quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O IMPREVISÍVEL FUTEBOL CLUBE -DM 27/11/10

O IMPREVISÍVEL FUTEBOL CLUBE

LÊDA SELMA

Há que se entender o futebol... Feito de raça e de graça, de poesia e de acrobacias, de sonhos e de frustrações, de balbúrdia e de silêncio, de peito a pulsar sob o distintivo, de paixão incondicional à camisa...
Há que se entender o torcedor... Generoso ou incondescendente, vibrante ou omisso, passional ou alheado. Seu combustível, a vitória. Sua felicidade, o grito de gol. Seu orgulho, o brilho de suas cores.
Há que se enfocar a ação de certos jogadores... Ora movidos por interesses pessoais, ora pelo dinheiro, ora pelo descaso, ora por seu ideal, ignoram, muitas vezes, o compromisso com o clube e o amor pela camisa.
Na final da Copa Sul-americana, está o Goiás. Um fato histórico. Um feito heroico. Um momento de devoção. De comoção. De louvor a Deus na voz sufocada de Harlei. No gesto, ainda em campo, de Rafael Moura, pedindo sangue e garra a seus companheiros. Uma alegria inusitada, que brotou do lodo, de um sonho murchado há três das, e que deu sobrevivência moral a uma nação desencantada e sofrida: a esmeraldina.
O Goiás Esporte Clube, o Verdão da Serra, conterrâneo de Cora Coralina e de Hugo de Carvalho Ramos, é o Brasil, com os tons e sabores do cerrado, vestido de verde e branco, lambuzado de pequi, cheirando flor de ipê. Um Brasil banhado pelo Araguaia, enfeitado pela Serra Dourada, pousado no Centro-Oeste, bem onde seu coração bate ao ritmo da catira.
Sem dúvida, um feito grandioso a classificação do alviverde goiano. E o instante é de comemoração. De emoções entrelaçadas. De orgulho renascido. Afinal, há uma semana, o Goiás tombou combalido, humilhado e com a dignidade esgarçada, após um ano de agonia, um ano em que alguns jogadores pisotearam sua história e enodoaram sua honra. Um ano em que vaidades se exibiram e se digladiaram num jogo de poder. Fragilizado, o Verdão arrastou-se, lesma claudicante, pelos gramados daqui e dacolá, envergonhando sua torcida, e deixando à mostra suas entranhas e machucaduras profundas. Isso não pode ser esquecido, assim, num bater de cílios, ou porque as lágrimas, momentaneamente, cederam lugar ao riso.
O time está na final da Sul-americana, parabéns!, mas também está na Série B do Campeonato Brasileiro, longe da elite futebolística. Aquele que sempre foi referência nacional, hoje, está relegado a um lugar que não condiz com sua tradição e, menos ainda, com críticas destrutivas, achincalhes e desapontamentos.
Durante meses e meses, o Goiás figurou nas páginas policiais e nas do esporte debochativo, ridicularizado, chacoteado (e chicoteado) pela imprensa e por seus adversários (de todas as esferas): isso é fato, e não pode ser subestimado. Apático, o time não reagiu, não ostentou sua dignidade, muito pelo contrário, expôs sua fragilidade em atitudes indignas de legítimos esmeraldinos e de profissionais competentes. Rafael Moura, corajoso e indignado, apontou os “inimigos” do Goiás, e Harlei, com a lucidez de sempre, referendou o companheiro, e trouxe à tona sua decepção. Dois esmeraldinos de coração, de alma, de atitudes, de fibra, lutadores incansáveis, que mostraram, dentro e fora das quatro linhas, respeito pelo alviverde e senso profissional. A garra de Marcão, nos momentos críticos dos jogos, emocionou-me sobremaneira, bem como a de mais um ou outro que, apesar das limitações técnicas, tentavam defender seu distintivo, e evitar a desonra esmeraldina.
O Goiás está na final da Sul-americana, fico envaidecida, porém, não me diminui a indignação por tudo o que aconteceu em 2010, como o rebaixamento; tampouco, cala-me a pergunta: por que só nessa copa os tais jogadores resolveram levar a sério a profissão? Por causa da visibilidade que uma competição internacional dá às suas carreiras? Baitas oportunistas!
É hora, sim, de dizer tudo isso; antes, talvez não fosse, pois não se pisa em quem agoniza, em quem está no chão mutilado e impotente. E não me chamem de desmancha-prazeres! O que digo tem a forma de alerta.

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