domingo, 15 de agosto de 2010

DA SERENATA, À EXCOMUNHÃO


Lêda Selma

Baiano de Brumado, recém-formado médico, aquele jovem de estatura pequena, sorriso graúdo e olhos cor de sertão, saiu daquelas lonjuras e apeou em Goiás, lá pras bandas do norte, com a juventude acesa, os sonhos em disparada e a coragem como timoneira. E chegou já aprontando confusão. Oxente, e foi?
– Esse sujeito tem cara, voz, andar e jeito de comunista – falaram, a esmo, algumas línguas direitistas.
O padre arrepiou. O prefeito tremeu. O juiz da comarca quase perdeu o juízo. Foi o suficiente para o jovem médico subverter seus planos e debandar com as ideias desarrumadas na mochila e os bolsos subnutridos por falta de alguns contos de réis. Aí, a coisa perigou desandar, pois o mundo parecia rodar de ré, em plena contramão, depois do fatídico mal-entendido. Também, pudera: nordestino com tipo de foragido e com pinta de comunista?!
Após longa caminhada a pé, em companhia de solidários amigos, esgueirando-se aqui e ali em busca de novo destino, outra apeada. Um lugarejo pequeno, com jeito de acolhedor, a primeira impressão. E a condição de ficante começou a tomar forma.
– Pode me indicar uma pensão? – solicitou o jovem forasteiro a um goiano sertanejo que, de chofre, informou-lhe a inexistência de tal luxo.
– Que mau começo, hem, Senhor do Bonfim?! – protestou um dos amigos.
– Ora, rapaz, falar no Padroeiro justo agora, no momento em que eu ia sugerir que a gente se remediasse, por esta noite, na zona? – resmungou o outro.
– Vou é procurar algum baiano por aqui, e ver o que consigo – arrematou o jovem médico.
E achou. Hospedagem combinada e estipulada em alguns contos de réis mensais.
– Aceito. Problema solucionado. Pelo menos, um mês está garantido – pensou. Depois, ele que me mande embora, caso eu não arranje o dinheiro. Ah! se eu fosse mesmo comunista... – lamentou sem convicção.
O tempo correu, fungou, comeu poeira até que, certo dia, uma mulher resolve, de madrugada, entrar em trabalho de parto. Ih! trabalho mesmo teve o recém-formado médico, chamado às pressas e por pura obra das circunstâncias. Resultado: cesariana bem sucedida, para alegria do marido, abastado fazendeiro, elevado à categoria de pai “de filho-homem”, para honra e glória de sua macheza. Finalmente, bolsos gordos, bem nutridos.
A intervenção do doutor, já sem o estigma de desacreditado, mereceu farta comemoração, acompanhada de uma serenata que atraiu várias quengas, cujas existências o padre desconhecia. De novo, confusão. No domingo, durante a missa, o padre excomungou nosso herói. Motivo? Era ele o próprio capeta, o criador daquelas mundanas.
Não tardou muito, uma febre altíssima, seguida de tosse e chiadeira no peito, vitimou o tal padre. Conduzido de novo pelas circunstâncias, o doutor, um tanto ressabiado, porém, decidido, chegou à casa paroquial. Antes, entretanto, pigarreou, respirou fundo, pôs na testa o sinal da cruz e, só depois, bateu à porta:
– Ô de casa!
– Quem é? – sussurrou o enfermo.
– O capeta!
Arrepiado, o padre benzeu-se com o crucifixo; ofegante, apontou-o para a porta.
– Abra a porta, quero, isto é, preciso entrar!
Aturdido, o enfermo pediu à empregada que desse entrada ao irreverente chegante; apesar do desconforto, recebeu-o sem muita animosidade. Ah! o crucifixo? Em riste!
Acudido com o maior zelo, o padre, aos poucos, desvencilhou-se da desconfiança e ensaiou um tímido sorriso. E o doutor ali, a auscultar-lhe o peito e os pulmões, a aferir-lhe a temperatura, pressão arterial, a dar-lhe pancadinhas no abdômen... Diagnóstico: pneumonia dupla!
– Voltarei amanhã. Se carecer antes, é só me chamar.
– Aradecido, doutor! A propósito, quanto lhe devo?
– Uma alma recauchutada e branquinha, padre. Ah! e o principal: desexcomungada, visse?! E trate logo de pagar a dívida, porque, caso ocorra um imprevisto, é melhor o senhor partir com a consciência já limpa, hem?!

Nenhum comentário:

Postar um comentário