AH! DESISTI!
Lêda Selma
Nenhum dos meus pretendidos aceitou a candidatura (que seres mais politizados, gente!). A Árvore, melindrada, repetiu-me seu desgosto por eu ter revolvido a história da maçã, naquele famoso escândalo do Paraíso, no início do mundo, em que se envolveu a Macieira. Achou que não foi bom para a classe, ativar a memória do povo, sempre tão acomodado ao esquecimento. Repudiou, injuriada, minha alusão ao outro escândalo, com a mesma personagem, no caso Bruxa versus Branca de Neve e os sete anões. Garantiu-me que nada mudou de lá para cá, ao contrário, a bruxa continua solta e os anões (os da era moderna), não faz muito tempo, mostraram sua performance: contas bancárias obesas, crias da corrupção. E continuou: hoje, os anões viraram gigantes e aperfeiçoaram suas estratégias, pois usam como transporte da carga (a propina), além da tradicional mala (para as mulheres, também bolsas grandes), as meias e a cueca. Sim, a cueca, nicho e transportadora, até pouco tempo, de um único passageiro. Cuecas e meias superlotadas de propinas, quem diria...
Bom, todo esse discurso arvoriano, com fortes conotações corporativas, deixou-me cabreira e com uma dúvida interrogativa: máfia de verde...?! Será?!
O Muro, ah!, esbravejou tanto contra minha ideia que, logo, reconheci: não entendo nada de política. Ele, candidato? Jurou-me: nem pensar! Todavia, apesar de seus protestos convertidos em recusa, muitos foram os leitores que se prontificaram a oferecer-lhe apoio. Ponderaram que o muro ostenta status de utilitário – utilidade pública e privada – e importante papel social a cumprir. Portanto, votos garantidos. Nem assim, o turrão abdicou da recusa, e minha proposta foi para o beleléu. Paciência!
Reconheço: ele tem lá suas razões, motivadas por grandes mágoas e ressentimentos antigos, já expostos. Além do mais, teme ser relegado, apenas, à condição de muro de aluguel, como certas legendas, o que poderia resultar em grandes chateações, como a venda ilegal de seu corpo. Resmungou, protestou, lamuriou... e só faltou buscar consolo junto ao colega israelense, o das lamentações. E, apenas para safar-se de minha insistência, entendi, sugeriu-me a candidatura da Praça. Aceitei e não me fiz de suplicada: tentei.
Que decepção! A Praça, ainda mais cheia de si que os outros, também não aceitou. Argumentei que, por ser do povo, poderia representá-lo com mais legitimidade e inspirar maior confiança ao eleitor, pois está sempre ali, de bancos abertos, acolhedora, democrática, ao alcance de todos, o que, por si só, já a diferencia dos demais candidatos. Não a convenci. Alegou alguns temores, e ressaltou o maior: ficar à mercê do descuido, caso não vença o pleito. Sob o pretexto de que tem um nome, isto é, umas flores e bancos a zelar, arrematou o assunto: de nenhum modo, correrá o risco de se transformar numa ilha cercada de mato, de marginais e de descaso público por todos os lados. Perdi meu tempo e meu vernáculo. E saí com a rábia entre as perdas.
Desisto de vez! A política não é minha raia nem minha laia. É um campo carrasquento no qual não devo me imiscuir: por falta de competência, malícia e, sobretudo, paciência. Não mais lançarei candidato, pronto!
Como nenhuma de minhas investidas pró-candidaturas excêntricas resultou em sucesso, resolvi dar mais uma olhadela no Horário Eleitoral Gratuito. Hilário! E, dizem, meus indicados são excêntricos...?! Pois sim! Assistam ao tal programa. Cada figura...! E as caricatas promessas eleitoreiras? Não há careca que resista à indignação dos ouvintes e telespectadores (que o digam as pesquisas)!
O povo quer se irritar com as tentativas de embromação? Horário Eleitoral Gratuito! Quer ter a inteligência subestimada? Horário Eleitoral Gratuito! Quer rir? Horário Eleitoral Gratuito. Desopila até o pé. Sim, aquele que está sempre atrás...!
sábado, 25 de setembro de 2010
domingo, 19 de setembro de 2010
ALGUNS POEMAS DE LÊDA SELMA
Silêncio é vastidão do nada
e poesia, um colibri verdourado,
com hálito de primavera,
a polinizar desertos e escuridões.
...................................................
O amor que irrompe da estiagem
é abrupto como um insulto:
acende lareira na alma
e carboniza o coração.
......................................................
Araguaia de aruanãs, de saudades ao relento,
do pescar ágil das garças, das gaivotas em alvoroço,
das madrugadas sozinhas, deitadas ao léu, n’areia,
sob algazarra de estrelas.
Araguaia abençoado, alma dos Carajás.
.............................................................................
Esta ferida vermelha,
bem aqui, do lado esquerdo,
seria só cicatriz
se dor não fosse ainda.
...........................................................................
O tempo é pressa. A espera, passo.
Se corro, canso. Se ando, paro.
A vida é fio. O sonho, laço.
Se amo, arrisco. Se desisto, parto.
...........................................................
No silêncio do olhar ausente
se esconde a dor e refugia o medo
e morre o sonho que se fez finito.
............................................................
e poesia, um colibri verdourado,
com hálito de primavera,
a polinizar desertos e escuridões.
...................................................
O amor que irrompe da estiagem
é abrupto como um insulto:
acende lareira na alma
e carboniza o coração.
......................................................
Araguaia de aruanãs, de saudades ao relento,
do pescar ágil das garças, das gaivotas em alvoroço,
das madrugadas sozinhas, deitadas ao léu, n’areia,
sob algazarra de estrelas.
Araguaia abençoado, alma dos Carajás.
.............................................................................
Esta ferida vermelha,
bem aqui, do lado esquerdo,
seria só cicatriz
se dor não fosse ainda.
...........................................................................
O tempo é pressa. A espera, passo.
Se corro, canso. Se ando, paro.
A vida é fio. O sonho, laço.
Se amo, arrisco. Se desisto, parto.
...........................................................
No silêncio do olhar ausente
se esconde a dor e refugia o medo
e morre o sonho que se fez finito.
............................................................
sábado, 18 de setembro de 2010
Crônica publicada no Diário da Manhã, sábado, 18/9/10
A RECUSA DO MURO
Lêda Selma
O leitor Bruno Andreatta Baldacci, atualmente em Turin, Itália, terra de seus ascendentes, pediu-me, por e-mail, que republicasse a trilogia em que sugiro alguns nomes para candidatos ao executivo ou mesmo ao legislativo.
Semana passada, foi a vez da Árvore. Todavia, revendo sua vida pregressa, lembrei-me da macieira e de seus maus antecedentes, como falta de decoro ambiental por envolvimento em corrupção (o escândalo no Paraíso, em que a maçã foi usada como propina para corromper Adão) e em tentativa de homicídio (quem não se lembra da pobre da Branca de Neve...?!). Resultado: ficha suja, o que me fez cassar a sugestão. Aí, pensei: quem sabe, o Muro!? Eis a segunda crônica:
O Muro, que eu julgava um potencial candidato a qualquer posto político, detestou minha ideia e indispôs seu nome ao pleito de 2010. Diga-se, rechaçou-a veemente, sob a alegação de não possuir as características tão comuns à maioria dos candidatos: voz de falsete, olhar de negaça, boca beijoqueira, sempre à espreita de um inocente rostinho infantil, sorriso fácil e ambíguo, promessas estapafúrdias... Além do mais, aludiu a certos ressentimentos em relação a alguns candidatos, seus antigos torturadores, já que se considera vítima da ditadura praticada por eles, em nome da democracia, o que reputa contraditório e infame. Meio desentendida, tentei inteirar-me de mais detalhes, e ele foi taxativo: em tempos passados, disse-me injuriado, sofreu bastante com o desrespeito contra seu espaço, assim, na maior sem-cerimônia. Quantas vezes, afirmou-me, não teve o corpo agredido e mutilado por propagandas demagógicas!? Quantas vezes, insistiu, não se fez porta-voz de promessas eleitoreiras e impraticáveis, mesmo à revelia de seu próprio desejo ou consentimento!? Quantas vezes, assumiu cores e legendas partidárias que não as suas!? E tudo de forma impositiva, lastimou! E não foram poucos os momentos em que ficou branco de pasmo, confessou-me. Felizmente, desta vez, comemorou, a lei coibiu tais ações e ninguém poderá mais usá-lo como letreiro, cúmplice ou propagador de poluição visual. Sente-se, portanto, vingado e, mais ainda, aliviado.
