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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO - DIA 18/12 - DIÁRIO DA MANHÃ

À TRIPA FORRA

Lêda Selma

– É mesmo como dizem: até Deus duvida das coisas acontecidas nestas bandas.
– Se duvida... E é cada uma de deixar até Ele de queixo na mão.
– Verdade. Ah! e esses nossos amigos, patusqueiros incorrigíveis!? Criam rebordosas que não deixam saudade.
– E que rebordosas! Aquela, então, da menina Imaculada, pouco depois de tomar estado...
– “Tomar estado”...?! E que esquisitice é essa?! Por acaso, a tal Imaculada sofreu possuição?
– Que possuição que nada! Ela se matrimoniou, ora! Os senhores não se lembram do falatório que zanzou de língua em língua?
– Todos se lembram! Um caso danado de esquisito, aquele, Deus me sombreie a memória e me refresque o espírito!
– E o vexame, então?! Dos piores, convenhamos...
– Também, pudera: um marido como aquele...
– Ih! estou por fora! Sou novo aqui, portanto, desconheço o ocorrido. O ocorrido e esse palavreado. Como imaginar que “tomar estado” é o mesmo que casar?! Bom, minha curiosidade lhe pergunta: e o tal marido?
– Muito bem. Matracaram por aí que, três dias após o casamento da coitada com o Pescanildo, filho mais moço de um fazendeiro de muitas posses, pois bem, em pleno fulgor da lua de mel, ele saiu pra pescar, com uns amigos, por “pura falta do que fazer”, pasme!
– O quê?! “Por pura falta do que fazer, em pleno fulgor da lua de mel”...? Quer dizer que o marido trocou a mulher pelos peixes?!
– Foi o que concluíram, após a história evadir-se da própria boca do recém-casado! Dizem que toda aquela manhã, destinada às estripulias do amor, foi consumida em tentativas impeixíferas, melhor dizendo, inúteis. Os peixes? Que nada! “Carência de isca boa”, resmungava, aos companheiros, o ocioso, isto é, o marido, a bem da realidade, o faltoso conjugal.
– E a mulher... Hum!... suponho, fresquinha, cheirosinha e cheia das vontades, na vã espera pelo inativo... É, no quesito folguedos conjugais, um canastrão, hem?! Mas e daí?
– Daí é que ele tentava, a todo custo, resolver o impeixe, não, não, o impasse, ou seja, a “carência de isca boa”. De repente, uma dica paterna sobrevoou sua mente; decidido, adonou-se da velha espingarda e... cric! Com um tiro, um só, alvejou de morte uma rolinha doméstica – xodó familiar e, em especial, da Imaculada – antiga hóspede da enorme e velha árvore que refrescava o varandão, nos fundos da cozinha. Distraída, a pobre avezinha passeava lépida pelo local, sem desconfiar que fazia seu último voo...
– Bem, e então?
– Sem o mínimo remorso, nem mesmo afetivo ou ecológico, o malvado cortou a cabeça da falecida rolinha.
– Uma rolinha morta e decapitada... Deixa pra lá. Prossiga.
– Afoito, e com a expectativa ainda mais acesa, Pescanildo, após o malfeito, reanimou a tralha e rumou, de volta, para a lagoa.
– E...
– Peixes aos borbotões! Cada peixe! Sem dúvida, pesca farta, mas que quase enfarta a desgostosa esposa, já farta de tanta inadimplência marital.
– Como assim, criatura!?
– Animado com a façanha, que lotou cestos e cestos de peixes, o tresloucado marido entrou em casa atroando: “Mulher! Mulher! É peixe que não acaba mais, aos montões, venha ver, venha! Isca batuta aquela bendita cabeça!”.
– Homem de Deus, posso adivinhar o motivo do quase enfartamento da mulher do tal marido, ou melhor, fiasco de marido! Prossiga.
– Bem, com o semblante meio nublado, Pescanildo baixou a voz, jogou os olhos no chão, e falou para a mulher: “Só há um problema, querida, e sei, vai chatear você. Lamento, mas tive de sacrificar um bem muito precioso: nossa rolinha, mais precisamente, sua pobre cabeça”...
– E ela?!
– Surpreendente, respondeu: “O que não tem jeito, ajeitado está. A rola é morta e não adianta chorar sobre as penas espalhadas, nem sobre nossa lua de mel depenada. Agora, se vira, negligente! Quero curtir à tripa forra o que resta desta tarde. Portanto, levanta, sacode a moleza e dá a volta por cima. De mim, naturalmente. Arre!”.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

