segunda-feira, 30 de agosto de 2010

UM CHECAPE

Lêda Selma

Sala de espera lotada, calor misturando suores e impaciências, tarde ameaçando se recolher mais cedo e o consultório do doutor Zé repleto de consulentes.
– Vim mesmo só pra fazer um checape, doutor. Não que eu esteja sentindo alguma coisa, não, não. Estou bem; mas, depois dos enta (a primeira parte da palavra não vem ao caso, claro!), é sempre bom ter cuidado, não é? Atualmente, não tenho sentido quase nada, a não ser umas dorzinhas de cabeça que costumo atribuir à má digestão: este meu estômago é fogo! Pode ser também enxaqueca ou mal funcionamento da vesícula, do fígado ou do intestino...
– Bem, vamos aferir sua pressão...
– Ah! minha pressão é meio desregulada, mais pra alta; acho que é culpa da taquicardia que me ataca vez sim, vez não; ou quem sabe, devido à falta de ar que sinto quando me ataca a bronquite asmática...
– Certo, vamos aferir a...
– Não é tanto assim, doutor, mas tenho sentido umas agulhadas no pé da barriga, as pernas doloridas e inchadas... problema de ovário ou de rins, naturalmente, porque de circulação não é, embora a minha não seja lá das melhores, já que, não raro, sinto um formigamento incrível nos pés e nas mãos...
– Sei, sei, vamos aferir...
– Umas tonturinhas, doutor, me incomodam de quando em vez; é taxa de glicose um pouco elevada, creio. Calafrios e sudorese, sei, são sintomas de menopausa; chateiam, mas nada preocupante. Ah! sim, as dores nas costas! Certamente, por causa da coluna ou até da osteoporose...
– Pois é, vamos...
¬– Não é dos melhores, o meu apetite e, às vezes, sinto certa fadiga, palpitação, mal-estar generalizado, coisas do estresse ou, talvez, do ciclo menstrual desregrado, já que o maldito está a caminho da aposentadoria compulsória, acredito...
– Então...
– Me peça uns exames só pra controle, afinal, a gente nunca sabe... No entanto, só vim mesmo aqui, doutor, prum checape, questão de rotina, pois estou bem, sem novidades, a não ser o cansaço da vista e uma fisgadinha no ouvido, uma vez ou outra. No mais, tudo sobre controle, quer dizer, quase tudo: minha língua tá cheia de aftas, doutor, e quase não consigo falar...

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