terça-feira, 7 de setembro de 2010

POEMAS AVULSOS

O PÃO NOSSO...


Lêda Selma


A boca silencia a fome
que também foge dos olhos
e pousa nas mãos vazias.

No milagre do grão, o trigo;
no vigor da espiga, o milho;
no calor da fornalha, o pão.

O pão que engole a fome,
o pão que sossega a dor,
o pão que acolhe o sonho,
o pão que renasce a vida.




PRECE DO DESALENTO


Lêda Selma


– Óia, Deus, encarecido,
Te suplico, neste instante,
um bocadinho que seja
de Tua imensa bondade
pra desiludir a miséria,
esperançar a labuta,
arrefecer a descrença
e botar a vida nos prumos.

– Nesta prece encardida
de precisões sem tamanho,
Te peço, Sinhô, meu Deus
– se por graça merecer
de Tua bondade tanta –,
um pedacinho de terra
(coisa pouca, meia manta)
pra extrair dela o grão
que vai encorpar o pão,
acalentar minha mesa
e sujigar a boca da fome.

– Mas se não der, óia, Pai,
nem zangado vou ficar,
apenas dessossegado;
afinal, fiquei sem rumo,
pois a finada esperança
de mim, agora apartada,
me levou as miudezas
que guardei com muito agrado
em meu embornal de sonhos.

– Óia, Pai, tenta entender
o que pretendo explicar,
pois não quero desinteirar
Tua santa paciência:
só incomodei o Sinhô,
por falta de outra via,
pois os homens do poder
não se deixam molestar.
Todos sofrem de surdez,
só os desmandos têm vez,
o pobre...? Vá se danar!

– E embora meio sem jeito,
o jeito é mesmo implorar
por Tua intercessão.
Estou cansado, meu Pai,
de tanto sacolejar
esta agonia medonha
que não me deixa viver.
Minha fé já arriou,
perdi tudo o que eu tinha:
saúde, sonho, família...
e com a alma vazia,
me restou esmorecer.
Assim, melhor descansar!

– Óia, Deus, sei que o Sinhô
é por demais ocupado:
tanta guerra, tanta fome,
e quantos desempregados
(e pra dar conta dos políticos,
é preciso tempo dobrado!)!
Mas me permita, meu Pai,
por força do desespero
(pois careço tanto, tanto
de um caminho, um trieiro)
Te sugerir, respeitoso,
uma nova empreitada:
se por castigo me deste,
ou quem sabe por esmola,
esta vida malfadada,
já é hora, meu Sinhô,
de me dar, por misericórdia,
a morte como escora.
Eu já fiz por merecer...!



CAMINHO ESTÉRIL

Lêda Selma


Caminho um chão de carne estriada,
um chão sem chão, com fendas e vazios,
um não sei quê de agonia fastiosa,
preguiça de sonho, miúdos de coisa morta.

Plano na força que gravita à toa,
e sinto o bafio dos dias esquecidos.
Chantada na aridez do caminho infértil,
me farto de sol e de mim, mas prossigo.
E, assim, mais e mais machuco o chão
e me firo com as feridas em que piso.

Um comentário:

  1. Obrigada por compartilhar os seus poemas, Lêda! Gosto muito de tudo que você escreve, sempre!
    Estamos viajando, mas no final de setembro voltaremos para Goiânia e quero ajudá-la no natal do orfanato!
    Regina Lúcia

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