UM SONO SOSSEGADO - DM 11/12/10

UM SONO SOSSEGADO


Lêda Selma


– É, doutora-juíza, meu caso é complicado. Sou homem sério, maduro e, na verdade, carecia de uma companheira, moça honesta, voltada para as coisas do lar e com pensamentos de asas curtinhas, bem curtinhas! Se necessário, cortadas bem rente que é pra não deixar a mente sair voando por aí, perdida na vadiagem. Pensamento é um perigo, é atalho pra perdição – falou pausada e arrastadamente um senhor de porte franzino, voz e gestos trêmulos e olhos de um marrom cansado e sonolento.
A juíza, uma cinquentona insossa, de ar austero e nenhuma simpatia, esfregou as mãos como se espantasse a impaciência, mexeu em alguns papéis sobre a mesa, como a demonstrar pressa, e olhou fixamente para o quereloso, exigindo-lhe objetividade:
– Bem, o que posso fazer pelo senhor? Se é que posso...
E ele, meio sem jeito, tentando fugir da impertinência da magistrada, encantoou a timidez, pigarreou duas vezes e, encolhendo-se na cadeira, respirou fundo, desviou o olhar e recomeçou:
– Fiquei viúvo há mais de vinte anos, meritíssima, e, desde então, a tristeza se acomodou em meu peito. Assim como o peso, a idade aumentou, a velhice chegou implacável, na rapidez do tempo (já virei os oitenta e quatro), a solidão, dia a dia, acochou mais e mais, a necessidade de uma companheira para cuidar de mim não parou de esgoelar noite a dentro, dia afora... e, então, resolvi procurar alguém pra sossegar todo o meu desassossego. A senhora sabe, quem procura, quase sempre acha, pois é, achei: uma sessentona simpática, discreta, recatada, evangélica, daquelas com a bíblia sempre nas mãos, olhos fincados no chão, tranquila por demais, quero dizer, durante os dois meses de namoro. Foi só a gente se casar, e ela se endiabrou, doutora, se revelou gananciosa pelas coisas do sexo, uma perdulária sexual compulsiva; olhe, não sei onde a desregrada arranja tanta energia pra gastar, não sei, a senhora entende?
– Não, não entendo; se o senhor puder ser objetivo, quem sabe?!
– Bem, por conta dessa gulodice, a faminta não me dá mais trégua noite alguma, nem nas tardes pares da semana, que, aliás, são mais que as ímpares. Diz, esbravejando, que quer tirar a diferença do tempo perdido no marasmo da virgindade, que exige seus direitos de mulher casada, e que preciso cumprir meus deveres de marido, conforme a senhora falou no dia do casamento, e eu prometi. A bem da verdade, meritíssima, não me lembro disso... Também, surdo dos ouvidos e da memória, como sempre fui em certos momentos...
– Mas, e daí? – retrucou, irritada, a juíza.
– E daí é que a gananciosa solicita meus préstimos carnais com uma pontualidade e sofreguidão constrangedoras, de arrepiar até os cabelos que me faltam. E eu lhe pergunto, doutora-juíza: tenho lá idade para tais extravagâncias, para trabalhos forçados e até horas-extras?! Além do mais, não me casei pra ser consumido e sim, consolado.
– O senhor conclua logo o motivo de sua vinda, pois ainda não entendi o que posso fazer...
– Anular o casamento. A lei tem que ter misericórdia de mim, senão, qualquer noite dessas, durmo aqui e acordo do lado de lá, porque meu coração não tem mais fôlego pra tantas danuras.
– Não é assim, meu senhor. Eu não posso ir anulando casamentos...
– Pode, sim! A senhora fez o casamento, desaguou todo aquele palavrório, me fez prometer o que nem ouvi, então, pode muito bem desfalar o falado, e eu desprometer o prometido (que, a bem da verdade, se prometi, foi sem querer). A senhora não me entendeu, meritíssima: na realidade, eu só queria me casar pra ter uma mulher relando em mim enquanto eu dormia um sono sossegado. Afinal, meu patrimônio sexual foi tombado, há muito, e não há lei que reverta isso.

SUA BÊNÇÃO, MESTRE URSULINO! DM 4/12/10

SUA BÊNÇÃO, MESTRE URSULINO!

