terça-feira, 6 de julho de 2010

APOLOGIA AO PRESENTE*

Lêda Selma

Como é gostoso o ato de presentear! E que delícia o de receber! Além de alegrar, de encantar, de emocionar... cria um elo mágico entre presenteador e presenteado. Por quê? Ora, pelo motivo mais simples e terno que reveste aquele sentimento que até faz cócegas de sabermos que alguém, por alguns momentos, pensou em nós, dedicou-nos parte de seu tempo, buscou fazer-nos um mimo, colocando carinho e sensibilidade naquele pequeno (e tão enorme!) gesto: deixar para o coração a escolha do presente.
Algo de primeiríssima necessidade, o presente. Pessoalmente, considero-o mais que imprescindível. Aliás, nem posso imaginar um aniversário ou Natal, um Dia das Mães ou dos namorados... órfãos de presentes. E não me venham com o discurso (nem um pouco romântico e tão carregado de falsa razão) do “apelo comercial”. E o apelo emocional e afetivo, não contam, hem?! É certo que o comércio fatura. Mas o presenteado também.
Não acredito, pois, na veracidade do tal “Não precisava se preocupar com o presente, bastava sua presença!”. Falso...! Uma heresia, ou melhor, um sacrilégio (os dois, pronto!). Como, “Não precisava”? A presença, sem dúvida, é fundamental. Mas o presente também. Assim, não há por que separar um casal tão bonito e feliz: presente e presença. Um casal elegante, semântica e socialmente harmonioso. Reputo-o da mais alta linhagem.
“Você foi se preocupar com presente!? Bastava só a lembrança!”. Lembrança... Ah, sim, claro!: o apelido do presente Falando nela, que ninguém deixe de se preocupar em me oferecer um presente. Faço conta, e muito, dessa preocupação. E não me venha com “não repare eu não ter trazido uma lembrancinha...” Reparo sim, ah, se reparo! E como!
Sempre considerei esteticamente feias as mãos que chegam a um aniversário desacompanhadas. Que solidão constrangedora! Uma entrada nem um pouco triunfal! Presença sem o presente... hum, tão sem-graça! Mesmo que recebida com aparente naturalidade pela gentil pseudoconivência do despresenteado.
Não abro mão de um presente, nem da mais remota possibilidade de recebê-lo. Especialmente, em datas especiais (não importa se apenas para mim ou também para o comércio, repito). E não escondo nunca a frustração quando ouço: “Depois trago sua lembrancinha. Não tive tempo de comprar...”. Tempo? Certamente, um ano foi pouco para tal providência. Uma imperdoável negligência desdobrada em prejuízo. Além do mais, se fossem levados a sério: “Prevenir é melhor que remediar” ou “Não deixe para amanhã o que se pode fazer hoje”, ninguém sofreria tamanha decepção.
Adoro o exercício de abrir caixas e pacotes: lindo e emocionante! O objeto ali, a olhar-me curioso; às vezes, malicioso, tão cúmplice; rindo feliz e agradecido por eu libertá-lo da patética inércia, dos papéis, fitas, laços e da enfadonha prisão. Ouço até o tilintar de estrelas, como se em plena efusão do amor, ao despertar cada presente e senti-lo todo meu! É como o eclodir de carícias, em pleno vôo da poesia, toque sutil a buscar pouso na alma do verso recém-nascido. Uma sensação fantástica desembrulhá-lo, descobrir-lhe a essência e senti-lo em sua inteireza... É o mesmo que liberar nossa criança para se fartar de chocolate (prefiro Sonho de Valsa). E qualquer um pode saborear esse instante. Basta cultivar o dom do encantamento e repudiar o ceticismo sisudo dos adultos amadurecidos à força, dando importância, sim, à “lembrança material”, pois, ao dar a luz ao mais simples presente, o gesto opera o milagre da materialização do afeto, que faz espoucar a emoção e exorciza a indiferença. Realmente, uma dupla de sucesso, o belo casal: Sua Majestade, o presente, e Sua Alteza, a presença! E atenção: o que a delicadeza uniu, não o separe a insensibilidade. Amém!

Um comentário:

  1. Lêda, você é incrível, acabo de ler este texto, ri durante a leitura e estou rindo agora. Nossa, humor e poeticidade ao mesmo tempo... Mas concordo plenamente com tudo que escreveu. Que texto...

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