Assim, por todos os motivos abordados, está descartada qualquer possibilidade de candidatura. Melhor permanecer silencioso como convém a um autêntico muro, concluiu. Não que tenha índole murista, apesar do parentesco linguístico, não, não, garantiu-me. Até porque desempenha, ou já desempenhou, várias funções (algumas nem um pouco ortodoxas ou louváveis, convenhamos): Muro de arrimo, Muro de testa, Muro das lamentações, Muro de Berlim, Paredão... E o pior é que lhe arranjaram até uma companheira: a Muralha da China!
Também, mesmo a contragosto, já amuralhou muita gente – fazer o quê?! – arrematou conformado. Contudo, por via das incertezas, abriu uma fresta para o caso de, em algum momento, optar por romper o silêncio: se o fizer, que seja com poesia, “Poesia em doses”, assegurou- me (ufa! quem ficou aliviada fui eu, claro!). E o silêncio rompeu-se: lá na Alameda Ricardo Paranhos, onde a poesia brotou num murão azul-amarelo. É, o Demóstenes gosta de poesia!
Mas o Muro tem outras queixas graves: não raro, serve de bode-expiatório à polícia, a assaltantes e a carros desgovernados; recebe murros e chutes de casais em desarmonia, e empurrões de bêbados em atrito com o equilíbrio; intoxica-se com drogas e tabaco e, o mais humilhante, funciona como mictório masculino e vomitório coletivo. Ah! e as pichações, então? Obrigam-no a poluir cidades, a proferir gritos de guerra, a emitir opiniões odiosas, a propalar protestos descabidos, a paparicar governantes, a desafiar gangues adversárias, além de ser usado como xingódromo (é cada palavrão...!) Triste sina a sua, lamentou desconsolado.
Bem, como ele, o Muro, sente-se vítima, na plenitude do termo, e exausto de tanto cultuar a esperança e padecer com a falta de perspectivas, acredita que está mais para espectador do que para candidato. O jeito, compreender tamanha frustração e revolta, e aceitar sua negativa.
Já estava descrente quando ele, após matutar:“Tente a Praça. Ótima candidata!”, sugeriu-me. Hum... a Praça...?! Sei não... Será?! No próximo sábado, saberemos.
Lêda Selma
O leitor Bruno Andreatta Baldacci, atualmente em Turin, Itália, terra de seus ascendentes, pediu-me, por e-mail, que republicasse a trilogia em que sugiro alguns nomes para candidatos ao executivo ou mesmo ao legislativo.
Semana passada, foi a vez da Árvore. Todavia, revendo sua vida pregressa, lembrei-me da macieira e de seus maus antecedentes, como falta de decoro ambiental por envolvimento em corrupção (o escândalo no Paraíso, em que a maçã foi usada como propina para corromper Adão) e em tentativa de homicídio (quem não se lembra da pobre da Branca de Neve...?!). Resultado: ficha suja, o que me fez cassar a sugestão. Aí, pensei: quem sabe, o Muro!? Eis a segunda crônica:
O Muro, que eu julgava um potencial candidato a qualquer posto político, detestou minha ideia e indispôs seu nome ao pleito de 2010. Diga-se, rechaçou-a veemente, sob a alegação de não possuir as características tão comuns à maioria dos candidatos: voz de falsete, olhar de negaça, boca beijoqueira, sempre à espreita de um inocente rostinho infantil, sorriso fácil e ambíguo, promessas estapafúrdias... Além do mais, aludiu a certos ressentimentos em relação a alguns candidatos, seus antigos torturadores, já que se considera vítima da ditadura praticada por eles, em nome da democracia, o que reputa contraditório e infame. Meio desentendida, tentei inteirar-me de mais detalhes, e ele foi taxativo: em tempos passados, disse-me injuriado, sofreu bastante com o desrespeito contra seu espaço, assim, na maior sem-cerimônia. Quantas vezes, afirmou-me, não teve o corpo agredido e mutilado por propagandas demagógicas!? Quantas vezes, insistiu, não se fez porta-voz de promessas eleitoreiras e impraticáveis, mesmo à revelia de seu próprio desejo ou consentimento!? Quantas vezes, assumiu cores e legendas partidárias que não as suas!? E tudo de forma impositiva, lastimou! E não foram poucos os momentos em que ficou branco de pasmo, confessou-me. Felizmente, desta vez, comemorou, a lei coibiu tais ações e ninguém poderá mais usá-lo como letreiro, cúmplice ou propagador de poluição visual. Sente-se, portanto, vingado e, mais ainda, aliviado.
Assim, por todos os motivos abordados, está descartada qualquer possibilidade de candidatura. Melhor permanecer silencioso como convém a um autêntico muro, concluiu. Não que tenha índole murista, apesar do parentesco linguístico, não, não, garantiu-me. Até porque desempenha, ou já desempenhou, várias funções (algumas nem um pouco ortodoxas ou louváveis, convenhamos): Muro de arrimo, Muro de testa, Muro das lamentações, Muro de Berlim, Paredão... E o pior é que lhe arranjaram até uma companheira: a Muralha da China!
Também, mesmo a contragosto, já amuralhou muita gente – fazer o quê?! – arrematou conformado. Contudo, por via das incertezas, abriu uma fresta para o caso de, em algum momento, optar por romper o silêncio: se o fizer, que seja com poesia, “Poesia em doses”, assegurou- me (ufa! quem ficou aliviada fui eu, claro!). E o silêncio rompeu-se: lá na Alameda Ricardo Paranhos, onde a poesia brotou num murão azul-amarelo. É, o Demóstenes gosta de poesia!
Mas o Muro tem outras queixas graves: não raro, serve de bode-expiatório à polícia, a assaltantes e a carros desgovernados; recebe murros e chutes de casais em desarmonia, e empurrões de bêbados em atrito com o equilíbrio; intoxica-se com drogas e tabaco e, o mais humilhante, funciona como mictório masculino e vomitório coletivo. Ah! e as pichações, então? Obrigam-no a poluir cidades, a proferir gritos de guerra, a emitir opiniões odiosas, a propalar protestos descabidos, a paparicar governantes, a desafiar gangues adversárias, além de ser usado como xingódromo (é cada palavrão...!) Triste sina a sua, lamentou desconsolado.
Bem, como ele, o Muro, sente-se vítima, na plenitude do termo, e exausto de tanto cultuar a esperança e padecer com a falta de perspectivas, acredita que está mais para espectador do que para candidato. O jeito, compreender tamanha frustração e revolta, e aceitar sua negativa.
Já estava descrente quando ele, após matutar:“Tente a Praça. Ótima candidata!”, sugeriu-me. Hum... a Praça...?! Sei não... Será?! No próximo sábado, saberemos.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 11/9 - DM
CUIDADO COM O VOTO
QUE O CANDIDATO É DE BARRO
Lêda Selma
Um leitor brasileiro, de ascendência italiana, Bruno Andreatta Baldacci, residente em Turin, Itália, enviou-me este e-mail: “Cara escritora Lêda Selma, sei que aí no Brasil é tempo de eleição e de enganação. Será que a “dama de ferro” será mesmo presidenta? Cara escritora, há muito tempo, ainda aí em Goiânia, li umas crônicas de sua lavra sobre uns candidatos esdrúxulos como árvore, praça e morri de dar risada. Temos um grupo divertido aqui em Turin e todo sábado acessamos o Diário da Manhã para ler seus artigos que quase sempre são muito hilários. Você se chateará com o meu pedido para republicar essas crônicas, porque assim os outros da turma também poderão lê-las?Se puder me atender, fico grato. Se não puder, coloque as mesmas em seu blog e nós o acessaremos”(...).