Lêda Selma

A Academia Goiana de Letras instituiu 2010 como “Ano Cultural Ursulino Tavares Leão” em homenagem ao acadêmico que militou tanto na educação e na política, quanto na advocacia e, ainda hoje, ativamente, na literatura, sempre se destacando pelo talento e sensibilidade. Romancista de ponta, poeta de estações e cronista de verve cheia (que o digam suas crônicas no jornal O Popular) Ursulino é um intelectual de posturas claras e sérias, homem de invejável caráter e grandeza de espírito, e seu senso inovador jamais lhe permitiu abster-se de enfrentar desafios e adversidades. Tudo isso converteu-se em respeito e admiração de todos aqui e acolá.
Vários eventos, no decorrer do ano, reverenciaram o ilustre escritor, que presidiu, por 16 anos, com entusiasmo, competência e empreendedorismo, a Academia Goiana de Letras; como membro da Casa, é um dos mais assíduos.
Cidades como Crixás e Anápolis promoveram solenidades focadas na trajetória de vida e na obra literária do homenageado. Em Crixás, foram muitas as festividades e até uma escola ganhou seu nome. Em Anápolis, após saudado por vários oradores, em calorosas falas que realçaram seus feitos como escritor, professor, advogado, político e até fazendeiro, enfatizadas, naturalmente, suas notáveis qualidades humanas,
a prefeitura outorgou-lhe o troféu “Mérito da Cidadania”, distinção conferida apenas aos que se destacaram nas diversas áreas de desenvolvimento do município, com atuações marcantes em benefício da comunidade.
O ápice da sessão, entretanto, ainda aconteceria, protagonizado pelo prefeito Antônio Roberto Gomide, que propiciou a Ursulino o momento mais emocionante da solenidade: a revelação de que o nome de seu filho Tomás foi uma homenagem ao amigo de infância, Tomás, o primogênito de Ursulino, que se estrelizou há alguns anos, coincidentemente, em um 30 de setembro, no limiar da primavera. Tal surpresa mudou o compasso do coração ursuliniano.
Com a emoção à flor dos olhos, Ursulino Tavares Leão ofereceu o troféu à Lara, filha de Tomás, que o recebeu sensibilizada; em seguida, bastante comovido, enfatizou o significado e a importância de tamanha homenagem, invocando a lembrança de sua mulher Lena, partícipe de todos os momentos que construíram sua história, e a quem devota, como já é notório, além da imensa saudade, um amor à prova de tempo, de saudade, de dor e de morte. Lena eternizou-se no coração apaixonado de Ursulino Leão, que deixa a alma voejar pelo parnaso da poesia para reverenciar a mulher amada, muitas vezes sob as bênçãos verdejantes da fazenda São João, também personagem constante de suas crônicas.
A referida sessão, outra vertente das várias comemorações alusivas ao “Ano Cultural Ursulino Tavares Leão”, realizada no gabinete do prefeito anapolino, começou com música, na voz da cantora Goiana Vieira, e encerrou-se também com música, nos acordes do violão de Cláudio Lima, professor da Escola de Música da Prefeitura de Anápolis.
Após a solenidade, Nazaré, irmã do homenageado, convidou os acadêmicos presentes para um coquetel em sua casa – ressalte-se, delicioso! –, o que aconteceu numa atmosfera de alegria e de fraternização. “Leãozinho”, assim chamado carinhosamente na intimidade, estava feliz, e seus familiares e confrades, orgulhosos. O Ano Cultural, que ostenta orgulhosamente seu nome, dimensionou, uma vez mais, o prestígio desse renomado intelectual, que tanto dignifica a história sociocultural e política de Goiás.
Ah! em clima de euforia – claro!, o Verdão da Serra despertou de um longo estado letárgico, e caminha, em grandes passadas, para seu maior momento, marco histórico, a conquista do título de Campeão da Copa Sul-amerticana, como representante do Brasil! – faço, também, nesta crônica, minha homenagem ao especial amigo Ursulino, o querido Leãozinho, que tantas lições já me repassou nesses tempos de estreita convivência. E o curioso: embora as festejações sejam todas para o dileto confrade, a presenteada fui eu: Ursulino, num gesto máximo de afeto e carinho, transferiu-me a “guarda” de uma relíquia da língua portuguesa, presente de seu pai, em 15/6/1938, o “Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa”, de Cândido de Figueiredo, editado em Lisboa. Sem palavras, meu mestre! Apenas, peço-lhe a bênção.

