E, para safar-se da situação, engrossou a voz e tascou no paciente: – Virose. O senhor tem uma virose.
– Deve de sê, pruquê passei a noite todinha no banheiro descarregando o desarranjo, desocupando os intestino, adjutorado por essa aí que o sinhô disse, a tar vi... vi..., mais conhecida como corredeira, carreirinha, ligeira, penso eu, o senhor entende!
– Ah! sim, o senhor quer dizer diarréia!
– Quero, mas num se avexe não, pruquê gostei muito dessa boniteza aí, a vi... vi... cumo é memo, dotô?
É claro que, muitas vezes, o paciente deixa atabalhoado o médico, em especial o recém-formado (de raízes e vivência metropolitanas), diante de queixas assim:
– Vim, doutor, porque não aguento mais de tanta dor na passarinha!
A saída? Arranjar uma virose para o doente.
– O senhor me ajude, doutor: durmo e acordo com minha pá dolorida.
Que jeito... Virose nele!
– Além da febre interna, do coração batecum, sofro de espinhela caída, doutor.
O jovem médico não titubeou. Tanto mal amontoado, só pode ser virose!
– Vim aqui, por causa da constipação. Comecei a padecer dessa moléstia depois que resolvi aquecer minha espinha. Maldita resolvição! Mal-avisada, saí do banho quente e um vento frio, de tocaia atrás da janela, me pegou bem no jeito... O resultado? Fiquei troncha, torcida, doutor, assim, de través, veja! Num periga ser um início de derrame, ou reumatismo no sangue, hem?!
Melhor, virose, coringa dos bons!
Nesse clima virótico, uma mulher gorda e sisuda chegou à clínica e encontrou a sala de espera lotada também de queixas, doenças, bocas vermelhas, falantes e palpiteiras. Amuada, acomodou-se numa cadeira, lá no canto e, em rodízio, contorcia as mãos e roía as unhas. Solidária, uma senhora aproximou-se e, logo, desentaipou as palavras:
– A senhora tá com jeito de aflita... Que mal lhe pergunte, qual o seu mal?
– Raiva!
– Vixe, Maria! Mordida de cão raivoso?
– Não, dona, de doutor rançoso. Tá vendo isso aqui, tá? Uma pedra do tamanho de um grão de milho, né não? Pois ela quase me matou de dor durante dois dias. Ainda bem que a desgramenta desistiu de apedrejar meu rim esquerdo, e resolveu procurar a saída. De tanto insistir, achou, e, aí, escapou ontem à noite, ufa! E sabe o que o maldito me disse que era? Virose!
– Virose?! Ah! isso me lembra um outro tropeção médico – e que tropeção! –, feio mesmo, daqueles inesquecíveis, de vermelhejar até cara de pau. A tropeçada, minha comadre, Maria da Luz. A pobre fez a consulta, porque sentia fortes dores nas cadeiras, um mal-estar danado, fartura de apetite e de tontura. Nenhum exame lhe foi pedido. Pressão avaliada, batidas do coração conferidas, apertões na barriga, e o diagnóstico: “Virose!”.
– Virgem Santa!
– Nem virgem nem santa! Tanto que, seis meses depois, com 51cm e mais de três quilos, nasceu uma saudável menina. E pra não desfeitear o médico, sabe que nome a comadre deu à filha? Virose!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Poemas esparsos de Lêda Selma

Verdadeiramente livre é a felicidade:
tem o tamanho do sonho de cada um.
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É preferível o silêncio das dores guardadas
e a solidão das saudades envelhecidas
ao rastro indolor do nada.
..........................................................

No fingimento da verdade inteira,
repartida na mentira em despedaços,
sou poeta.
Dos sonhos dos insanos e insones.
E dos bêbados sem sonhos.

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Todo coração é alcova e sepultura.
Nele, vive um amor,
sobrevive uma ferida
e sofre uma saudade.

