quinta-feira, 25 de novembro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 20/11

PROFESSORA LOUSINHA CARVALHO: MATRIARCA TAMBÉM
DA EDUCAÇÃO

Lêda Selma

Mães são manhãs/ a colher lembranças/ deixadas nas frestas/ de tantos silêncios./ São fios de noites/ a cerzir saudades/ nos beirais do vento.// Mãe das sinas/ mãe dos caminhos/ onde brincam estrelas,/ sossegam temores,/ dormem silêncios,/ despertam manhãs.// Mãe não morre, estreliza-se.
Há perdas que deixam rastos vivos e indesmancháveis. A de um filho e de uma mãe, então... Eu que o diga... Para aplacar tudo isso, esta crônica, um tributo à minha mãe, a professora Lousinha Carvalho, baiana de Urandi.
Desde muito cedo, a bela mocinha já se mostrava vanguardista na arte de ensinar. E, lá para as bandas do sertão baiano, a única “filha mulher” de abastado e respeitável fazendeiro da região inicia sua saga de educadora. A cavalo.
Ainda com jeito de recém-nascida, a primavera goianiense saúda aquela família vinda do interior da Bahia: uma brava mulher, seu marido pernambucano, uma adiantada gravidez e duas filhas pequenas. Na bagagem, também uma trouxa robusta de sonhos e o desejo incontido de dar continuidade ao seu ofício de educadora. Assim, a jovem professora (título que sempre ostentou com desmedido orgulho), tão logo chega por aqui, retoma o exercício do magistério.
Vinte e seis anos após deixar a Bahia, recebe da Câmara Municipal de Goiânia o título de Cidadã Goianiense. Também a Assembleia Legislativa, em 2002, concede-lhe o título de Cidadã Goiana, forma justa de homenagear tanta dedicação na área educacional. Mas, mesmo oficializada sua goianidade, seu orgulho de baiana sequer foi arranhado.
Quarenta e dois anos de atividades educacionais, e a professora Lousinha aposenta-se, mesmo ainda com fôlego e competência para desempenhar o ofício para o qual se qualificou, aos 18 anos, quando interna do Colégio Imaculada Conceição, de Montes Claros/MG.
Uma vitoriosa, minha mãe! Mulher guerreira, de fibra, de coração em permanente estado de amor. Católica fervorosa e praticante, devota de N. Srª de Fátima, Santa Mônica e Santo Antônio (a cada dia 13, distribuía pães aos “pobres” do santo, como dizia), resignou-se quando perdeu o filho, à véspera do Natal, de forma trágica, e, pouco depois, dois netos jovens. Nem tanto sofrimento tirou-lhe o leme; respeitava os desígnios divinos, e enfrentava tudo com dignidade, galhardia, sustentada pela fé que a guiava. Uma bênção que Deus concedeu a seus quatro filhos, em forma de luz (tudo em que tocava reluzia e que continuará acendendo sonhos, abençoando-nos e velando a família.
Pois é, louros e adversidades compuseram os 89 anos da professora Lousinha, bem vividos, bem sofridos e bem vencidos, sempre com a dignidade dos fortes. Muitas tristezas, dores e perdas precoces entremearam suas conquistas, alegrias e vitórias. Apesar de tudo, a matriarca, patrimônio da Educação e do antigo Bairro Popular (hoje, Centro), jamais deixou arrefecer sua força, consolidada na fé sempre renovada na frequência à Capela Santa Mônica, dirigida pelos padres agostinianos, seus amigos de muitas décadas.
Anteontem, dia 18, minha mãe completaria 90 anos, e a festa seria ainda maior que a dos 80 e 85 anos. Tristeza e saudade fundiram-se, e fundiram-nos, nós, seus filhos. Mas seremos sempre consolados pela grandeza dos exemplos que nossa mãe nos deixou: garra, perseverança, integridade, sabedoria, religiosidade e amor. Tudo isso nos norteará as andanças pelos intrincados da vida.
À oportunidade, reitero o pedido que fiz ao vereador Anselmo Pereira e o estendo a seus pares: dar à praça em frente ao Colégio Estadual Prof. José Honorato, do qual minha mãe foi diretora e professora, além de vizinha por mais de 50 anos, o nome de “Professora Lousinha Carvalho”. Nem preciso ilustrar minha solicitação, pois todos sabem o tamanho do merecimento dessa mulher fantástica, educadora de primeira linha e uma das pioneiras de Goiânia.

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