O IMPREVISÍVEL FUTEBOL CLUBE -DM 27/11/10

O IMPREVISÍVEL FUTEBOL CLUBE

LÊDA SELMA

Há que se entender o futebol... Feito de raça e de graça, de poesia e de acrobacias, de sonhos e de frustrações, de balbúrdia e de silêncio, de peito a pulsar sob o distintivo, de paixão incondicional à camisa...
Há que se entender o torcedor... Generoso ou incondescendente, vibrante ou omisso, passional ou alheado. Seu combustível, a vitória. Sua felicidade, o grito de gol. Seu orgulho, o brilho de suas cores.
Há que se enfocar a ação de certos jogadores... Ora movidos por interesses pessoais, ora pelo dinheiro, ora pelo descaso, ora por seu ideal, ignoram, muitas vezes, o compromisso com o clube e o amor pela camisa.
Na final da Copa Sul-americana, está o Goiás. Um fato histórico. Um feito heroico. Um momento de devoção. De comoção. De louvor a Deus na voz sufocada de Harlei. No gesto, ainda em campo, de Rafael Moura, pedindo sangue e garra a seus companheiros. Uma alegria inusitada, que brotou do lodo, de um sonho murchado há três das, e que deu sobrevivência moral a uma nação desencantada e sofrida: a esmeraldina.
O Goiás Esporte Clube, o Verdão da Serra, conterrâneo de Cora Coralina e de Hugo de Carvalho Ramos, é o Brasil, com os tons e sabores do cerrado, vestido de verde e branco, lambuzado de pequi, cheirando flor de ipê. Um Brasil banhado pelo Araguaia, enfeitado pela Serra Dourada, pousado no Centro-Oeste, bem onde seu coração bate ao ritmo da catira.
Sem dúvida, um feito grandioso a classificação do alviverde goiano. E o instante é de comemoração. De emoções entrelaçadas. De orgulho renascido. Afinal, há uma semana, o Goiás tombou combalido, humilhado e com a dignidade esgarçada, após um ano de agonia, um ano em que alguns jogadores pisotearam sua história e enodoaram sua honra. Um ano em que vaidades se exibiram e se digladiaram num jogo de poder. Fragilizado, o Verdão arrastou-se, lesma claudicante, pelos gramados daqui e dacolá, envergonhando sua torcida, e deixando à mostra suas entranhas e machucaduras profundas. Isso não pode ser esquecido, assim, num bater de cílios, ou porque as lágrimas, momentaneamente, cederam lugar ao riso.
O time está na final da Sul-americana, parabéns!, mas também está na Série B do Campeonato Brasileiro, longe da elite futebolística. Aquele que sempre foi referência nacional, hoje, está relegado a um lugar que não condiz com sua tradição e, menos ainda, com críticas destrutivas, achincalhes e desapontamentos.
Durante meses e meses, o Goiás figurou nas páginas policiais e nas do esporte debochativo, ridicularizado, chacoteado (e chicoteado) pela imprensa e por seus adversários (de todas as esferas): isso é fato, e não pode ser subestimado. Apático, o time não reagiu, não ostentou sua dignidade, muito pelo contrário, expôs sua fragilidade em atitudes indignas de legítimos esmeraldinos e de profissionais competentes. Rafael Moura, corajoso e indignado, apontou os “inimigos” do Goiás, e Harlei, com a lucidez de sempre, referendou o companheiro, e trouxe à tona sua decepção. Dois esmeraldinos de coração, de alma, de atitudes, de fibra, lutadores incansáveis, que mostraram, dentro e fora das quatro linhas, respeito pelo alviverde e senso profissional. A garra de Marcão, nos momentos críticos dos jogos, emocionou-me sobremaneira, bem como a de mais um ou outro que, apesar das limitações técnicas, tentavam defender seu distintivo, e evitar a desonra esmeraldina.
O Goiás está na final da Sul-americana, fico envaidecida, porém, não me diminui a indignação por tudo o que aconteceu em 2010, como o rebaixamento; tampouco, cala-me a pergunta: por que só nessa copa os tais jogadores resolveram levar a sério a profissão? Por causa da visibilidade que uma competição internacional dá às suas carreiras? Baitas oportunistas!
É hora, sim, de dizer tudo isso; antes, talvez não fosse, pois não se pisa em quem agoniza, em quem está no chão mutilado e impotente. E não me chamem de desmancha-prazeres! O que digo tem a forma de alerta.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 20/11

PROFESSORA LOUSINHA CARVALHO: MATRIARCA TAMBÉM
DA EDUCAÇÃO

Lêda Selma

Mães são manhãs/ a colher lembranças/ deixadas nas frestas/ de tantos silêncios./ São fios de noites/ a cerzir saudades/ nos beirais do vento.// Mãe das sinas/ mãe dos caminhos/ onde brincam estrelas,/ sossegam temores,/ dormem silêncios,/ despertam manhãs.// Mãe não morre, estreliza-se.
Há perdas que deixam rastos vivos e indesmancháveis. A de um filho e de uma mãe, então... Eu que o diga... Para aplacar tudo isso, esta crônica, um tributo à minha mãe, a professora Lousinha Carvalho, baiana de Urandi.
Desde muito cedo, a bela mocinha já se mostrava vanguardista na arte de ensinar. E, lá para as bandas do sertão baiano, a única “filha mulher” de abastado e respeitável fazendeiro da região inicia sua saga de educadora. A cavalo.
Ainda com jeito de recém-nascida, a primavera goianiense saúda aquela família vinda do interior da Bahia: uma brava mulher, seu marido pernambucano, uma adiantada gravidez e duas filhas pequenas. Na bagagem, também uma trouxa robusta de sonhos e o desejo incontido de dar continuidade ao seu ofício de educadora. Assim, a jovem professora (título que sempre ostentou com desmedido orgulho), tão logo chega por aqui, retoma o exercício do magistério.
Vinte e seis anos após deixar a Bahia, recebe da Câmara Municipal de Goiânia o título de Cidadã Goianiense. Também a Assembleia Legislativa, em 2002, concede-lhe o título de Cidadã Goiana, forma justa de homenagear tanta dedicação na área educacional. Mas, mesmo oficializada sua goianidade, seu orgulho de baiana sequer foi arranhado.
Quarenta e dois anos de atividades educacionais, e a professora Lousinha aposenta-se, mesmo ainda com fôlego e competência para desempenhar o ofício para o qual se qualificou, aos 18 anos, quando interna do Colégio Imaculada Conceição, de Montes Claros/MG.
Uma vitoriosa, minha mãe! Mulher guerreira, de fibra, de coração em permanente estado de amor. Católica fervorosa e praticante, devota de N. Srª de Fátima, Santa Mônica e Santo Antônio (a cada dia 13, distribuía pães aos “pobres” do santo, como dizia), resignou-se quando perdeu o filho, à véspera do Natal, de forma trágica, e, pouco depois, dois netos jovens. Nem tanto sofrimento tirou-lhe o leme; respeitava os desígnios divinos, e enfrentava tudo com dignidade, galhardia, sustentada pela fé que a guiava. Uma bênção que Deus concedeu a seus quatro filhos, em forma de luz (tudo em que tocava reluzia e que continuará acendendo sonhos, abençoando-nos e velando a família.
Pois é, louros e adversidades compuseram os 89 anos da professora Lousinha, bem vividos, bem sofridos e bem vencidos, sempre com a dignidade dos fortes. Muitas tristezas, dores e perdas precoces entremearam suas conquistas, alegrias e vitórias. Apesar de tudo, a matriarca, patrimônio da Educação e do antigo Bairro Popular (hoje, Centro), jamais deixou arrefecer sua força, consolidada na fé sempre renovada na frequência à Capela Santa Mônica, dirigida pelos padres agostinianos, seus amigos de muitas décadas.
Anteontem, dia 18, minha mãe completaria 90 anos, e a festa seria ainda maior que a dos 80 e 85 anos. Tristeza e saudade fundiram-se, e fundiram-nos, nós, seus filhos. Mas seremos sempre consolados pela grandeza dos exemplos que nossa mãe nos deixou: garra, perseverança, integridade, sabedoria, religiosidade e amor. Tudo isso nos norteará as andanças pelos intrincados da vida.
À oportunidade, reitero o pedido que fiz ao vereador Anselmo Pereira e o estendo a seus pares: dar à praça em frente ao Colégio Estadual Prof. José Honorato, do qual minha mãe foi diretora e professora, além de vizinha por mais de 50 anos, o nome de “Professora Lousinha Carvalho”. Nem preciso ilustrar minha solicitação, pois todos sabem o tamanho do merecimento dessa mulher fantástica, educadora de primeira linha e uma das pioneiras de Goiânia.