CRÔNICA PUBLICADA NO DM, Sábado, dia 21

DE NOVO...?! AH! NEM...!!!
Lêda Selma

Ih! começou o Horário Eleitoral Gratuito, apelidado de Horário Hilarial Gratuito! E é cada candidato a deputado, Deus me tape os olhos e me tampe os ouvidos, socorro! E os nomes, codinominados hilariamente?
As promessas, as de sempre; os discursos, os de antanho; nenhuma alteração, nem no português, recentemente reformado. De novo, o velho, já desgastado demais por blablablás caducos.
A pobraiada ressuscitou uma vez mais. Seus fantasmas sempre ressurgem de quatro em quatro anos! Acho que pensam: “hum! é bem mais chique ou mais convincente todo candidato ser de origem pobre, humilde, trabalhador braçal, engraxate...”. E me pergunto: qual o inconveniente de o candidato ser de linhagem intelectual, rica ou mesmo remediada? Precisa ser pobre de origem? A pobreza, então, é um requisito indispensável? Ninguém mais aguenta essa enganação, essa ladainha, essas caras de pobres fabricados em estirpes humildes, francamente! E se, na verdade, são de origem pobre, já estão muito, muiiiiiiito distantes da tal.
Ah! e as coitadinhas das criancinhas? Está na hora de o Cristo repetir: “Venha a mim as criancinhas!”, para livrá-las dos famigerados lambuzões de bochechas! Redigo: elas já se tornaram alvo dos candidatos, isto é, de seu assédio, com a conivência dos pais, hipnotizados pelos meios minutos de “fama”. As inocentes perderam o sossego. De colo em colo, de braço em braço, de beijinho em beijinho, são mostradas, espremidas, na tela da TV, como fantoches desengonçados. Alheias ao que, de fato, lhes acontece, muitas vezes, choramingam ou careteiam protestos não entendidos pela insensibilidade de seus assediadores. E mais desentendida fico com a omissão daqueles que atuam sob a chancela de protegê-las. Protegem criminosos, com menos de dezoito anos, os tais “menores infratores”, porém, nem tchum às crianças expostas à enganação e à exploração de sua imagem em períodos eleitoreiros.
Não sou contra o Horário Eleitoral Gratuito, se esse valioso tempo fosse aproveitado dignamente, com propostas reais, com metas executáveis, sem as conhecidas negaças, sem a prática da embromação. Santo protetor dos eleitores, não é suportável ouvir as lenga-lengas que ocupam o lugar-comum de sempre. Nenhuma novidade, nada que fuja à senilidade das promessas falaciantes, à renovação de ideias, à viabilidade de bons projetos. E, novamente, ênfase à Santíssima Trindade, reverenciada em tempo de eleição: Educação, Saúde e Segurança Pública, mote para todos os discursos! Gingam na boca dos candidatos, assim, como um samba-enredo fátuo, à espera de aplauso. E nenhum caminho é apontado. Tudo se limita a palavras.
E as figuras hilárias? Cada estampa...! Santo protetor da estética visual, poupe minha visão, por misericórdia! Algumas delas espirram palavras com a rapidez de um busca-pé, palavras sem conteúdo, que não dizem nada. Outras, com o tempo exíguo que lhes é ofertado, insuficiente para, sequer, uma frase, apenas, pronunciam, às carreiras, seu nome, número e... pronto?! Há sentido nisso, por favor, respondam-me?!
Passa ano, chega milênio e tudo permanece inalterado, daí o desgosto daqueles que perdem tempo assistindo à meteórica aparição de vários candidatos. Tempo que deveria ser utilizado para a apresentação deles, para que o eleitor, no mínimo, conhecesse seus ideais e potencial políticos, seus feitos, suas metas. Bendita TV a cabo!
No entanto, ainda sobrevive a expectativa quanto aos debates entre candidatos a postos executivos, tanto no âmbito estadual quanto no federal. Como a esperança, mesmo agonizante, insiste em não morrer, não custa o eleitor esperançar-se. Assim, esperemos o que virá como novo.
Safadino, aquele mendigo esperto, intelectualizado, politizado e safado por natureza e vivência, observador tenaz e amigo de certos figurões políticos, está de olho nos candidatos, e já me avisou que dará seus palpites logo, logo, afinal, é PhD no assunto. Se até enricou por obra e safadeza de uma cadeira de rodas...

