sábado, 7 de abril de 2012

UMA QUENGA DAS BOAS - 8/4/2012 - Diário da Manhã

UMA QUENGA DAS BOAS


Lêda Selma


– Olhe, amigo, ontem me refestelei como há muito não fazia.

– E foi? E a refestelança se deu de que modo, homem?

– Do modo que todo homem merece, ora!

– Virgem, e foi?! Mas que mal pergunte ao amigo, como foi?

– Vou principiar pelo início. Bote tento e aguce os ouvidos, hem!?

– Tento boto, e redobrado, e os ouvidos já afiei. O amigo principie.

– Primeiro, escolhi a pretendida. Então, montei o cerco, fiquei
de vigília e encantoei a danada.

– Hum!... a danada, é? E aí, danou-se!

– Nem tanto. Já na primeira investida, ela se esquivou e fugiu...

– Quer dizer que a danada pôs a fuga no trote e desfeiteou o amigo!?

– Mas insisti. E de novo. Corre aqui, escapa ali e ela esperneando...

– E entre um esperneio e outro...

– Segurei com força a bendita que, desassossegada, arrepiou e
rebundeou...

– E entre um arrepio e um rebundeio...

– Ela se rendeu.

– Rendida, rendida, em seus braços, siô?!

– Também, pudera: eu ali, resolvido, com o fôlego alterado, o
desejo pidão...

– Um felizardo, o amigo! Aí num quieto, num calado, sonso que só...

– Ah! e que coxas, criatura! De aguar a boca, os olhos, a vontade...

– Principalmente, a vontade...

– Bem, vou desativar o princípio e ativar a continuação...

– Virgem, e é aí que a coisa vai esquentar...

– Ainda não, se aquiete! Antes da esquentação, tem o ajeitamento, ora!

– Bem lembrado. Ao ajeitamento...

– Dominei a fulana e, no maior capricho, apalpei tudo e deixei
a tal peladinha.

– Que suadeira, amigo! Pe-la-di-nha, peladinha?! Desnuadinha? Em pelo?

– Em pele. Pele e carne. E quanta abundância...! A peitaria, então, que fartura!

– Valei-me, protetor dos invejosos! Farta, sim, é a inveja que
me desarvora...

– Compostura, homem...!

– Sim. Mas deixe de lado a continuação e chegue logo na consumação.

– Se acalme! A pressa é inimiga da detalhação. Como lhe dizia...

– Peladinha, com as coxas, peitança e abundâncias a seu dispor...

– Eita gastura a sua, homem! Ajeite o desajeitado e me escute, criatura!

– Bem sugerido! Então, pe-la-di-nha... Ai, o que abunda sempre agrada!

– Pois bem, nuinha e no ponto pra virar quenga! Uma quenga corpuda, deliciosa...

– Quen...ga?! Assim, quenga, quenga?!

– Quenga, homem, quenga! E quenga de primeira.

– Modelo quengão? Quenga gostosa, cheirosa, carnuda...

– Quenga de primeira, das melhores. Encorpada, aloirada, cheia de suculências e quenturas...

– Minha Virgem, por piedade, uma sobrinha que seja! Ih! não é de bom tom abordar tal assunto com uma virgem, ainda por cima, santa! A senhora me desculpe o mau jeito...!

– Sobrinha? Que mal há? Afinal, somos amigos. Por que não...?

– “Por que não...?” O amigo quis dizer o quê?

– Que vou lhe ceder a quenga!

– O amigo descerebrou!

– Ela está ali, ó, no descanso... E quenga dormida é boa por demais...

– Minha Virgem, acuda o homem maluquecido! Me ceder sua quenga?!

– Sim. Ou o que restou dela. Depois de ontem à noite...

– E que noite, posso até imaginar...!

– De revirar os olhos! Ela sobre a mesa, remexendo-se, hum,
ao mais simples contato...

– O quê...?! Em cima da mesa? O amigo, pelo visto, abusou...

– Até me fartar, ufa! E, como lhe disse, a quenga é sua agora.
Dê um trato na dita e sacie seu desejo!

– O amigo perdeu de vez a compostura?! O que é isso?! Me ceder a quenga depois de uma noitada...! Se atipe, siô! Essas modernidades me assustam, ora se não!

– Deixe de colisa! Ande, a gostosa está à sua espera! É só afogueá-la e...

– Pare de troçar comigo, moço! Vê se pode: eu e a quenga do amigo, em sua própria casa!

– Eu mesmo vou reanimar a cheirosa e deixá-la no jeito pra você, sossegue!

– Espere aí! O amigo extrapolou e até me ofendeu. Liberdade tem fronteiras.

– Tome tenência, homem, e venha logo, venha, venha se adonar da saborosa...

– Me adonar da... Por favor, amigo, judiação tem limite! Já vou é embora. Até!

– Espere, calma! Se adonar, sim, da galinha, homem leso, que virou quenga ou, se preferir, engrossado de fubá! Bom apetite!

Momento poético:

Pelo quarto,
meu vulto polarizado,
meu perfume (feitiço de cobra)
e um poema sem segredos.

A ferida vermelha
– bem aqui do lado esquerdo –
fechou a dor e degredou
buscas e sonhos embrionários.

No roupeiro,
o vestido de linho
e a camisola de seda
dizem tudo de mim...

4 comentários:

  1. Querida prima e poetisa Lêda Selma, “Uma quenga das boas” prendeu-me da primeira à última palavra. Afinal, meu DNA nordestino se identifica com esse tipo de prosa. A expressão “quenga” era frequentemente dita por meus pais, tanto quanto se referiam a meretriz, quanto a coisa imprestável.
    Valeu!
    Bjs, Iracema

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  2. Li num só fôlego, ansioso, devorando cada palavra. Leitura agradável e divertida. Parabéns pela crônica. Gostei muito ! Vou compartilhar.
    Estou seguindo o Blog. Me aceita lá no Facebook também ? Fiz o convite lá.
    Sou também escritor ( ou melhor, aspirante a escritor rsrs )
    Autor dos livros A PASSAGEM DOS COMETAS e GRITOS E GEMIDOS.
    Saudações !

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  3. Oi, Edir, desculpe-me o atraso, mas tive problemas sérios com o computador, rede, etc., daí meu sumiço e consequente desatualização do blog. Obrigada por visitar-me e pelos comentários generosos. Ih!... não sei lidar ainda bem com o facebook, tentarei achá-lo lá. Abraço. Lêda

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  4. Oi, Edir, desculpe-me o atraso, mas tive problemas sérios com o computador, rede, etc., daí meu sumiço e consequente desatualização do blog. Obrigada por visitar-me e pelos comentários generosos. Ih!... não sei lidar ainda bem com o facebook, tentarei achá-lo lá. Abraço. Lêda

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