segunda-feira, 30 de agosto de 2010

MALFADADA INUTILIDADE


Lêda Selma
Tarde transpirando respingos de tempo abafado, muitas nuvens migrantes e restos de sol derretido escorrendo pela cratera fumegante do céu, de onde brota a singela Aldeia das Querências, cidadezinha simplória, verdadeira pousada de tardes gorduchas de alegria.
No fórum, salas e corredores cobertos por silêncios enormes e sozinhos, mesas já peladas e tão impessoais e um juiz, ex-oficial do exército, homem de hábitos severos e paciência miudinha, preparando-se metodicamente para o fim de mais um acanhado expediente, à espera apenas de que o velho e pontual relógio marche rápido e anuncie logo o toque de recolher.
Vestida com disfarçada sobriedade, muita certeza nos passos e desconcertante segurança na voz, uma mulher de rosto risonho, aparentando uns dois pares e meio de décadas bem distribuídos num físico pequeno e falsamente magro, entra no gabinete do juiz, acena um cumprimento polido, ignora o relógio com suas largas passadas e, ante a não iminência do convite, pede licença para sentar-se, como a buscar garantia para a pretendida audiência. E, para surpresa e estupefação do magistrado, açucara a voz, simula um sorriso cordial e, alteando o olhar, sem a menor timidez, justifica sua presença:
– Flor de Lis (Flor, para os mais íntimos) é meu nome e também é meu o prazer de conhecer de pertinho o senhor. Pois é, meritíssimo, guardei – ah! e como! – esta vontade que tanto me incomodou durante anos até demais, prendendo a irrequieta como se fosse uma meliante. Até que num dia de sol encapetado, vi se alegrar a queixosa, quer dizer, a vontade... Por obra e intercessão de uma simpatia bem feita, em nome de um santo entendedor do assunto...
– E que esse santo faça o que a senhora, até o momento, não me permitiu: entender o assunto que a trouxe, a estas horas, aqui.
– Eu explico. Hã... melhor pensando, explicação miúda, esmiuçada, não convém. Basta o resultado: um homem com cara de quero-mais, de mãos sapecas e, às vezes, sorrateiras, bateu, entrou e, sem qualquer formalidade, engordou os olhos e, de um bote só, abocanhou meu coração.
– Vamos ao fato em si, de forma mais direta, dona Flor de Lis.
– Continuo: rendida espontaneamente, a bem da verdade, tratei logo de trancar a hospedaria e oferecer boas-vindas ao hospedante, que não economizou satisfação nem agradecimentos. E eu, de soslaio, doutor, falei cá com a minha vontade: aguente só mais um pouco que o tempo de fartura chegou e, loguinho, lhe solto as rédeas... Duas semanas depois, eu e o deflorador de coração pusemos os documentos em correria e, quase num trote, fomos atrás do tempo...
– Por favor, seja mais objetiva, senhora, o tempo urge e eu ...
– Pois então, o casamento foi rápido e bonito. Digo, casamento, casamento, só mesmo o da assinatura com o papel, porque o do corpo, aquele de agradar as exigências da vontade... ah! esse ainda está semi-donzelo e ela, a coitada, sim, a vontade, desembestada ao deus-dará, feito uma proscrita. Dá até pena seus queixumes...!
– Afinal, pode ser mais clara e menos prolixa? Tenha paciência: dispense os pormenores...
– Os pormenores, meritíssimo, posso dispensar. Fico só com os pormaiores pra facilitar a compreensão. Pois é, o danado, ele, o quase marido (porque, marido, marido, ele não é) me enganou. Prometeu com os olhos, confirmou com as mãos e, com palavras cheirosas, me garantiu mil travessuras noturnas (e, de bônus, algumas diurnas). E não é que o negaceante descumpriu o prometido?
– Já lhe pedi, senhora, seja menos detalhista. Descumpriu o prometido, pois bem, prossiga.
– Descumpriu. Daquele modelo, doutor: prometeu largo e deu estreito. E já virou repetição: assistência requerida, indeferimento no ato (acho que é a tal lei do menor esforço amasiada com aquela outra, a lei seca). O certo (que tá mais é pra errado) é que, de desserviço em desserviço, toda noite, o arremedo de marido nega serventia.
– E a senhora quer tomar providências...
– É, não dá mais, doutor, pra de novo encarcerar tanta vontade amotinada. E o risco de uma rebelião dos sentidos? Afinal, até hoje, o falso marido só fez, no duro, no duro, aquecimento. E como o homem é sovina! Uma coisiquinha ali, outra quase nunca acolá, uma carícia pequena (e eu sou lá mulher de gostar só de miudezas, doutor?). E por causa dessa ridiqueza – corpo mole, só pode ser – a lesada, digo, a vontade, confiscou minha paciência e ...
– Bom, vamos esclarecer os fatos: a senhora quer se separar do marido por falta de...
– O que é isso, meu Santo Antônio, o meritíssimo malucou? Separação? De jeito e modo. Nem pensar. E juramento meu, doutor, é o quê? Além do mais, do vigário, escutei bem: “até que a morte” e, não, até que a desserventia “os separe” (e quero lá ser mulher disponível e mal- falada?). E marido tem outras utilidades... E não tem?! Então. O que quero mesmo, doutor, é terceirizar os serviços do inativo, e abrir uma franquia, o senhor entende, não entende? Assim, dou ao inoperante outras funções e ao futuro atuante, a tal serventia. Desse modo, nem o folgado se encosta na moleza nem eu, na consumição.
– Será que entendi sua pretensão ou será que meus ouvidos resolveram brincar comigo? Sim, porque, se ouvi mesmo o que ouvi, a senhora está querendo...
– Sua autorização, meritíssimo. Dentro das regras e rigidez da moral. Porque, o que não quero, de jeito algum, é estropiar a lei. Ah! isso não (Santo Antônio me guarde de tamanho desatino. Amém!). Afinal, sou mulher séria e sem a menor mancha no currículo de minha honra. Por isso mesmo, quero tudo oficial, legalizado, no papel com timbre da justiça, carimbo e assinatura de juiz. Concubinada com a lei, doutor, aí sim, aquieto a desassossegada, o senhor entende, a vontade, e deixo o enfastiado, quer dizer, o quase marido, desfrutar de sua malfadada inutilidade...

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