domingo, 15 de agosto de 2010

DA SERENATA, À EXCOMUNHÃO


Lêda Selma

Baiano de Brumado, recém-formado médico, aquele jovem de estatura pequena, sorriso graúdo e olhos cor de sertão, saiu daquelas lonjuras e apeou em Goiás, lá pras bandas do norte, com a juventude acesa, os sonhos em disparada e a coragem como timoneira. E chegou já aprontando confusão. Oxente, e foi?
– Esse sujeito tem cara, voz, andar e jeito de comunista – falaram, a esmo, algumas línguas direitistas.
O padre arrepiou. O prefeito tremeu. O juiz da comarca quase perdeu o juízo. Foi o suficiente para o jovem médico subverter seus planos e debandar com as ideias desarrumadas na mochila e os bolsos subnutridos por falta de alguns contos de réis. Aí, a coisa perigou desandar, pois o mundo parecia rodar de ré, em plena contramão, depois do fatídico mal-entendido. Também, pudera: nordestino com tipo de foragido e com pinta de comunista?!
Após longa caminhada a pé, em companhia de solidários amigos, esgueirando-se aqui e ali em busca de novo destino, outra apeada. Um lugarejo pequeno, com jeito de acolhedor, a primeira impressão. E a condição de ficante começou a tomar forma.
– Pode me indicar uma pensão? – solicitou o jovem forasteiro a um goiano sertanejo que, de chofre, informou-lhe a inexistência de tal luxo.
– Que mau começo, hem, Senhor do Bonfim?! – protestou um dos amigos.
– Ora, rapaz, falar no Padroeiro justo agora, no momento em que eu ia sugerir que a gente se remediasse, por esta noite, na zona? – resmungou o outro.
– Vou é procurar algum baiano por aqui, e ver o que consigo – arrematou o jovem médico.
E achou. Hospedagem combinada e estipulada em alguns contos de réis mensais.
– Aceito. Problema solucionado. Pelo menos, um mês está garantido – pensou. Depois, ele que me mande embora, caso eu não arranje o dinheiro. Ah! se eu fosse mesmo comunista... – lamentou sem convicção.
O tempo correu, fungou, comeu poeira até que, certo dia, uma mulher resolve, de madrugada, entrar em trabalho de parto. Ih! trabalho mesmo teve o recém-formado médico, chamado às pressas e por pura obra das circunstâncias. Resultado: cesariana bem sucedida, para alegria do marido, abastado fazendeiro, elevado à categoria de pai “de filho-homem”, para honra e glória de sua macheza. Finalmente, bolsos gordos, bem nutridos.
A intervenção do doutor, já sem o estigma de desacreditado, mereceu farta comemoração, acompanhada de uma serenata que atraiu várias quengas, cujas existências o padre desconhecia. De novo, confusão. No domingo, durante a missa, o padre excomungou nosso herói. Motivo? Era ele o próprio capeta, o criador daquelas mundanas.
Não tardou muito, uma febre altíssima, seguida de tosse e chiadeira no peito, vitimou o tal padre. Conduzido de novo pelas circunstâncias, o doutor, um tanto ressabiado, porém, decidido, chegou à casa paroquial. Antes, entretanto, pigarreou, respirou fundo, pôs na testa o sinal da cruz e, só depois, bateu à porta:
– Ô de casa!
– Quem é? – sussurrou o enfermo.
– O capeta!
Arrepiado, o padre benzeu-se com o crucifixo; ofegante, apontou-o para a porta.
– Abra a porta, quero, isto é, preciso entrar!
Aturdido, o enfermo pediu à empregada que desse entrada ao irreverente chegante; apesar do desconforto, recebeu-o sem muita animosidade. Ah! o crucifixo? Em riste!
Acudido com o maior zelo, o padre, aos poucos, desvencilhou-se da desconfiança e ensaiou um tímido sorriso. E o doutor ali, a auscultar-lhe o peito e os pulmões, a aferir-lhe a temperatura, pressão arterial, a dar-lhe pancadinhas no abdômen... Diagnóstico: pneumonia dupla!
– Voltarei amanhã. Se carecer antes, é só me chamar.
– Aradecido, doutor! A propósito, quanto lhe devo?
– Uma alma recauchutada e branquinha, padre. Ah! e o principal: desexcomungada, visse?! E trate logo de pagar a dívida, porque, caso ocorra um imprevisto, é melhor o senhor partir com a consciência já limpa, hem?!

