sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Diário da Manhã - 25/12/2011

È NATAL E TUDO SE REPETE

Lêda Selma

Chegou o Natal, mais um Natal e, com ele, ritos e mitos. Em seu bojo, algumas esperanças caducas, desejos senis e a paz, em sua brancura vermelha, apenas, um vulto baço perdido nas trincheiras que, no decorrer dos tempos, amotinaram ódios, disputas, megalomanias, loucuras mundo afora. Apesar de tudo, o Natal ainda ostenta o símbolo da fraternidade e da fé que encena a ceia com Cristo, o aniversariante do dia, mas, na realidade, quase sempre, o menos festejado e presenteado. Enquanto isso, o comércio comemora seu “Papai Noel” particular e gordalhufo.

Com o Natal, os corações se abrem (e os espíritos...?!) e, em polvorosa, desenham sonhos luminosos, expectativas instigantes, momentos especiais. Afinal, Papai Noel é um mago de cabeleira, barba e promessas alvadias e envelhecidas, mas de vigor sempre aceso. E, a cada ano, com crise ou sem crise, o comércio se alvoroça e dá um jeitinho de enfeitiçar crianças e adultos que, em transe, se preparam para o banquete das compras, enquanto os problemas, numa fuga em massa, recolhem-se em asilos provisórios, pois nenhum desmancha-prazeres é bem-vindo em tempos de festejos natalinos. Todavia, o acinte da miséria permanece deitado sobre as calçadas, expondo, à sociedade, homens-molambos carentes de dignidade e de cidadania, banqueteando-se com a fome, com a exclusão, com o vazio das mãos estendido ao sabor do sol e das estrelas, as únicas luzes de seu Natal.

Natal é tempo de impossíveis, de neve em pleno verão, de renas tropicais, de bons velhinhos saracoteantes e incansáveis, de chaminés em espigões, enfim, é tempo de bolsos mágicos, de dribles desconcertantes do comércio sobre os incautos consumidores, de alegrias e realidades mascaradas. Apesar de tudo, é Natal, e Natal instiga sentimentos, encontros, comemorações, esperanças, promessas, embora, muitas vezes, o aniversariante do dia, o Menino Jesus, nem seja lembrado. Que se repense isso neste dezembro natalino.

Fascina-me o Natal e todos os seus ritos e mitos. É quando tiro os sapatos, desmancho as tranças de minha criança interior e deixo-a patinar, planar, lambuzar-se de estrelas, de Sonho de Valsa, e traquinar no reino da fantasia, sem limites. Espero os presentes – encanta-me adivinhá-los, desembrulhá-los, sabê-los meus –, unjo-me com as cores e luzes da árvore natalina e divirto-me com as surpresas deliciosas da noite. Mesmo que as lembranças, enxeridas como sempre, cutuquem a saudade para que me desassossegue. Aí, o vazio ameaça abocanhar-me, porém, o feitiço do Natal hipnotiza-me com um sonho de faz de conta: meu filhote, ali, a festejar comigo cada momento.

Muitas são as caridades acontecidas no Natal. Hospitais, creches, abrigos... recebem doações de toda a espécie e de muitas mãos e, assim, participam da alegria momentânea que caracteriza a fugacidade das festas de fim de ano. Isso é muito pouco. Afinal, não é só no Natal que a fome, a desesperança e o sofrimento clamam por socorro. Que se doem alegria, alimento, oportunidade, trabalho... durante o ano e não, apenas, no Natal.

Apesar de tudo, dezembro exala alegria e enfeita-se com as vestes natalinas para cultuar uma tradição que tem a idade de Cristo. Liturgias, ceias, presentes... é Natal! E quero também muito amor, bens espirituais, pessoas solidárias, amadas, batalhadoras. Quero crianças carregando sonhos, sem a remela nos olhos que lhes embaça o futuro. Quero jovens livres das drogas, das grades, quero mães sem filhos assassinados ou desaparecidos, quero jornais sem letras de sangue, quero sol no dia seguinte e saudades sem ferrões. Ah! e quero também presentes!

Por falar em presente, o meu, um poema:

Volta a Estrela,
florejam os gestos
e no abraço da prece
restos de riSOS
com marcas da veste
do Cristo que chega.

Sonhos se alongam,
o Menino renasce
em rostos sem nomes,
em rastros descalços
de cristos-meninos,
cristos com fome.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Diário da Manhã - 18/12/2011

QUANTOS FURDUNÇOS JÁ PROVOQUEI!


Lêda Selma


Que sou distraída, que me desligo às vezes, que sofro uns apagões inacreditáveis, que perco tudo dentro e fora de casa, é sabido, aliás, mais que isso, é notório. Tanto que, não raro, sou lembrada pelos óculos que, durante mais de hora, procurei desesperada e, ao final, encontrei-os no lugar de onde não saíram: meus olhos. Sapatos, então... Com eles nos pés, já desmontei um guarda-sapatos enorme no afã de encontrá-los.