É uma alegria atendê-lo, Bruno. Eis a primeira crônica da trilogia, diga-se, bem atual, sem nenhum vestígio de senilidade ou caduquice.
Já houve quem preferisse votar no poste. Pois é, o poste, sempre ereto, altivo e observador, embora silencioso e impassível. Uma preferência defendida sob consistente argumentação, levadas em conta a postura, tradição e potencialidade do candidato, cuja rigidez é algo concreto e notório. Tido como de utilidade pública, o poste é um trabalhador de luz cheia, solidário e solitário, cordato e servil. E, também, adepto da infidelidade posicionária: pouco se lhe dá ser de direita, de centro ou de esquerda e, menos ainda, alvo de fisiologismos ou de atos fisiológicos. Problema mesmo só com o álcool. Não que ele seja afeiçoado a umas doses, não, não, é o álcool dos motoristas que, não raro, o vitima com sérias contusões. Mas, aí, a lei do retorno se propõe logo a vingá-lo. E depois, como na política, fica sempre o dito pelo não dito...
Apesar de hipoteticamente habilitado a disputar uma vaga, tanto no executivo como no legislativo, ao que parece, ele, o poste, não colocou ainda seu nome à disposição de nenhum partido. Caso o faça, penso, será pelo PSOL – questão de analogia, ora! Luz é luz! –, e o sol não nasceu para todos?!
As possibilidades de candidaturas são fartas. Alguém, outro dia, pensou em lançar a árvore, pelo PV, claro!, o que, a boca larga, causou zunzunzuns e blablablás. Talvez, por causa da tal sombra e água fresca tão pretendidas por muitos... De minha parte, reputo-a, boa candidata. Essa coisa de casca grossa é relativa: todos temos as nossas. É, a árvore tem lá seu potencial e, além do mais, já detém imunidade ecológica e decoro ambiental. Hum... espere aí, decoro...?! Pensando melhor, nem toda árvore... Segundo informações bíblicas, por exemplo, a Macieira não goza de antecedentes recomendáveis. Não foi ela uma das envolvidas naquele escândalo sobre o pecado original, ao fornecer a propina com que a Serpente aliciou Eva para corromper Adão? Que quarteto, hem?! Um escândalo sem precedentes. Um detalhe importante: os culpados foram punidos com expulsão imediata e sumária, do Paraíso. Decisão do Todo-Poderoso, que não admite impunidade. E mais: sem as lengalengas ou as embromações das CPIs.
Ah! se a Polícia Federal estivesse por aquelas bandas, à época, os infratores seriam presos e indiciados por formação de quadrilha. E, por lá, seria diferente: a Justiça Divina não os soltaria!
Ih! fui cutucada por uma curiosidade: como se chamaria a inusitada operação? Pensei em Operação paradísica, ou Operação porno-maçã ou, então, Operação desmancha-prazer. Operação, cirurgia, tanto faz. Importante, em qualquer tempo ou circunstância, é enxotar a impunidade, mais robusta a cada dia aqui e acolá.
Que outra árvore se candidate, tudo bem! A Macieira não! Tem fama duvidosa e ficha suja. E não foi a primeira vez que a matusalênica senhora usou uma de suas filhas para fins suspeitos. Quem não se lembra daquela Bruxa trambiqueira que ofereceu maçã à inocente Branca de Neve? Baita tentativa de homicídio!
Depois dessas lembranças, acho mais prudente um outro possível candidato. E por que não o Muro? Por enquanto, só uma ideia...
QUE O CANDIDATO É DE BARRO
Lêda Selma
Um leitor brasileiro, de ascendência italiana, Bruno Andreatta Baldacci, residente em Turin, Itália, enviou-me este e-mail: “Cara escritora Lêda Selma, sei que aí no Brasil é tempo de eleição e de enganação. Será que a “dama de ferro” será mesmo presidenta? Cara escritora, há muito tempo, ainda aí em Goiânia, li umas crônicas de sua lavra sobre uns candidatos esdrúxulos como árvore, praça e morri de dar risada. Temos um grupo divertido aqui em Turin e todo sábado acessamos o Diário da Manhã para ler seus artigos que quase sempre são muito hilários. Você se chateará com o meu pedido para republicar essas crônicas, porque assim os outros da turma também poderão lê-las?Se puder me atender, fico grato. Se não puder, coloque as mesmas em seu blog e nós o acessaremos”(...).
É uma alegria atendê-lo, Bruno. Eis a primeira crônica da trilogia, diga-se, bem atual, sem nenhum vestígio de senilidade ou caduquice.
Já houve quem preferisse votar no poste. Pois é, o poste, sempre ereto, altivo e observador, embora silencioso e impassível. Uma preferência defendida sob consistente argumentação, levadas em conta a postura, tradição e potencialidade do candidato, cuja rigidez é algo concreto e notório. Tido como de utilidade pública, o poste é um trabalhador de luz cheia, solidário e solitário, cordato e servil. E, também, adepto da infidelidade posicionária: pouco se lhe dá ser de direita, de centro ou de esquerda e, menos ainda, alvo de fisiologismos ou de atos fisiológicos. Problema mesmo só com o álcool. Não que ele seja afeiçoado a umas doses, não, não, é o álcool dos motoristas que, não raro, o vitima com sérias contusões. Mas, aí, a lei do retorno se propõe logo a vingá-lo. E depois, como na política, fica sempre o dito pelo não dito...
Apesar de hipoteticamente habilitado a disputar uma vaga, tanto no executivo como no legislativo, ao que parece, ele, o poste, não colocou ainda seu nome à disposição de nenhum partido. Caso o faça, penso, será pelo PSOL – questão de analogia, ora! Luz é luz! –, e o sol não nasceu para todos?!
As possibilidades de candidaturas são fartas. Alguém, outro dia, pensou em lançar a árvore, pelo PV, claro!, o que, a boca larga, causou zunzunzuns e blablablás. Talvez, por causa da tal sombra e água fresca tão pretendidas por muitos... De minha parte, reputo-a, boa candidata. Essa coisa de casca grossa é relativa: todos temos as nossas. É, a árvore tem lá seu potencial e, além do mais, já detém imunidade ecológica e decoro ambiental. Hum... espere aí, decoro...?! Pensando melhor, nem toda árvore... Segundo informações bíblicas, por exemplo, a Macieira não goza de antecedentes recomendáveis. Não foi ela uma das envolvidas naquele escândalo sobre o pecado original, ao fornecer a propina com que a Serpente aliciou Eva para corromper Adão? Que quarteto, hem?! Um escândalo sem precedentes. Um detalhe importante: os culpados foram punidos com expulsão imediata e sumária, do Paraíso. Decisão do Todo-Poderoso, que não admite impunidade. E mais: sem as lengalengas ou as embromações das CPIs.
Ah! se a Polícia Federal estivesse por aquelas bandas, à época, os infratores seriam presos e indiciados por formação de quadrilha. E, por lá, seria diferente: a Justiça Divina não os soltaria!
Ih! fui cutucada por uma curiosidade: como se chamaria a inusitada operação? Pensei em Operação paradísica, ou Operação porno-maçã ou, então, Operação desmancha-prazer. Operação, cirurgia, tanto faz. Importante, em qualquer tempo ou circunstância, é enxotar a impunidade, mais robusta a cada dia aqui e acolá.
Que outra árvore se candidate, tudo bem! A Macieira não! Tem fama duvidosa e ficha suja. E não foi a primeira vez que a matusalênica senhora usou uma de suas filhas para fins suspeitos. Quem não se lembra daquela Bruxa trambiqueira que ofereceu maçã à inocente Branca de Neve? Baita tentativa de homicídio!
Depois dessas lembranças, acho mais prudente um outro possível candidato. E por que não o Muro? Por enquanto, só uma ideia...
terça-feira, 7 de setembro de 2010
POEMAS AVULSOS
O PÃO NOSSO...
Lêda Selma
A boca silencia a fome
que também foge dos olhos
e pousa nas mãos vazias.
No milagre do grão, o trigo;
no vigor da espiga, o milho;
no calor da fornalha, o pão.
O pão que engole a fome,
o pão que sossega a dor,
o pão que acolhe o sonho,
o pão que renasce a vida.
