sábado, 31 de março de 2012

CONFUSÕES DO SACRISTÂO - Diário da Manhã - 31/3/2012

CONFUSÕES DO SACRISTÃO


Lêda Selma


A igrejinha, como sempre, cenário dos grandes acontecimentos. E das grandes emoções. Visitada diariamente por donzelas inconformadas com suas donzelices crônicas, tinha, como destaque, no altar à direita, o preferido das solteironas, o alcoviteiro-mor, Santo Antônio, padroeiro municipal e afamado arranjador de casamentos. À esquerda, com a timidez ou cara de preguiça, à mostra, São Benedito, cujas habilidades santísticas, francamente, desconheço.

O coitado – coitado! – (refiro-me a Santo Antônio), sequer dispunha de um minutinho de folga para suas necessidades mais básicas. As casadouras não lhe davam trégua. Tampouco, os desmazelados que, volta e meia, perdiam até a conta de suas perdas, convertidas em futuros achados, por obra e competência do santo, apelidado, carinhosamente, de dois-em-um. Porém, seus ouvidos suplicavam por um descanso, exaustos de tanto ouvir lenga-lengas intermináveis.

O estoque de donzelas parecia nunca se esgotar, pois havia sempre alguma à cata de marido. Assim como as tais “coisas perdidas” que se amontoavam e geravam piedosos pedidos e, consequentemente, farturentas promessas. Plantão, pois, diuturno, o do pobre. E cansativo. É, vida de santo não deve ser fácil mesmo. A do santo polivalente, então...

Acostumado a testemunhar os apelos das donzelas insatisfeitas e com os desejos queimosos à flor de seus recantos secretos, o sacristão peralta, que muito gostava de se imiscuir na vida alheia (e já enfarado de tanto ouvir as mesmas lamúrias), resolveu fazer mais uma das suas, ao ver certa esperançosa, cujas vontades também saltavam das protuberâncias intumescidas, embicadas sob o decote da blusa, desviar-se do santo casamenteiro, ajoelhar-se diante da Virgem Maria e pedir-lhe:

– Minha Santa, quero tanto um homem bom (e olhe, não precisa ser respeitador), desimpedido, carinhoso e aliviador dessa quentura que me desassossega as intimidades, me aperreia o sono e destrambelha meus sonhos. Me ajude, Mãe! E não me venha indicar aquele santo embromador, não, o tal Santo Antônio, porque dele já estou descrençada. Só conto mesmo é com a senhora pra me tirar dessa consumição, e dessa sina que me condenou ao desuso. Morrer no caritó, com selo original de fabricação, que até já deve estar vencido, é muito desprivilegio, minha Mãe. Não permita que eu termine meus dias como uma rebenqueada da sorte, por piedade! Portanto, marido já, se avie, ande!
Escondido atrás da imagem de São Benedito, para confundir a queixosa da vez, o sacristão, com a voz adulterada, e fazendo-se passar pelo santo, aparteou:
– Não ajuda não, Nossa Senhora! Deixa essa aí morrer endonzelada, avexada e sem as serventias que ela muito deseja.

– Cala a boca, afro enxerido, santo destruidor da ilusão alheia, que não tô falando com você nem com esse seu pareceiro incompetente, visse? Tô falando é com a Virgem, que, apesar de virgem, é mulher que nem eu e deve entender das minhas precisões...

Mas o sacristão tinha também suas manias e excentricidades. Supersticioso, colocava, todas as noites, as alpercatas de frente para a porta, como se estivessem de saída e, a seguir, pendurava a velha boina cor de ferrugem, no trinco, sempre com a aba para cima. Ah! antes de dormir, tomava ‘uma dose dobrada de chapuleta’, e dava um gole gordo ao Santo, sempre com o mesmo argumento: “Um agradinho ajuda o santo a se alembrar dos amigos na hora das necessidades. Só periga, como de certa feita, eu, já trolado, exagerar na dose do santo, e ele ficar azuretado, de pileque”.


Momento poético:

Mesmo os corações blindados,
as palavras ferem como baionetas.
São devastadoras se infames
e mortais quando silenciosas.

Um comentário:

  1. Querida prima e poetisa Lêda Selma, padre, sacristão, freira, confessionário, enfim, tudo ligado à igreja é um excelente mote para você, com sensibilidade e aptidão, dissecar, facilitando o encantamento e apreciação do leitor.

    Bjs, Iracema

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