Outro fato, para muitos inconcebível, minha entrada no elevador de um hotel em Recife, e cuja subida empreendi ao lado de dois cavalheiros, um moreno e outro de cabelos grisalhos, os quais alegremente cumprimentei com simpático e turístico ‘bom-dia para vocês!’. O detalhe intrigante: o de cabelos grisalhos era meu marido (há 41 anos), mas só me dei conta, ao ser abordada por ele, desentendido, à porta da suíte: “O que deu em você, no elevador?”. Confusa, confessei: não o reconheci, ora! Dizem que esse é meu recorde. Será?!

Alguns creditam tal status àquela do casal que, a meu pedido, me seguiria, após sairmos de uma festa, até a porta do prédio em que resido. Tudo bem, e daí, qual o problema? Bem, não haveria nenhum se eu, a alguns quarteirões de casa, instigada pelo medo que me impingia a sensação de alguém estar me seguindo, não houvesse acionado a polícia. Isso mesmo, a polícia! Pois é, acionei-a. Sob a alegação de que certo carro preto (melhor, afro-descendente), dirigido por um suspeito, acompanhado de seu cúmplice, estava no meu encalço com o determinado propósito de assalto ou sequestro. Ainda bem, a luz alta do carro do ‘provável’ assaltante/sequestrador, seguida de chamada para meu celular (“missão cumprida, boa-noite!”), desmanchou tamanho equívoco. Embora aliviada, nem me lembrei de agradecer a gentileza do casal. Só dia seguinte. Até hoje, os dois desacreditam daquele meu “antológico branco”, como o catalogaram.

Um furdunço e tanto promovi, convenhamos. Aliás, promovo. Afinal, não sou parcimoniosa na arte de perpetrá-los. Tanto que, de outra feita, minha filha incumbiu-me de segurar uma sacola, na qual havia um par de sapatos de grife, recém-comprado no shopping, enquanto efetuaria um pagamento no caixa eletrônico. Solícita, acatei o pedido e dirigi-me a uma loja; dei uma olhadinha básica nas vitrines e coloquei, displicentemente, a incumbência, ou seja, a sacola, sobre o balcão e deixei meus olhos e minha curiosidade desfilarem ali e acolá. De repente, percebi uma sacola sozinha sobre o balcão, modelo esquecida, abandonada mesmo, e avisei à moça do caixa: alguém esqueceu esta sacola aqui. Não me bastasse isso, resolvi perguntar às pessoas da vizinhança: esta sacola é sua? E sua? Ei, está procurando uma sacola? Ante tantas negativas, sugeri à funcionária da loja que recolhesse a esquecida até que a dona fosse buscá-la.

Minha filha voltou, e, ao nos dirigirmos à escada rolante, a surpresa: “Mãe, cadê minha sacola?!”. Acordei. Hum... a tal sacola...! Ih! estou perdida! – concluí. Refeita do susto, o jeito, dizer-lhe: corre, filha, pois, se ninguém decidiu portar-se de forma desonesta, e se a atendente aceitou minha sugestão, pode ser que ainda encontre sua sacola.

O pior foi a reação da moça do caixa que, em estágio máximo de estranheza e cheia de suspeitas, esbravejou: “Como assim, sua mãe deixou a sacola no balcão, se ela, de corpo presente e em viva voz, perguntou à loja inteira de quem era a maldita?! E você me vem com esta agora?! Francamente!”. Fui salva, e a reputação de minha filha também, pelo comprovante de compra da sapataria, ufa!

sábado, 3 de dezembro de 2011

Diário da Manhã - Dia 3/12/11

E AGORA, “SENHOR”?

Lêda Selma


E agora, VERDÃO?
O campeonato acabou,
a luz apagou,
a torcida sumiu,
a esperança esfriou,
e agora, VERDÃO?
E agora, Você?
Você que tem nome,
que zomba dos outros,
você que faz gestos,
que vinga, persegue,
e agora, “Senhor”?!

Está sem discurso,
está sem caminho,
já não pode gritar,
tripudiar já não pode,
o engodo pifou,
a Série A não veio,
o sonho não veio,
o riso não veio,
não veio a coragem,
tudo secou,
a dignidade mofou,
tempo esgotado,
entende, “Senhor”?

E agora, “Senhor”?
Sua rude palavra,
seus instantes de fúria,
sua tirania e arrogância,
sua megalomania,
sua sanha por louros,
seu trono de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, sua gana,
pois é, convenhamos,
a verdade matou.
“Senhor”, e agora?

Com a chave na mão
quis trancar a porta,
mas o esmeraldino
fez nascer o grito,
no secar do sonho
do alviverde aflito,
que sofreu demais
lá na Segundona.
E agora, “Senhor”?!

Se você parasse,
se você deixasse
o VERDÃO em paz,
se você cansasse
dessa obsessão
que sufoca e atrasa
o pobre Goiás,
mas você não cansa,
quer seguir seu tino,
você é duro, “Senhor”!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem o discurso tolo
para se escorar,
sem a mentira nua
para se safar,
só vassalos tontos
ficam ao seu lado
com o AMÉM na língua
para o louvar.
E o VERDÃO da Serra,
relegado às traças,
por sua obra e graça,
que vá se danar!
E agora, “Senhor”?

Que fuja a galope,
“Senhor” dos punhais,
este tempo triste,
marcado por nódoas,
e não se constranja
de o fazer também,
para que o VERDÃO
possa se salvar.
É agora, “Senhor”!


Cada um, Drummond, tem o seu “José”.