PRECE DO DESALENTO
Lêda Selma
– Óia, Deus, encarecido,
Te suplico, neste instante,
um bocadinho que seja
de Tua imensa bondade
pra desiludir a miséria,
esperançar a labuta,
arrefecer a descrença
e botar a vida nos prumos.
– Nesta prece encardida
de precisões sem tamanho,
Te peço, Sinhô, meu Deus
– se por graça merecer
de Tua bondade tanta –,
um pedacinho de terra
(coisa pouca, meia manta)
pra extrair dela o grão
que vai encorpar o pão,
acalentar minha mesa
e sujigar a boca da fome.
– Mas se não der, óia, Pai,
nem zangado vou ficar,
apenas dessossegado;
afinal, fiquei sem rumo,
pois a finada esperança
de mim, agora apartada,
me levou as miudezas
que guardei com muito agrado
em meu embornal de sonhos.
– Óia, Pai, tenta entender
o que pretendo explicar,
pois não quero desinteirar
Tua santa paciência:
só incomodei o Sinhô,
por falta de outra via,
pois os homens do poder
não se deixam molestar.
Todos sofrem de surdez,
só os desmandos têm vez,
o pobre...? Vá se danar!
– E embora meio sem jeito,
o jeito é mesmo implorar
por Tua intercessão.
Estou cansado, meu Pai,
de tanto sacolejar
esta agonia medonha
que não me deixa viver.
Minha fé já arriou,
perdi tudo o que eu tinha:
saúde, sonho, família...
e com a alma vazia,
me restou esmorecer.
Assim, melhor descansar!
– Óia, Deus, sei que o Sinhô
é por demais ocupado:
tanta guerra, tanta fome,
e quantos desempregados
(e pra dar conta dos políticos,
é preciso tempo dobrado!)!
Mas me permita, meu Pai,
por força do desespero
(pois careço tanto, tanto
de um caminho, um trieiro)
Te sugerir, respeitoso,
uma nova empreitada:
se por castigo me deste,
ou quem sabe por esmola,
esta vida malfadada,
já é hora, meu Sinhô,
de me dar, por misericórdia,
a morte como escora.
Eu já fiz por merecer...!
CAMINHO ESTÉRIL
Lêda Selma
Caminho um chão de carne estriada,
um chão sem chão, com fendas e vazios,
um não sei quê de agonia fastiosa,
preguiça de sonho, miúdos de coisa morta.
Plano na força que gravita à toa,
e sinto o bafio dos dias esquecidos.
Chantada na aridez do caminho infértil,
me farto de sol e de mim, mas prossigo.
E, assim, mais e mais machuco o chão
e me firo com as feridas em que piso.
Lêda Selma
A boca silencia a fome
que também foge dos olhos
e pousa nas mãos vazias.
No milagre do grão, o trigo;
no vigor da espiga, o milho;
no calor da fornalha, o pão.
O pão que engole a fome,
o pão que sossega a dor,
o pão que acolhe o sonho,
o pão que renasce a vida.
PRECE DO DESALENTO
Lêda Selma
– Óia, Deus, encarecido,
Te suplico, neste instante,
um bocadinho que seja
de Tua imensa bondade
pra desiludir a miséria,
esperançar a labuta,
arrefecer a descrença
e botar a vida nos prumos.
– Nesta prece encardida
de precisões sem tamanho,
Te peço, Sinhô, meu Deus
– se por graça merecer
de Tua bondade tanta –,
um pedacinho de terra
(coisa pouca, meia manta)
pra extrair dela o grão
que vai encorpar o pão,
acalentar minha mesa
e sujigar a boca da fome.
– Mas se não der, óia, Pai,
nem zangado vou ficar,
apenas dessossegado;
afinal, fiquei sem rumo,
pois a finada esperança
de mim, agora apartada,
me levou as miudezas
que guardei com muito agrado
em meu embornal de sonhos.
– Óia, Pai, tenta entender
o que pretendo explicar,
pois não quero desinteirar
Tua santa paciência:
só incomodei o Sinhô,
por falta de outra via,
pois os homens do poder
não se deixam molestar.
Todos sofrem de surdez,
só os desmandos têm vez,
o pobre...? Vá se danar!
– E embora meio sem jeito,
o jeito é mesmo implorar
por Tua intercessão.
Estou cansado, meu Pai,
de tanto sacolejar
esta agonia medonha
que não me deixa viver.
Minha fé já arriou,
perdi tudo o que eu tinha:
saúde, sonho, família...
e com a alma vazia,
me restou esmorecer.
Assim, melhor descansar!
– Óia, Deus, sei que o Sinhô
é por demais ocupado:
tanta guerra, tanta fome,
e quantos desempregados
(e pra dar conta dos políticos,
é preciso tempo dobrado!)!
Mas me permita, meu Pai,
por força do desespero
(pois careço tanto, tanto
de um caminho, um trieiro)
Te sugerir, respeitoso,
uma nova empreitada:
se por castigo me deste,
ou quem sabe por esmola,
esta vida malfadada,
já é hora, meu Sinhô,
de me dar, por misericórdia,
a morte como escora.
Eu já fiz por merecer...!
CAMINHO ESTÉRIL
Lêda Selma
Caminho um chão de carne estriada,
um chão sem chão, com fendas e vazios,
um não sei quê de agonia fastiosa,
preguiça de sonho, miúdos de coisa morta.
Plano na força que gravita à toa,
e sinto o bafio dos dias esquecidos.
Chantada na aridez do caminho infértil,
me farto de sol e de mim, mas prossigo.
E, assim, mais e mais machuco o chão
e me firo com as feridas em que piso.
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
SONHO E POESIA NÃO COMBINAM COM FUTEBOL BUROCRÁTICO
Lêda Selma
“Para mim, o futebol é arte, é um jeito especial de dançar, de fazer malabarismos, de poetizar com os pés, com a cabeça, com asas invisíveis. Não teria sentido se assim não o fosse. Até porque o mundo não transformaria em deuses simples apaixonados pelo ofício de conquistar a bola, enfeitiçados por ela, nem, tampouco, cultuaria um esporte que se limitasse a um amontoado de perseguidores disputando, sôfrega e aleatoriamente, um pedaço redondo de couro. A reverência é, sim, a um esporte capaz de entrelaçar raças, credos, culturas, posições sociais, um esporte quase oracular, misto de mítico e de místico, sem trocadilhos.
Sempre vi o futebol como espetáculo de vibrações e de cores, de emoção, de corações desafinados, movidos pela paixão, amotinados e prontos para saltar no gramado, quer para reger a chuteira, quer para hastear a camisa, quer para empurrar o time. São noventa e alguns minutos (incluídos os acréscimos e não, os “descontos” como apregoam alguns narradores) de devoção à bola, de confronto entre defesa e ataque, de aflição, de transe para a torcida. Ah! e de desalento para o goleiro! Afinal, que solitária dor, a sua, quando a bola, toda sem-cerimônia, ultrapassa seus domínios. Cabisbaixo, sofre, como se traído, e, em rito quase fúnebre, retira, desconsolado, a leviana da rede.
Futebol é urdidura de momentos intermináveis, permeados de alegria e de tristeza, de assombro e de deleite, de decepção e de glória. É uma confraria de sentimentos contraditórios e indomáveis, conjunção de dor e prazer, ritual em que o mago e a bruxa se defrontam e se desafiam. Nele, refugiam-se ansiedades e expectativas, agonia e redenção, sonhos, quedas, voos”.
Este texto é parte da crônica “O bom filho a casa torna”, publicada em 6 de fevereiro de 2009, quando, a convite do recém-eleito presidente, Dr. Syd de Oliveira Reis, a quem apoiei, independente das composições feitas para elegê-lo, retornei ao Goiás, após seis anos de ausência, apenas física, diga-se, pois meu coração continuou presente, sofrendo, alegrando-se, conchavando-se com os santos e orixás, torcendo pelo Verdão, o maior bem da família esmeraldina, motivo por que sempre o coloquei acima das discórdias.
