quarta-feira, 21 de julho de 2010



Foto: Lêda Selma

RIO DE PELE MORENA

Lêda Selma

Araguaia de pele morena,
de banzeiros e ressacas,
de corpo suado, lascivo,
serpejante feito vento,
a beber solidões e sonhos
na calmaria das noites.

Rio de cristais borbulhantes
em louras manhãs ridentes,
rio espiando, matreiro,
ao longe, n’altiva fraga,
a lua, toda charmosa,
de namoro com a passarada
em tardes alcoviteiras.

Araguaia de aruanãs,
de saudades ao relento,
do pescar ágil das garças,
das gaivotas em alvoroço,
das madrugadas sozinhas,
deitadas, ao léu, n’areia,
sob algazarra de estrelas.

Rio triste, torturado,
vermelha ferida que sangra
nas entranhas da natureza,
nos silêncios em estiagem,
nas tartarugas em fuga,
na mata violentada,
na agonia dos peixes.

Araguaia com suas lendas
e seus botos cheios de encantos,
dos mandubés, matrinxãs,
tucunarés e pintados,
do céu a se olhar nas águas,
enquanto aos pés do barranco,
se banham de sol e vida
ninhadas de tracajás.

Rio de silêncios migrantes,
de mutuns cantarolando,
da inhuma e do colhereiro
no mergulho pela vida,
das capivaras e pacas,
das ramagens dos amores,
Araguaia abençoado,
alma dos Carajás.

Um comentário:

  1. Leda!

    Poética crônica, encimando a proseio em versos líricos, telúricos e ricos!

    Ah, porque digo isso? Não é novidade...

    Bem, recursos fartos de boa literatura à parte, quero mesmo é regozijar-me com vocês pela inegável perícia do José Geraldo! Graças a Deus que não era sua hora, você tem o compromiosso, a obrigação divina de viver muito e muito escrever para a nossa alegria. E viver feliz, o que te será possível sempre ao lado do Zé Geraldo e da Cinthia!

    Ah! A foto está igualmente linda! Parabéns!!!

    Abraços meus, com muita prece pela graça!

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