domingo, 7 de novembro de 2010

PRESIDENTA OU PRESIDENTE? - JORNAL OPÇÃO - 7/10/10

PRESIDENTA OU PRESIDENTE?
Lêda Selma*
A ascensão de Dilma Rousseff à presidência do Brasil mexeu com o imaginário de muitos e com o vocabulário de outros, o que gerou polêmicas, dúvidas e, em consequência, tergiversações descabidas e conclusões temerárias.
Vários “lexicólogos” – que canastrões! – de plantão esbaldaram-se no ofício de disseminar desinformação aqui, ali, acolá. Assim, grassou pela internet, e pousou em meu endereço eletrônico, um e-mail intitulado Exceção Gramatical. Tal “exceção”, afirmava seu autor e ou difusor, a palavra presidenta. “Uma agressão ao pobre português”, “Invenção da Dilma e de seus sequazes”, “Coisas do Lula” – quantas asneiras apregoava o texto! Ignorância pouca é luxo, francamente!
Nem exceção nem agressão ou invenção (que rimas pobres e enjoativas, credo!). Afinal, a palavra foi dicionarizada há muuuuuito tempo! Em 1943, com aprovação unânime da Academia Brasileira de Letras, surgiu o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, do Prof. Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, cuja base foi o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia das Ciências de Lisboa (edição de 1940), após acordo entre as duas academias: a Brasileira e a Portuguesa. Nele, consta “presidenta – s.f.”. Em 1956, o termo figura na 1ª edição do Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, aquele de capa dura, grossa, preta, organizado por Francisco da Silveira Bueno, e patrocinado pela Fundação Nacional de Material Escolar/FENAME, órgão do Ministério da Educação e Cultura/MEC. Pois é, e naquela época, nem sonhávamos com uma presidenta, até porque, no Brasil, só em meados da década de 30, a mulher conquistou o direito de votar, bem entendido, se o marido, seu chefe e senhor, autorizasse. Presidenta? Nem no pensamento. Rainha, sim, do lar! Porém, visionária, a palavra estava lá no dicionário: “presidenta, s.f. (Neol.) Mulher que preside, a esposa do presidente”. Convenhamos, nesta última acepção, bastante curiosa; os outros dicionaristas também a adotam, todavia, não a consideram neologismo.
Nem de Lula nem de Dilma. A Invenção é da língua mesmo, sempre viva e mutável. Quem duvidar, consulte o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa/VOLP (publicação da Academia Brasileira de Letras), os dicionários do Aurélio, do Houaiss, do Antenor Nascentes, do Paschoal Cegalla, a Enciclopédia Delta Larousse...
Presidenta, sim senhor, com muita honra e autonomia, que fique claro!, defende-se o feminino de presidente, exigindo respeito e direito à vida e à legalidade. E com toda razão, ora! Que muitos a julguem um modismo, não lhe percebam atributos femininos, não a considerem bonita, charmosa, bem soante, que a sintam com ares de pernóstica, tudo bem!, mas daí a lhe negarem espaço, tenham paciência! Afinal, se se trata de um vocábulo correto, qual o inconveniente em lhe darem legitimidade? A palavra existe, e pronto! Respeito é bom e ela gosta.
Presidenta ou presidente, o Brasil, que mantém ainda fortes ranços machistas, elegeu a primeira mulher para o topo do poder, e isso é histórico. Então, que cada um faça uso da palavra mais condizente com seu gosto ou intimidade. Quem optar por presidenta, use-a sem susto, sem medo de errar, e sobreponha-se às críticas e ao preconceito, convicto de que nenhuma agressão à Língua Portuguesa o vocábulo perpetrará. A malfadada teoria da “exceção gramatical”, ah! essa, sem dúvida, é um acinte à presidenta, ora se é!
Agora, cá pra nós, acho mais bonita a palavra presidente. Mais suave, bem mais elegante. No entanto, presidenta é imponente, ressoa forte, tem algo de inusitado e muita personalidade. E então?
Bem, seja qual for nossa escolha, estaremos bem servidos. Além do mais, é instigante a possibilidade da variação, da troca do lugar-comum pela novidade. O usual, às vezes, torna-se sem graça, insosso...
Bem-vindos, pois, os dois vocábulos! E que Deus os proteja das polêmicas inócuas, e abençoe nossa presidenta, ou presidente, como queiram!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