Retornei, com muita alegria, ao nicho esmeraldino, como Coordenadora Cultural do Clube, criação inovadora do presidente. E assumi o cargo com muito entusiasmo, permeado de sonhos e planos, sempre motivada pelos sonhos e projetos de Syd de Oliveira Reis, um presidente sonhador, um presidente amante da poesia, da poesia que também joga futebol, do futebol que também compõe poesia. Um presidente que liberava seus sonhos mesmo sentado na cadeira de presidente da maior representação futebolística do Centro-oeste, o Goiás Esporte Clube. Todavia, sonhar, poetizar, voar, a bordo de um mundo tão materialista, como o futebol, cuja objetividade chega a ser cruel, é leda fantasia, é loucura de poeta, uma loucura, quem sabe, até por excesso de lucidez...
Despedi-me do Departamento Cultural do Goiás. Retirei de minhas gavetas os sonhos que lá se hospedaram. Dr. Syd, sem dúvida, também recolheu os seus.
Se poesia não sobrevive à frieza do gabinete – tão desprovido de emoção! –, se não é o idioma do futebol burocrático que, além das quatro linhas, é pedra bruta, não tem versos, é feito de malícia, de reversos, de artimanhas, de pecados capitais, realmente, não há lugar para o sonho, para a ingenuidade, para a pureza de espírito e, tampouco, para um presidente sonhador e amante da poesia. Então, que sobreviva a arte no talento dos jogadores, na magia das jogadas, no pulsar do distintivo sobre o peito. Que pés e cabeças poetas retornem ao seu ofício, e teçam gols e vitórias para alegria e orgulho da comunidade esmeraldina.
Syd de Oliveira Reis teve como algoz seu sonho. E bebeu o veneno que pensava ser poesia.
“Eu sou Goiás Esporte Clube, eu sou Goiás”...
Lêda Selma
“Para mim, o futebol é arte, é um jeito especial de dançar, de fazer malabarismos, de poetizar com os pés, com a cabeça, com asas invisíveis. Não teria sentido se assim não o fosse. Até porque o mundo não transformaria em deuses simples apaixonados pelo ofício de conquistar a bola, enfeitiçados por ela, nem, tampouco, cultuaria um esporte que se limitasse a um amontoado de perseguidores disputando, sôfrega e aleatoriamente, um pedaço redondo de couro. A reverência é, sim, a um esporte capaz de entrelaçar raças, credos, culturas, posições sociais, um esporte quase oracular, misto de mítico e de místico, sem trocadilhos.
Sempre vi o futebol como espetáculo de vibrações e de cores, de emoção, de corações desafinados, movidos pela paixão, amotinados e prontos para saltar no gramado, quer para reger a chuteira, quer para hastear a camisa, quer para empurrar o time. São noventa e alguns minutos (incluídos os acréscimos e não, os “descontos” como apregoam alguns narradores) de devoção à bola, de confronto entre defesa e ataque, de aflição, de transe para a torcida. Ah! e de desalento para o goleiro! Afinal, que solitária dor, a sua, quando a bola, toda sem-cerimônia, ultrapassa seus domínios. Cabisbaixo, sofre, como se traído, e, em rito quase fúnebre, retira, desconsolado, a leviana da rede.
Futebol é urdidura de momentos intermináveis, permeados de alegria e de tristeza, de assombro e de deleite, de decepção e de glória. É uma confraria de sentimentos contraditórios e indomáveis, conjunção de dor e prazer, ritual em que o mago e a bruxa se defrontam e se desafiam. Nele, refugiam-se ansiedades e expectativas, agonia e redenção, sonhos, quedas, voos”.
Este texto é parte da crônica “O bom filho a casa torna”, publicada em 6 de fevereiro de 2009, quando, a convite do recém-eleito presidente, Dr. Syd de Oliveira Reis, a quem apoiei, independente das composições feitas para elegê-lo, retornei ao Goiás, após seis anos de ausência, apenas física, diga-se, pois meu coração continuou presente, sofrendo, alegrando-se, conchavando-se com os santos e orixás, torcendo pelo Verdão, o maior bem da família esmeraldina, motivo por que sempre o coloquei acima das discórdias.
Retornei, com muita alegria, ao nicho esmeraldino, como Coordenadora Cultural do Clube, criação inovadora do presidente. E assumi o cargo com muito entusiasmo, permeado de sonhos e planos, sempre motivada pelos sonhos e projetos de Syd de Oliveira Reis, um presidente sonhador, um presidente amante da poesia, da poesia que também joga futebol, do futebol que também compõe poesia. Um presidente que liberava seus sonhos mesmo sentado na cadeira de presidente da maior representação futebolística do Centro-oeste, o Goiás Esporte Clube. Todavia, sonhar, poetizar, voar, a bordo de um mundo tão materialista, como o futebol, cuja objetividade chega a ser cruel, é leda fantasia, é loucura de poeta, uma loucura, quem sabe, até por excesso de lucidez...
Despedi-me do Departamento Cultural do Goiás. Retirei de minhas gavetas os sonhos que lá se hospedaram. Dr. Syd, sem dúvida, também recolheu os seus.
Se poesia não sobrevive à frieza do gabinete – tão desprovido de emoção! –, se não é o idioma do futebol burocrático que, além das quatro linhas, é pedra bruta, não tem versos, é feito de malícia, de reversos, de artimanhas, de pecados capitais, realmente, não há lugar para o sonho, para a ingenuidade, para a pureza de espírito e, tampouco, para um presidente sonhador e amante da poesia. Então, que sobreviva a arte no talento dos jogadores, na magia das jogadas, no pulsar do distintivo sobre o peito. Que pés e cabeças poetas retornem ao seu ofício, e teçam gols e vitórias para alegria e orgulho da comunidade esmeraldina.
Syd de Oliveira Reis teve como algoz seu sonho. E bebeu o veneno que pensava ser poesia.
“Eu sou Goiás Esporte Clube, eu sou Goiás”...
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
POEMAS DE LÊDA SELMA
Um silêncio de madressilva
pelos cantos, silva, silva,
e pousa sobre a esfinge
que tenho dentro dos olhos.
...................................................
Silêncio é vastidão do nada
e poesia, um colibri verdourado,
com hálito de primavera,
a polinizar desertos e escuridões.
...................................................
O amor que irrompe da estiagem
é abrupto como um insulto:
acende lareira na alma
e carboniza o coração.
pelos cantos, silva, silva,
e pousa sobre a esfinge
que tenho dentro dos olhos.
...................................................
Silêncio é vastidão do nada
e poesia, um colibri verdourado,
com hálito de primavera,
a polinizar desertos e escuridões.
...................................................
O amor que irrompe da estiagem
é abrupto como um insulto:
acende lareira na alma
e carboniza o coração.
MALFADADA INUTILIDADE
Lêda Selma
Tarde transpirando respingos de tempo abafado, muitas nuvens migrantes e restos de sol derretido escorrendo pela cratera fumegante do céu, de onde brota a singela Aldeia das Querências, cidadezinha simplória, verdadeira pousada de tardes gorduchas de alegria.
No fórum, salas e corredores cobertos por silêncios enormes e sozinhos, mesas já peladas e tão impessoais e um juiz, ex-oficial do exército, homem de hábitos severos e paciência miudinha, preparando-se metodicamente para o fim de mais um acanhado expediente, à espera apenas de que o velho e pontual relógio marche rápido e anuncie logo o toque de recolher.
Vestida com disfarçada sobriedade, muita certeza nos passos e desconcertante segurança na voz, uma mulher de rosto risonho, aparentando uns dois pares e meio de décadas bem distribuídos num físico pequeno e falsamente magro, entra no gabinete do juiz, acena um cumprimento polido, ignora o relógio com suas largas passadas e, ante a não iminência do convite, pede licença para sentar-se, como a buscar garantia para a pretendida audiência. E, para surpresa e estupefação do magistrado, açucara a voz, simula um sorriso cordial e, alteando o olhar, sem a menor timidez, justifica sua presença:
– Flor de Lis (Flor, para os mais íntimos) é meu nome e também é meu o prazer de conhecer de pertinho o senhor. Pois é, meritíssimo, guardei – ah! e como! – esta vontade que tanto me incomodou durante anos até demais, prendendo a irrequieta como se fosse uma meliante. Até que num dia de sol encapetado, vi se alegrar a queixosa, quer dizer, a vontade... Por obra e intercessão de uma simpatia bem feita, em nome de um santo entendedor do assunto...