domingo, 8 de agosto de 2010

IMPLICÂNCIAS E DISCREPÂNCIAS

Lêda Selma

Tenho cá minhas implicâncias. E não são poucas. Ao contrário, tenho-as em fartura. Uma delas, receber telefonemas, interfonemas, visitas antes das dez horas e, em especial, pouco depois das sete, o que nem tão raro é, juro! Aí, Santo Deus, descalibre minhas cordas vocais, desative minha irritação, massageie meus nervos, pois já estou com um arsenal de impropérios engatilhados, à espera de acionamento! Claro! Se vou dormir só quando o sol crispa no céu o primeiro tom de seu riso, querem o quê, que eu acorde logo após?! E o mais bisonho é a pergunta, ao ouvirem minha voz cavernosa, quase fantasmagórica, ainda carregada de torpor: “Te acordei?”. Irra! O palavrão precisa ser amordaçado, senão, pobres ouvidos de meus interlocutores: nocaute na certa! Melhor opção, talvez, a ironia da resposta: “Não, imagine, não me acordou, apenas, arrebatou-me o sono gostoso, despertou-me, desadormeceu-me, tirou-me daquele estágio plácido de descanso, abortou-me belo sonho matinal, surrupiou-me importante tempo de sossego, mas nada significativo, bobagem, tudo bem!”. Entretanto, as lições de boas maneiras, aprendidas na infância, sempre respondem por mim, e então, fica o dito pelo não dito, ou melhor, o acordado pelo desacordado, pronto!
Outra implicância: político lambuzando de beijinhos rostinhos de criancinhas (o diminutivo é proposital) ou balançando-as nos braços, gesto repetitivo, sem nenhuma criatividade – inventem algo mais original, por favor! –, que já se tornou insuportável aos olhos do eleitor. Se pensam que conquistam os votos da mãe, triste engano, ih... já vai longe, bem longe aquele tempo...!
Uma implicância de cunho justiceiro: O “Dia dos pais”! Por que a data não tem a mesma relevância que a do seu colega, o “Dia das Mães”? Na hierarquia comercial, esta data e o Natal são responsáveis pelas maiores alegrias dos comerciantes, que deixam à mostra seus sorrisões falantes e saltitantes, benza Deus, a cada fechamento do caixa! É venda que não acaba mais, alardeiam as estatísticas. Os reais superlotam os cofres das lojas e os bancos, após os depósitos ou investimentos, festejam tamanho milagre materno, já de olho e na expectativa do milagre natalino.
Entremeando os dois, o deslustrado “Dia dos Pais”. Será que, pelo menos, equipara-se ao “Dia dos namorados” ou ao “Dia das crianças”? . Os pais, uns injustiçados, reputo-os.
Tudo bem, “mãe é mãe” – inclusive, sou uma delas, além de apaixonada pela minha (que saudade!!!) – mas pai também é pai, ora, e muitos, não raro, agem feito mãe, e merecem, pois, a mesma badalação, recordes de vendas e todas essas coisas peculiares a tais dias Na carona deste arremedo de gancho, desaconselho a classe masculina a reivindicar o direito ao “Dia do Homem” (não faz muito, todos lhe pertenciam...). Digo-o porque o das mulheres será sempre mais sofisticado, paparicado e festejado. Para que mais uma frustração?! Nenhum caráter machista ou feminista, imparcialidade total e irrestrita, diga-se.
Não endosso as opiniões de muitos quanto ao simples apelo comercial dessas datas. É óbvio que ele existe – alguém tem dúvida?! –, o que não invalida outros valores que também as revestem. O presente – faço, sim, apologia a ele – é também uma forma de carinho, uma manifestação de afeto, um jeito especial de agradar o homenageado. É indispensável! Não substitui o beijo, o abraço, o “eu te amo”, e sim, completa-os. Há quem não possa dar um bombom ou uma flor (até colhida no jardim alheio ou nas árvores das ruas)? São também presentes e, às vezes, até mais valiosos que uma joia. Não existe desculpa para esse deslize.
Aos pais que, neste domingo, comemorarão com seus filhos a data; aos pais que chorarão a falta dos filhos que habitam a Dimensão Maior; aos pais de filhos que, mesmo perto, expõem, com sua ausência, o tamanho da distância que os separa; aos pais adotivos (pais apenas de coração); aos pais presidiários, aos pais de filhos bandidos, a todos os pais, enfim, meu beijo carinhoso, e esta crônica de presente.