CRÔNICA: PORTO DE GALINHAS - Sábado, 6/10/10

PORTO DE GALINHAS: NICHO DA BELEZA

Lêda Selma


Belo passeio, apesar de alguns vieses e reveses. Viagem com nuanças saudosistas, familiares, lá pelas bandas nordestinas, mais precisamente, Pernambuco.
O início, Porto de Galinhas, um encanto de lugar, mar de verde instigante (ai, meu Deus, por falar em verde... socorro! Piedade, Santo Expedido, todos os santos, anjos, arcanjos, orixás!!!), pois é, verde permeado de um branco espuma a colear imponente, às vezes, em forma de bailado, às vezes, em ritmo de contorções.
A origem do nome Porto de Galinhas, lenda ou não, remete-nos a um tempo sombrio, que tem em sua história capítulos de uma indignidade aviltante: o período da escravatura. Pois bem, dizem que o curioso nome surgiu após a abolição, quando os negros vindos da África entravam no Brasil, clandestinamente, por rota que se desviava do Recife, devido à fiscalização rigorosa, e rumavam para uma praia nas cercanias da capital, onde desembarcavam em engradados de galinhas-d’angola, para serem traficados e escravizados. Ao aportarem, bradavam os contrabandistas: “Tem galinha nova no porto!”. Daí, a denominação Porto de Galinhas. Baita ironia: antes, um lugar infernal. Hoje, um lugar paradísico. Um dos locais que Deus, por certo, escolhe para descansar ou para apreciar a magnitude de Sua criação, ostentada na mornidade clara daquelas águas transparentes, nas piscinas naturais, redutos de serelepes peixinhos multicoloridos, no balanço lânguido das jangadas deslizando sobre a verdice do mar, tudo sob um céu azul-turqueza que torna encantada a paisagem de um dos mais admirados balneários do litoral pernambucano, a 70 quilômetros de Recife, no município de Ipojuca.
Próxima parada, “Ricife”, como dizem os nativos, no emblemático bairro da Boa Viagem, cuja praia xará restringe-se, hoje, quase só a um belo cartão de visitas – xô, tubarão! O Hotel Atlante Plaza, coisa fina! E foi lá que, à noite, véspera do meu retorno a Goiânia, (antecipado devido ao 2º turno, afinal, queria participar da eleição de Dilma), a camareira, toda orgulhosa e doidinha para mostrar-me sua “importância”, disse-me, forjando um tom displicente: “Amanhã, vai ser um tumulto e tanto aqui. Eu cuido da suíte de Lula, e ele chegará logo no início da tarde, aí, é só correria”. Maximizei a função desempenhada pela moça e, então, ela não se fez de suplicada: “Sou muito amiga dos artistas da Globo, do Zezé Di Camargo, tenho foto com essa gente toda, até com Lula, homem simples, o pai dos pobres”. E, em ritmo de carreira, despediu-se com a convicção de que me impingiu forte impressão. Uma simpatia, a Maria do Carmo!
A visita a Caruaru, terra de meu pai, o almoço preparado por uma prima, as conversas sobre nossa família, tudo ungido por lembranças e saudades, construíram momentos tocantes e inesquecíveis. Uma viagem que me permitiu resgatar raízes paternas e conhecer, mesmo com atraso, histórias familiares.
Em Olinda, além da beleza e riqueza históricas, o som invisível e não, inaudível, do bloco de Alceu Valença, marcando o carnaval da sacada azul de seu sobrado. O frevo e o maracatu parecem vivos nas ladeiras.
Ah! voltarei a Recife, ao hotel Atlante Plaza. Parênteses: é sabido por todos que, não raro, tenho “brancos” inacreditáveis, distrações antológicas. Neste caso, o elevador, o cenário (após meu desjejum). Bom, entrei, seguida por dois senhores, um de cabelos grisalhos e o outro de cor morena. Cumprimentei-os, apertei o botão do 8º andar e, ao sair, disse-lhes alegremente: um lindo dia para vocês! Encaminhei-me à suíte, bati à porta, pois imaginava meu marido lá dentro (ele detinha o cartão) e, de repente, percebi alguém às minhas costas. Quem? O marido, para meu espanto! Intrigada, perguntei-lhe: uai, onde você estava? E ele, ainda mais desentendido: “No elevador, ora, subi com você!”. Meu Deus! – retruquei apalermada – então, você era o senhor de cabelos grisalhos...?!