– E que esse santo faça o que a senhora, até o momento, não me permitiu: entender o assunto que a trouxe, a estas horas, aqui.
– Eu explico. Hã... melhor pensando, explicação miúda, esmiuçada, não convém. Basta o resultado: um homem com cara de quero-mais, de mãos sapecas e, às vezes, sorrateiras, bateu, entrou e, sem qualquer formalidade, engordou os olhos e, de um bote só, abocanhou meu coração.
– Vamos ao fato em si, de forma mais direta, dona Flor de Lis.
– Continuo: rendida espontaneamente, a bem da verdade, tratei logo de trancar a hospedaria e oferecer boas-vindas ao hospedante, que não economizou satisfação nem agradecimentos. E eu, de soslaio, doutor, falei cá com a minha vontade: aguente só mais um pouco que o tempo de fartura chegou e, loguinho, lhe solto as rédeas... Duas semanas depois, eu e o deflorador de coração pusemos os documentos em correria e, quase num trote, fomos atrás do tempo...
– Por favor, seja mais objetiva, senhora, o tempo urge e eu ...
– Pois então, o casamento foi rápido e bonito. Digo, casamento, casamento, só mesmo o da assinatura com o papel, porque o do corpo, aquele de agradar as exigências da vontade... ah! esse ainda está semi-donzelo e ela, a coitada, sim, a vontade, desembestada ao deus-dará, feito uma proscrita. Dá até pena seus queixumes...!
– Afinal, pode ser mais clara e menos prolixa? Tenha paciência: dispense os pormenores...
– Os pormenores, meritíssimo, posso dispensar. Fico só com os pormaiores pra facilitar a compreensão. Pois é, o danado, ele, o quase marido (porque, marido, marido, ele não é) me enganou. Prometeu com os olhos, confirmou com as mãos e, com palavras cheirosas, me garantiu mil travessuras noturnas (e, de bônus, algumas diurnas). E não é que o negaceante descumpriu o prometido?
– Já lhe pedi, senhora, seja menos detalhista. Descumpriu o prometido, pois bem, prossiga.
– Descumpriu. Daquele modelo, doutor: prometeu largo e deu estreito. E já virou repetição: assistência requerida, indeferimento no ato (acho que é a tal lei do menor esforço amasiada com aquela outra, a lei seca). O certo (que tá mais é pra errado) é que, de desserviço em desserviço, toda noite, o arremedo de marido nega serventia.
– E a senhora quer tomar providências...
– É, não dá mais, doutor, pra de novo encarcerar tanta vontade amotinada. E o risco de uma rebelião dos sentidos? Afinal, até hoje, o falso marido só fez, no duro, no duro, aquecimento. E como o homem é sovina! Uma coisiquinha ali, outra quase nunca acolá, uma carícia pequena (e eu sou lá mulher de gostar só de miudezas, doutor?). E por causa dessa ridiqueza – corpo mole, só pode ser – a lesada, digo, a vontade, confiscou minha paciência e ...
– Bom, vamos esclarecer os fatos: a senhora quer se separar do marido por falta de...
– O que é isso, meu Santo Antônio, o meritíssimo malucou? Separação? De jeito e modo. Nem pensar. E juramento meu, doutor, é o quê? Além do mais, do vigário, escutei bem: “até que a morte” e, não, até que a desserventia “os separe” (e quero lá ser mulher disponível e mal- falada?). E marido tem outras utilidades... E não tem?! Então. O que quero mesmo, doutor, é terceirizar os serviços do inativo, e abrir uma franquia, o senhor entende, não entende? Assim, dou ao inoperante outras funções e ao futuro atuante, a tal serventia. Desse modo, nem o folgado se encosta na moleza nem eu, na consumição.
– Será que entendi sua pretensão ou será que meus ouvidos resolveram brincar comigo? Sim, porque, se ouvi mesmo o que ouvi, a senhora está querendo...
– Sua autorização, meritíssimo. Dentro das regras e rigidez da moral. Porque, o que não quero, de jeito algum, é estropiar a lei. Ah! isso não (Santo Antônio me guarde de tamanho desatino. Amém!). Afinal, sou mulher séria e sem a menor mancha no currículo de minha honra. Por isso mesmo, quero tudo oficial, legalizado, no papel com timbre da justiça, carimbo e assinatura de juiz. Concubinada com a lei, doutor, aí sim, aquieto a desassossegada, o senhor entende, a vontade, e deixo o enfastiado, quer dizer, o quase marido, desfrutar de sua malfadada inutilidade...
Lêda Selma
Tarde transpirando respingos de tempo abafado, muitas nuvens migrantes e restos de sol derretido escorrendo pela cratera fumegante do céu, de onde brota a singela Aldeia das Querências, cidadezinha simplória, verdadeira pousada de tardes gorduchas de alegria.
No fórum, salas e corredores cobertos por silêncios enormes e sozinhos, mesas já peladas e tão impessoais e um juiz, ex-oficial do exército, homem de hábitos severos e paciência miudinha, preparando-se metodicamente para o fim de mais um acanhado expediente, à espera apenas de que o velho e pontual relógio marche rápido e anuncie logo o toque de recolher.
Vestida com disfarçada sobriedade, muita certeza nos passos e desconcertante segurança na voz, uma mulher de rosto risonho, aparentando uns dois pares e meio de décadas bem distribuídos num físico pequeno e falsamente magro, entra no gabinete do juiz, acena um cumprimento polido, ignora o relógio com suas largas passadas e, ante a não iminência do convite, pede licença para sentar-se, como a buscar garantia para a pretendida audiência. E, para surpresa e estupefação do magistrado, açucara a voz, simula um sorriso cordial e, alteando o olhar, sem a menor timidez, justifica sua presença:
– Flor de Lis (Flor, para os mais íntimos) é meu nome e também é meu o prazer de conhecer de pertinho o senhor. Pois é, meritíssimo, guardei – ah! e como! – esta vontade que tanto me incomodou durante anos até demais, prendendo a irrequieta como se fosse uma meliante. Até que num dia de sol encapetado, vi se alegrar a queixosa, quer dizer, a vontade... Por obra e intercessão de uma simpatia bem feita, em nome de um santo entendedor do assunto...
– E que esse santo faça o que a senhora, até o momento, não me permitiu: entender o assunto que a trouxe, a estas horas, aqui.
– Eu explico. Hã... melhor pensando, explicação miúda, esmiuçada, não convém. Basta o resultado: um homem com cara de quero-mais, de mãos sapecas e, às vezes, sorrateiras, bateu, entrou e, sem qualquer formalidade, engordou os olhos e, de um bote só, abocanhou meu coração.
– Vamos ao fato em si, de forma mais direta, dona Flor de Lis.
– Continuo: rendida espontaneamente, a bem da verdade, tratei logo de trancar a hospedaria e oferecer boas-vindas ao hospedante, que não economizou satisfação nem agradecimentos. E eu, de soslaio, doutor, falei cá com a minha vontade: aguente só mais um pouco que o tempo de fartura chegou e, loguinho, lhe solto as rédeas... Duas semanas depois, eu e o deflorador de coração pusemos os documentos em correria e, quase num trote, fomos atrás do tempo...
– Por favor, seja mais objetiva, senhora, o tempo urge e eu ...
– Pois então, o casamento foi rápido e bonito. Digo, casamento, casamento, só mesmo o da assinatura com o papel, porque o do corpo, aquele de agradar as exigências da vontade... ah! esse ainda está semi-donzelo e ela, a coitada, sim, a vontade, desembestada ao deus-dará, feito uma proscrita. Dá até pena seus queixumes...!
– Afinal, pode ser mais clara e menos prolixa? Tenha paciência: dispense os pormenores...
– Os pormenores, meritíssimo, posso dispensar. Fico só com os pormaiores pra facilitar a compreensão. Pois é, o danado, ele, o quase marido (porque, marido, marido, ele não é) me enganou. Prometeu com os olhos, confirmou com as mãos e, com palavras cheirosas, me garantiu mil travessuras noturnas (e, de bônus, algumas diurnas). E não é que o negaceante descumpriu o prometido?
