sábado, 3 de março de 2012

Diário da Manhã - 4/3/2012

MANCADA E TANTO

Lêda Selma

O namoro estava engrenado. Bastava que Distraildo, recém-formado em psicologia, moço direito, bonitão e de boa família, mas nem tanto assim de memória, usasse seu charme para manter sob custódia emocional a almejada Dulce, moça privilegiada pela morenice esguia espalhada corpo afora e, em especial, nas fartas ondulações, salientemente empinadas. Um primor de mulher, cujos trejeitos enredavam fantasias e incitavam desejos masculinos.

A tarde já se preparava para acomodar sua bagagem às costas, e a agenda de atendimento ainda cheia. A secretária sorria só metade do riso, mas tudo bem, por certo, reflexo do cansaço. Também pudera: Distraildo, seu patrão, havia pegado no batente às oito da manhã; uma saidinha rápida para o almoço, apenas.

Realizado na profissão e quase feliz no amor, o jovem. Bem, o quase, só para o namoro, pois o processo de conquista, aos poucos, engrenava-se; questão de tempo e de jeito, nada mais, vaticinava.

De repente, em meio a uma sessão, Distraildo sentiu a lembrança cutucá-lo: aniversário da amada, a quase namorada! Puxa vida, tal esquecimento poderia custar-lhe a chance do namoro! Que indelicadeza, sequer, ter enviado à bela moça de curvas instigantes, pelo menos, umas flores! (Meu São..., São..., Santa... ah! quem estiver mais desocupado, pronto! Seja lá o santo que for, faça um milagre rápido, segure o tempo para que haja tempo de eu remendar minha mancada, por favor! – cochicha a si mesmo em pensamento.

Desvencilhado do cliente, pede à secretária que ligue para a floricultura e encomende as mais bonitas flores. E que o entregador passe antes pela clínica para apanhar o cartão.

Todas as floriculturas estavam fechadas, avisou-lhe a secretária. – E agora, o que farei? Santos incompetentes, nem pra me darem um dedinho de ajuda! – resmunga, enquanto, na maior afobação (outro paciente já o aguardava), folheia a lista telefônica, como à cata de um milagre. E ele acontece:

– Boa-noite! Casa das Flores Feliz M...

Ainda com o coração em correria e a cabeça conturbada, nem esperou a moça, do outro lado da linha, completar a saudação.

– Preciso de umas flores, as mais bonitas, urgente! Fica a seu gosto escolher o arranjo, o buquê, o que for. Deixarei o cartãozinho, o endereço para a entrega e o cheque com minha secretária, peça ao entregador para vir à clínica antes, entende? Olhe, você é linda, tudo é lindo!

Aos pulos, desliga o telefone, cantarolando: Obrigado, São... ou Santa... ah! todos os santos, e desculpem o mau jeito de agora há pouco, sim, aquela bronca. Mas que valeu a prensa, valeu! Eu não podia facilitar, nem lhes conceder moleza, ora!

A aniversariante, Dulce, estava eufórica. Muitas flores, muitos presentes, muitas presenças, enfim, um animado encontro de amigos. Até que, súbito, Dulce é chamada à porta. Desajeitado por sentir-se intruso, e pressentir que algo estava errado, o rapaz é direto:

– Vim lhe entregar essas flores, moça. O cartão está junto. Não tenho nada com isso.

Dulce empalidece ao ver aquela imensa coroa, enfaixada com os seguintes dizeres:
“Vida eterna e muita paz!”. E, depois de ler o tal cartão, desmaia. Alguém o encontra no chão e põe-se a lê-lo: “As flores representam tudo o que lhe desejo nesse dia especial: que a envolvam como em um abraço e lhe cubram o corpo com suas pétalas perfumadas, até que sinta o coração se aquietar e a alma voar para um passeio ao sol; então, com os olhos fechados, encha de luz o momento tocado pela imensidão, e chegue à estrela. Saudades. Com amor, Distraildo”.

O rapaz nunca entendeu por que, ao chegar para a festa, já não havia festa. Tampouco, a esquiva da amada, sempre que tentou se aproximar dela. Ofendido, desistiu. Não sem, antes, concluir: Mulher é raça estranha. E ainda dizem que homem não sabe ser romântico. Nem as flores, nem as palavras melosas do cartão emocionaram aquela infeliz. Para mim, ela está morta. Morreu no próprio dia do aniversário.

Momento poético:

Há sempre um sol
dentro do sonho.
E uma solidão
em cada silêncio.

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