sábado, 16 de outubro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 16/10 - DM

O MENDIGO E O ASSESSOR POLÍTICO


Lêda Selma


– De novo por estas bandas, doutor? – iniciou a prosa, o mendigo Safadino.
– De novo, amigo. E, como sempre, de carona com a correria.
– “Amigo”, é? Pois sim! Olhe, a pressa é inimiga da eleição, e o apressado pode comer derrota, não é mesmo? Afinal, de voto em voto, o candidato enche a urna...
– O amigo tem certa razão... Mas fazer o quê? O tempo é padrasto e não favorece ninguém com alguma benessee...
– Benesse, doutor? Eta palavrão gostoso para o paladar político! Tão mágico quanto as promessas eleitoreiras, né?
– Há de se prometer muito durante a campanha. Prometer o bom e o melhor. O eleitor merece. Além do mais, ele é ávido por promessas.
– Por promessas, doutor?! Não seria por ações? Compromissos? Verdades?
– Talvez, sim. Olhe: prometer é preciso. “Faz parte”, já dizia, sabiamente, um famoso big brother, lembra-se?
– Se lembro, doutor...! Mas certas promessas, “ninguém merece!”, já dizia a outra da turma. De volta ao assunto das promessas, é cada uma...!
– As promessas adversárias, naturalmente. Desleais com os eleitores, garantem o absurdo. Nosso candidato não; suas promessas são verdadeiras e sólidas. Em sua gestão, teremos o paraíso. O paraíso prometido por tantos, mas só possível com ele. (Bem, depois da eleição, o purgatório é uma saída) – arremata em pensamento.
– O paraíso, é?! Rum, com as promessas descabidas que tenho ouvido por aí...? Paraíso, só quando o cabra morrer e for recebido pelo Pai. Mesmo assim, só se tiver o saldo de merecimento aprovado por Ele, a tal ficha limpa. E, no caso, sem maracutaia...
– O amigo é muito cético, desconfiado, ora! Há de se separar o mau do bom candidato.
– Seu candidato é o bom...
– Sem dúvida alguma, é o melhor: homem de bem, só promete o que pode realizar, não engana os eleitores, não lhes subestima a credulidade...
– “Serra, serra, serrador, serra o papo do...”
– Que gozação é essa, amigo?! Estou enganado ou há certa ironia nessa sua lembrança de infância?
– Ah! o senhor conhece a musiquinha...! E ela vem a calhar, doutor, percebeu? E o papo a ser serrado agora é outro, também de um vovô, porém, um vovô careca, com um papo enorme e que, de promessa em promessa, vai crescendo, vai crescendo até estourar a paciência do eleitor... “Serra, serra, serrador, serra o papo do vovô...!”. A sugestão está dada, quem se habilita...?!
– As promessas são fundamentais para o candidato e impactantes para o eleitorado mais carente: transporte farto e de qualidade (cafezinho, ar condicionado, toalete, TV LED); moradia com suíte e closet; cestas nem um pouco básicas, ao contrário, recheadas de guloseimas finas; isenção das taxas públicas a todos os do salário mínimo; saúde de primeiro mundo, sem fila, postos confortáveis e com médicos renomados; escolas em cada bairro; contingente policial quintuplicado, assim como o salário; policiamento diuturno em todos os cantos da periferia. Tudo muito simples. E possível. E o principal: já no primeiro dia de governo.
– A síndrome do engodo contaminou o senhor? O primeiro dia mal dá pra festança do porre, isto é, da posse. Pareço leso, doutor?
– O que é isso, amigo?
– Quem lhe pergunta sou eu, ora essa! Como todo esse despautério pode ser feito no primeiro dia se até Deus careceu de sete pra fazer o mundo?! Um super-Deus, seu homem-candidato, é!?
– O amigo nem parece brasileiro que vive e sobrevive de esperança...
– Nos últimos anos, felizmente, não mais só de esperança. Minha patroa tem invocado a intercessão de Maria para que esse tempo continue, afinal, a Santa é mulher, mãe, e mulher sabe das coisas, doutor, pode confiar!
– Sossegue! Após a eleição, promessa vira esquecimento...
– É, doutor, as promessas enganosas agridem nossa inteligência. Arre! Só mesmo criando o PROCEL...
– PROCEL...?!
– Sim, o Procon do eleitor!