– Já lhe pedi, senhora, seja menos detalhista. Descumpriu o prometido, pois bem, prossiga.
– Descumpriu. Daquele modelo, doutor: prometeu largo e deu estreito. E já virou repetição: assistência requerida, indeferimento no ato (acho que é a tal lei do menor esforço amasiada com aquela outra, a lei seca). O certo (que tá mais é pra errado) é que, de desserviço em desserviço, toda noite, o arremedo de marido nega serventia.
– E a senhora quer tomar providências...
– É, não dá mais, doutor, pra de novo encarcerar tanta vontade amotinada. E o risco de uma rebelião dos sentidos? Afinal, até hoje, o falso marido só fez, no duro, no duro, aquecimento. E como o homem é sovina! Uma coisiquinha ali, outra quase nunca acolá, uma carícia pequena (e eu sou lá mulher de gostar só de miudezas, doutor?). E por causa dessa ridiqueza – corpo mole, só pode ser – a lesada, digo, a vontade, confiscou minha paciência e ...
– Bom, vamos esclarecer os fatos: a senhora quer se separar do marido por falta de...
– O que é isso, meu Santo Antônio, o meritíssimo malucou? Separação? De jeito e modo. Nem pensar. E juramento meu, doutor, é o quê? Além do mais, do vigário, escutei bem: “até que a morte” e, não, até que a desserventia “os separe” (e quero lá ser mulher disponível e mal- falada?). E marido tem outras utilidades... E não tem?! Então. O que quero mesmo, doutor, é terceirizar os serviços do inativo, e abrir uma franquia, o senhor entende, não entende? Assim, dou ao inoperante outras funções e ao futuro atuante, a tal serventia. Desse modo, nem o folgado se encosta na moleza nem eu, na consumição.
– Será que entendi sua pretensão ou será que meus ouvidos resolveram brincar comigo? Sim, porque, se ouvi mesmo o que ouvi, a senhora está querendo...
– Sua autorização, meritíssimo. Dentro das regras e rigidez da moral. Porque, o que não quero, de jeito algum, é estropiar a lei. Ah! isso não (Santo Antônio me guarde de tamanho desatino. Amém!). Afinal, sou mulher séria e sem a menor mancha no currículo de minha honra. Por isso mesmo, quero tudo oficial, legalizado, no papel com timbre da justiça, carimbo e assinatura de juiz. Concubinada com a lei, doutor, aí sim, aquieto a desassossegada, o senhor entende, a vontade, e deixo o enfastiado, quer dizer, o quase marido, desfrutar de sua malfadada inutilidade...
UM CHECAPE
Lêda Selma
Sala de espera lotada, calor misturando suores e impaciências, tarde ameaçando se recolher mais cedo e o consultório do doutor Zé repleto de consulentes.
– Vim mesmo só pra fazer um checape, doutor. Não que eu esteja sentindo alguma coisa, não, não. Estou bem; mas, depois dos enta (a primeira parte da palavra não vem ao caso, claro!), é sempre bom ter cuidado, não é? Atualmente, não tenho sentido quase nada, a não ser umas dorzinhas de cabeça que costumo atribuir à má digestão: este meu estômago é fogo! Pode ser também enxaqueca ou mal funcionamento da vesícula, do fígado ou do intestino...
– Bem, vamos aferir sua pressão...
– Ah! minha pressão é meio desregulada, mais pra alta; acho que é culpa da taquicardia que me ataca vez sim, vez não; ou quem sabe, devido à falta de ar que sinto quando me ataca a bronquite asmática...
– Certo, vamos aferir a...
– Não é tanto assim, doutor, mas tenho sentido umas agulhadas no pé da barriga, as pernas doloridas e inchadas... problema de ovário ou de rins, naturalmente, porque de circulação não é, embora a minha não seja lá das melhores, já que, não raro, sinto um formigamento incrível nos pés e nas mãos...
– Sei, sei, vamos aferir...
– Umas tonturinhas, doutor, me incomodam de quando em vez; é taxa de glicose um pouco elevada, creio. Calafrios e sudorese, sei, são sintomas de menopausa; chateiam, mas nada preocupante. Ah! sim, as dores nas costas! Certamente, por causa da coluna ou até da osteoporose...
– Pois é, vamos...
¬– Não é dos melhores, o meu apetite e, às vezes, sinto certa fadiga, palpitação, mal-estar generalizado, coisas do estresse ou, talvez, do ciclo menstrual desregrado, já que o maldito está a caminho da aposentadoria compulsória, acredito...
– Então...
– Me peça uns exames só pra controle, afinal, a gente nunca sabe... No entanto, só vim mesmo aqui, doutor, prum checape, questão de rotina, pois estou bem, sem novidades, a não ser o cansaço da vista e uma fisgadinha no ouvido, uma vez ou outra. No mais, tudo sobre controle, quer dizer, quase tudo: minha língua tá cheia de aftas, doutor, e quase não consigo falar...
Lêda Selma
Sala de espera lotada, calor misturando suores e impaciências, tarde ameaçando se recolher mais cedo e o consultório do doutor Zé repleto de consulentes.
– Vim mesmo só pra fazer um checape, doutor. Não que eu esteja sentindo alguma coisa, não, não. Estou bem; mas, depois dos enta (a primeira parte da palavra não vem ao caso, claro!), é sempre bom ter cuidado, não é? Atualmente, não tenho sentido quase nada, a não ser umas dorzinhas de cabeça que costumo atribuir à má digestão: este meu estômago é fogo! Pode ser também enxaqueca ou mal funcionamento da vesícula, do fígado ou do intestino...
– Bem, vamos aferir sua pressão...
– Ah! minha pressão é meio desregulada, mais pra alta; acho que é culpa da taquicardia que me ataca vez sim, vez não; ou quem sabe, devido à falta de ar que sinto quando me ataca a bronquite asmática...
– Certo, vamos aferir a...
– Não é tanto assim, doutor, mas tenho sentido umas agulhadas no pé da barriga, as pernas doloridas e inchadas... problema de ovário ou de rins, naturalmente, porque de circulação não é, embora a minha não seja lá das melhores, já que, não raro, sinto um formigamento incrível nos pés e nas mãos...
– Sei, sei, vamos aferir...
– Umas tonturinhas, doutor, me incomodam de quando em vez; é taxa de glicose um pouco elevada, creio. Calafrios e sudorese, sei, são sintomas de menopausa; chateiam, mas nada preocupante. Ah! sim, as dores nas costas! Certamente, por causa da coluna ou até da osteoporose...
– Pois é, vamos...
¬– Não é dos melhores, o meu apetite e, às vezes, sinto certa fadiga, palpitação, mal-estar generalizado, coisas do estresse ou, talvez, do ciclo menstrual desregrado, já que o maldito está a caminho da aposentadoria compulsória, acredito...
– Então...
– Me peça uns exames só pra controle, afinal, a gente nunca sabe... No entanto, só vim mesmo aqui, doutor, prum checape, questão de rotina, pois estou bem, sem novidades, a não ser o cansaço da vista e uma fisgadinha no ouvido, uma vez ou outra. No mais, tudo sobre controle, quer dizer, quase tudo: minha língua tá cheia de aftas, doutor, e quase não consigo falar...
DOSE DUPLA?!
LÊDA SELMA
Um senhor de idade entrou aflito no Pronto Socorro, com uma moça de uns trinta e cinco anos a tiracolo.
– O problema, doutor, é sério. Dá pena ver essa bichinha sofrer tanto! Uma dor sem misericórdia. Ela tá num padecimento que só.
O médico quis saber da moça que problema tanto a afligia. Mas ela, encolhida nas próprias certezas, olhos assustados e mãos transpirando medo, parecia nada ouvir. Então, o pai, com ares de porta-voz:
– Pedra no rim, doutor, eu acho. Daquelas malvadas; uma bichona das maiores. Veja que judiação: minha filha toda inchada e sem dormir o sono dos anjos, desde ontem. Espie os olhinhos dela, murchinhos. E o descoramento? Parece até que o sangue esbranquiçou e sumiu. Ela desmerece essa consumição. É boa demais a bichinha. Moça recatada, trabalhadeira. Não tem tempo pra si, não tem vaidade nem quentura de moça passada.
