terça-feira, 28 de dezembro de 2010

NATAL DE MUITOS NATAIS - DIÁRIO DA MANHÃ/25/12/10

Mais um Natal e, com ele, ritos e mitos, esperanças caducas, desejos senis e a paz, em sua brancura vermelha, mais uma vez, apenas um vulto baço perdido em muitas trincheiras que, no decorrer dos tempos, amotinaram ódios, disputas, megalomanias, loucuras. Apesar disso, é Natal e ele ainda ostenta o símbolo da fraternidade e da esperança de um reencontro com Cristo, o aniversariante do dia, nem sempre, o mais festejado. Guerras há, mas o Natal continua como vínculo que irmana a fé cristã.
No Natal, corações se abrem (e os espíritos...?!) e, em polvorosa, desenham sonhos luminosos, expectativas instigantes, momentos especiais. Afinal, ele é um mago de cabeleira, barba e promessas envelhecidas, porém, de vigor aceso. E, a cada ano, sem crise, então, o comércio se alvoroça e enfeitiça crianças e adultos que, em transe, se preparam para o banquete das compras, enquanto os problemas, numa fuga em massa, recolhem-se em asilos provisórios, pois nenhum desmancha-prazeres é bem-vindo nessa época. Todavia, o acinte da miséria permanece deitado sobre as calçadas, expondo à sociedade homens-molambos, carentes de dignidade e de cidadania, a banquetearem-se com a fome, com a exclusão, com o vazio das mãos e dos olhos, sob o testemunho do sol e das estrelas, únicas luzes de seu Natal.
Muitas são as caridades acontecidas neste período. Hospitais, creches, lares, abrigos... recebem doações de toda a espécie e de muitas mãos e, assim, participam da alegria momentânea que caracteriza a fugacidade das festas de fim de ano. É muito pouco. Não apenas no Natal a fome, a desesperança, as carências e o sofrimento clamam por socorro. Que se doem, pois, alegria, alimentos, oportunidades, trabalho, carinho, não só porque é Natal, mas porque também é Natal.
Nascedouro de impossíveis, de neve em pleno verão, de renas tropicais, de bons velhinhos saracoteantes e incansáveis, de chaminés em espigões, de bolsos mágicos, de dribles desconcertantes do comércio sobre os incautos consumidores, de alegrias e realidades mascaradas, é o Natal; e ele instiga sentimentos, encontros, festejos, esperanças, promessas... É verdade que, muitas vezes, o aniversariante do dia, o Menino Jesus, nem lembrado é e, talvez, já tenha se acostumado com tal esquecimento. Será...?! O melhor é acreditarmos que não, até porque é sabido que todo adulto carrega no íntimo o menino sobrado da infância, então, por que com o Menino Jesus seria diferente? Aquela criança nascida na manjedoura, há 2010 anos, renasce a cada dezembro. Então, precisamos saudá-la, comemorar seu renascimento.
Fascina-me o Natal e todos os seus ritos e mitos: desmancho as tranças de minha criança interior, e deixo-a patinar, planar, lambuzar-se de folia e traquinar no reino da fantasia, sem limites. E, como qualquer mortal, apesar da imortalidade acadêmica, deixo à solta meu lado lúdico e "profano" e espero ansiosa as surpresas deliciosas da noite natalina e a chegada dos presentes - encanta-me descobri-los, despertá-los.
Gostar do Natal, da expectativa que embrulha os presentes, da alegria a piruetar nos olhares de cada um é algo cultural em minha família. Fomos criados sob o encanto desses festejos. E, embora muitos dezembros me tenham trazido grandes perdas (a morte violenta de meu irmão, à véspera de um Natal; a partida de meu pai e, ano passado, a de minha mãe), apesar de ter sido privada da presença do meu filhote, mesmo assim, ainda consigo ver com deslumbramento quase pueril as luzes que enfeitam essa festa religiosa, com panca de profana.
Natal, para muitos, é templo da alegria; para outros, esconderijo da tristeza. Misto de alegria e tristeza, do religioso e profano, de afetos e de presentes, o Natal existe: para trazer o Cristo de volta. Um Cristo humanizado. Parceiro. Esperançoso. Um Cristo feliz!
A todos, um Natal abençoado

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