sábado, 18 de setembro de 2010

Crônica publicada no Diário da Manhã, sábado, 18/9/10

A RECUSA DO MURO


Lêda Selma



O leitor Bruno Andreatta Baldacci, atualmente em Turin, Itália, terra de seus ascendentes, pediu-me, por e-mail, que republicasse a trilogia em que sugiro alguns nomes para candidatos ao executivo ou mesmo ao legislativo.
Semana passada, foi a vez da Árvore. Todavia, revendo sua vida pregressa, lembrei-me da macieira e de seus maus antecedentes, como falta de decoro ambiental por envolvimento em corrupção (o escândalo no Paraíso, em que a maçã foi usada como propina para corromper Adão) e em tentativa de homicídio (quem não se lembra da pobre da Branca de Neve...?!). Resultado: ficha suja, o que me fez cassar a sugestão. Aí, pensei: quem sabe, o Muro!? Eis a segunda crônica:
O Muro, que eu julgava um potencial candidato a qualquer posto político, detestou minha ideia e indispôs seu nome ao pleito de 2010. Diga-se, rechaçou-a veemente, sob a alegação de não possuir as características tão comuns à maioria dos candidatos: voz de falsete, olhar de negaça, boca beijoqueira, sempre à espreita de um inocente rostinho infantil, sorriso fácil e ambíguo, promessas estapafúrdias... Além do mais, aludiu a certos ressentimentos em relação a alguns candidatos, seus antigos torturadores, já que se considera vítima da ditadura praticada por eles, em nome da democracia, o que reputa contraditório e infame. Meio desentendida, tentei inteirar-me de mais detalhes, e ele foi taxativo: em tempos passados, disse-me injuriado, sofreu bastante com o desrespeito contra seu espaço, assim, na maior sem-cerimônia. Quantas vezes, afirmou-me, não teve o corpo agredido e mutilado por propagandas demagógicas!? Quantas vezes, insistiu, não se fez porta-voz de promessas eleitoreiras e impraticáveis, mesmo à revelia de seu próprio desejo ou consentimento!? Quantas vezes, assumiu cores e legendas partidárias que não as suas!? E tudo de forma impositiva, lastimou! E não foram poucos os momentos em que ficou branco de pasmo, confessou-me. Felizmente, desta vez, comemorou, a lei coibiu tais ações e ninguém poderá mais usá-lo como letreiro, cúmplice ou propagador de poluição visual. Sente-se, portanto, vingado e, mais ainda, aliviado.
Assim, por todos os motivos abordados, está descartada qualquer possibilidade de candidatura. Melhor permanecer silencioso como convém a um autêntico muro, concluiu. Não que tenha índole murista, apesar do parentesco linguístico, não, não, garantiu-me. Até porque desempenha, ou já desempenhou, várias funções (algumas nem um pouco ortodoxas ou louváveis, convenhamos): Muro de arrimo, Muro de testa, Muro das lamentações, Muro de Berlim, Paredão... E o pior é que lhe arranjaram até uma companheira: a Muralha da China!
Também, mesmo a contragosto, já amuralhou muita gente – fazer o quê?! – arrematou conformado. Contudo, por via das incertezas, abriu uma fresta para o caso de, em algum momento, optar por romper o silêncio: se o fizer, que seja com poesia, “Poesia em doses”, assegurou- me (ufa! quem ficou aliviada fui eu, claro!). E o silêncio rompeu-se: lá na Alameda Ricardo Paranhos, onde a poesia brotou num murão azul-amarelo. É, o Demóstenes gosta de poesia!
Mas o Muro tem outras queixas graves: não raro, serve de bode-expiatório à polícia, a assaltantes e a carros desgovernados; recebe murros e chutes de casais em desarmonia, e empurrões de bêbados em atrito com o equilíbrio; intoxica-se com drogas e tabaco e, o mais humilhante, funciona como mictório masculino e vomitório coletivo. Ah! e as pichações, então? Obrigam-no a poluir cidades, a proferir gritos de guerra, a emitir opiniões odiosas, a propalar protestos descabidos, a paparicar governantes, a desafiar gangues adversárias, além de ser usado como xingódromo (é cada palavrão...!) Triste sina a sua, lamentou desconsolado.
Bem, como ele, o Muro, sente-se vítima, na plenitude do termo, e exausto de tanto cultuar a esperança e padecer com a falta de perspectivas, acredita que está mais para espectador do que para candidato. O jeito, compreender tamanha frustração e revolta, e aceitar sua negativa.
Já estava descrente quando ele, após matutar:“Tente a Praça. Ótima candidata!”, sugeriu-me. Hum... a Praça...?! Sei não... Será?! No próximo sábado, saberemos.

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