– Descaramento, digo, descoramento... Está bem, vamos dar uma examinada nesses rins.
Já vaticinando o diagnóstico, o médico encaminhou-se com a paciente para uma saleta ao lado do ambulatório. Demora vai, demora vem, terminada a tarefa, e antes mesmo de chegar ao consultório...
– E então, doutor, vai pedir uma chapa ou já vai passar o medicamento pra coitadinha se aliviar? Diga-me, por Deus, que não é nada grave. A pedra saiu?
– Grave...? Não, grávida! Da pedra, não dou notícia. O que saiu foi um cálculo renal macho, de uns três quilos mais ou menos, com pulmões bem ativos e reflexos perfeitos...
– Peraí, doutor. Num tô entendendo essa embromação. Minha menina expulsou ou não a pedra? — interrompeu, abobalhado, o velho.
– Pedra... pedra... não. Digamos que ela expulsou o Pedro, um menino de saco rox... epa, melhor, preto! Essa outra já deu muito o que falar...
Realmente, um alvoroço no Pronto Socorro, naquela noite. Desmaios histéricos, contusões conjugais, coma alcoólico... E, de repente, uma senhora gorda, crente fanática, puxando a filha pelo braço, iniciou a consulta como se fosse a paciente:
– Essa menina, doutor, tá muito doente. Acho que é problema de estômago, por causa da vomitação que não acaba mais e do fastio, sabe?
– “Que brincadeira é essa, Nossa Senhora do bom parto?! De novo, não!” – pensou o médico.
Exame concluído, diagnóstico rejeitado pela mãe:
– O senhor não sabe o que diz, doutor. Essa menina não conhece o bicho-mau. Nem poderia: nunca viu ao vivo nem nas fotos as intimidades de um homem. Nesses trinta anos, não se despurificou; temente a Deus, nunca se acalorou com a fome dos sentidos. Safadeza é coisa de moça mundana, sem crença. E intimidade com as intimidades de homem, só depois do casamento. Gravidez é coisa de mulher bulida, doutor. Só se o Espírito Santo despencou das alturas prum plantãozinho rápido, só se foi.
Conversa vai, conversa vem, um argumento aqui, um contra-argumento ali, uma hipótese alhures e um lance providencial de memória escapa da desbulida balzaca:
– Jesus, socorro! Me lembrei do sucedido! Foi no vaso do banheiro da igreja, mãe. Que fatal azar! Senti necessidade de me desapertar, e necessidade daquela natureza não aceita cabresto. Meu Senhor Jesus, moça virgem não pode mesmo titubear: sentou em vaso suspeito, o malfeito, ó, dá o bote...! Coisa do azucrim...
– Não lhe disse, doutor?! Tá explicado. Foi isso: o vaso, aquele maldito, o culpado! Donzela bobeou, o diabo força passagem. A pobrezinha, pra vencer a precisão de aliviar a bexiga ou um outro vizinho próximo, usou o maldito, o vaso; e lá estava a maldição escapulida de algum amaldiçoado.
Com um ar sério, apesar do tom debochado, o doutor apresenta sua versão:
– Acho que para sossegar outra necessidade, que não aceita rédeas até por força da natureza... essa moça inocente, por descuido, sentou-se justo no maldito (que não era o vaso, claro! – disse de si para si). Só que, no maldito, estava o tal, o amaldiçoado. E foi aí que aconteceu a maldição: a “pobrezinha” conheceu o bicho-mau. E o resultado está aí na cara, isto é, na barriga.
LÊDA SELMA
Um senhor de idade entrou aflito no Pronto Socorro, com uma moça de uns trinta e cinco anos a tiracolo.
– O problema, doutor, é sério. Dá pena ver essa bichinha sofrer tanto! Uma dor sem misericórdia. Ela tá num padecimento que só.
O médico quis saber da moça que problema tanto a afligia. Mas ela, encolhida nas próprias certezas, olhos assustados e mãos transpirando medo, parecia nada ouvir. Então, o pai, com ares de porta-voz:
– Pedra no rim, doutor, eu acho. Daquelas malvadas; uma bichona das maiores. Veja que judiação: minha filha toda inchada e sem dormir o sono dos anjos, desde ontem. Espie os olhinhos dela, murchinhos. E o descoramento? Parece até que o sangue esbranquiçou e sumiu. Ela desmerece essa consumição. É boa demais a bichinha. Moça recatada, trabalhadeira. Não tem tempo pra si, não tem vaidade nem quentura de moça passada.
– Descaramento, digo, descoramento... Está bem, vamos dar uma examinada nesses rins.
Já vaticinando o diagnóstico, o médico encaminhou-se com a paciente para uma saleta ao lado do ambulatório. Demora vai, demora vem, terminada a tarefa, e antes mesmo de chegar ao consultório...
– E então, doutor, vai pedir uma chapa ou já vai passar o medicamento pra coitadinha se aliviar? Diga-me, por Deus, que não é nada grave. A pedra saiu?
– Grave...? Não, grávida! Da pedra, não dou notícia. O que saiu foi um cálculo renal macho, de uns três quilos mais ou menos, com pulmões bem ativos e reflexos perfeitos...
– Peraí, doutor. Num tô entendendo essa embromação. Minha menina expulsou ou não a pedra? — interrompeu, abobalhado, o velho.
– Pedra... pedra... não. Digamos que ela expulsou o Pedro, um menino de saco rox... epa, melhor, preto! Essa outra já deu muito o que falar...
Realmente, um alvoroço no Pronto Socorro, naquela noite. Desmaios histéricos, contusões conjugais, coma alcoólico... E, de repente, uma senhora gorda, crente fanática, puxando a filha pelo braço, iniciou a consulta como se fosse a paciente:
– Essa menina, doutor, tá muito doente. Acho que é problema de estômago, por causa da vomitação que não acaba mais e do fastio, sabe?
– “Que brincadeira é essa, Nossa Senhora do bom parto?! De novo, não!” – pensou o médico.
Exame concluído, diagnóstico rejeitado pela mãe:
– O senhor não sabe o que diz, doutor. Essa menina não conhece o bicho-mau. Nem poderia: nunca viu ao vivo nem nas fotos as intimidades de um homem. Nesses trinta anos, não se despurificou; temente a Deus, nunca se acalorou com a fome dos sentidos. Safadeza é coisa de moça mundana, sem crença. E intimidade com as intimidades de homem, só depois do casamento. Gravidez é coisa de mulher bulida, doutor. Só se o Espírito Santo despencou das alturas prum plantãozinho rápido, só se foi.
Conversa vai, conversa vem, um argumento aqui, um contra-argumento ali, uma hipótese alhures e um lance providencial de memória escapa da desbulida balzaca:
– Jesus, socorro! Me lembrei do sucedido! Foi no vaso do banheiro da igreja, mãe. Que fatal azar! Senti necessidade de me desapertar, e necessidade daquela natureza não aceita cabresto. Meu Senhor Jesus, moça virgem não pode mesmo titubear: sentou em vaso suspeito, o malfeito, ó, dá o bote...! Coisa do azucrim...
– Não lhe disse, doutor?! Tá explicado. Foi isso: o vaso, aquele maldito, o culpado! Donzela bobeou, o diabo força passagem. A pobrezinha, pra vencer a precisão de aliviar a bexiga ou um outro vizinho próximo, usou o maldito, o vaso; e lá estava a maldição escapulida de algum amaldiçoado.
Com um ar sério, apesar do tom debochado, o doutor apresenta sua versão:
– Acho que para sossegar outra necessidade, que não aceita rédeas até por força da natureza... essa moça inocente, por descuido, sentou-se justo no maldito (que não era o vaso, claro! – disse de si para si). Só que, no maldito, estava o tal, o amaldiçoado. E foi aí que aconteceu a maldição: a “pobrezinha” conheceu o bicho-mau. E o resultado está aí na cara, isto é, na barriga.
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