sábado, 9 de outubro de 2010

CRÔNICA DE SÁBADO, DIA 9/10 - DM

DESCOMUNICAÇÃO DAS BRAVAS

Lêda Selma

Tudo começou ainda na infância. O menino não tinha sossego. A tosse chegava num rompante, troteava peito adentro, escapulia boca afora, um suplício que o sacolejava impiedosamente. Zelosa, a mãe não se descuidava: simpatias, benzeções, preces, promessas, tudo o que a fé e as crendices lhe apontavam como solução.
Já dizia sua trisavó: “Mais vale uma má esperança que um bom desengano”. Apoiada nisso, partiu para a lida das crendices: capturou um peixe, cuspiu em sua boca, e o devolveu ao rio, vivo, como mandava o ritual. Por precaução, engatou logo uma outra: escreveu a Ave-Maria num papel, introduziu-o no patuá de cor indefinida, e pendeu-o no pescoço do cachorro; ali ficaria até que o coitado do animal se libertasse dele naturalmente. Todavia, a mais estapafúrdia das doidices, com o fito de acabar com aquela tosse ladrante, veio pouco tempo depois da morte do cachorro (com patuá e tudo o mais). Não é que a aflita mãe colocou o menino para tossir no ouvido da imagem de São Braz? Sim, desassossegando o santo, ele haveria de milagrear em favor do filho, acreditava. Por analogia, deduziu: se o santo era especialista em engasgo, entenderia de tosse convulsa, a tal tosse comprida, afinal, eram áreas afins, meio aparentadas, e, além do mais, todo santo tinha por obrigação ser bom em conhecimentos gerais.
A palavra de ordem, portanto, para aquela desesperada mãe, “tentar”. Sem medidas. Sem economia de sacrifícios. Tudo valia a pena se a tosse não fosse pequena (desculpe-me o trocadilho, Fernando Pessoa), e a do menino era enorme. O filho precisava livrar-se daquele “regougo infernento”. Se necessário, flagelaria São Braz, sem misericórdia, até que agisse de forma competente.
Alguns meses corridos, e a tosse, já nem tão comprida, espaçava-se e, aos poucos, enfraquecia-se. O menino, apenas, vez ou outra, tossicava, “tossinha de cemitério”, afirmava a vizinha. E a mãe comemorava seus feitos com preces de gratidão. A coqueluche, finalmente, estava derrotada em tempo recorde. E graças aos santos e às mandingas.
Passaram-se os tempos, o menino cresceu, virou um homem atarracado e franzino, de pele bacenta e cabelos esporádicos (modelo nem ficam nem desocupam a telha). De repente, ei-la, a tosse, ressurgida com novo status: bronquite asmática. “Culpa da tosse comprida mal-curada”, retumbava, incansável, a avó. “Nem tudo foi feito. Faltou cortar um pedacinho da parte branca da pena do urubu, introduzi-la num amuleto e pendurá-lo no pescoço do coqueluchento”, arrematava insistente.
O certo é que a tosse, de volta, não dava trégua àquele homem de olhar vermelho, olhar de meu Deus, cadê meu fôlego?! Um fôlego cambaleante, raquítico, feito bêbado à mercê da intuição para encontrar o caminho de casa. Um fôlego de deixar qualquer um sem fôlego.
Ano após ano, Troncoso continuava com crises de asmas, cansaço e falta de ar. Aos arrancos, a tosse não o deixava dormir. Uma consumição dividida com a mulher que, conforme prometeu ao marido, instigada pelo padre, no dia do casamento, lhe seria “fiel na saúde e na doença”. Casada, pois, em comunhão também de tosse, fazer o quê, senão uma simpatia? Colheu um punhado de alecrim, deixou-o secar e, depois, amassou-o. Em seguida, colocou-o em um cachimbo virgem. Cada vez que a asma se manifestasse, o marido tossegoso fumaria o alecrim.
Não tardou muito, o médico foi chamado; e intrigou-se com o cachimbo sobre a mesinha de cabeceira. Pensou logo no tabaco.
– Olhe, tente fumar uma vez por dia.
– Fumar, é? Uma..?! Vou tentar, vai ser difícil, mas se é o doutor quem diz...
Dez dias depois, e Troncoso pior.
– Foi complicado, doutor, mas consegui fumar só um.
O médico, ao auscultar-lhe os pulmões, confirmou a piora.
– Doutor, acho que a culpa é do cigarro.
– Sem dúvida. Foi justo por isso que lhe pedi que diminuísse as fumadas...
– Diminuísse?! Fiz foi aumentar, doutor! Afinal, eu não fumava, só fumei agora por prescrição médica, ora!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Crônica publicada no Diário da Manhã, sábado, 2/10/10

DE VOLTA, SAFADINO

Lêda Selma

Nada escapa aos olhos-lupa do astuto Safadino, o velho mendigo trapaceiro e vivaldino, o tal que possui assessora, celular com TV, cartão de crédito e de visita, ar condicionado com controle remoto, carro (sem dúvida, não popular), muita intimidade com certos políticos, pinta de politizado e mania de intelectual.
Com tanta fama adquirida, não surpreendeu os colegas ao criar o mesalão, um derivado do original, mas com característica própria: mesada semanal – matreira inovação. Safadino não ficaria à margem dessa baita mamata, ora, e, tampouco, deixaria sem melhorias a ideia original! Justo ele, chegadinho a uma corrupção?
Nem Safadino suportou as promessas esdrúxulas e carnavalescas de alguns políticos, durante o Horário Eleitoral Gratuito. E, convenhamos, nada há de mais hilário no momento. Novidade? Nem ela, a própria. Tudo velho e insosso. Blablablás comuníssimos. Candidatos com embromações senis. Estratégias de bengala. Discursos reumáticos.
Na verdade, Safadino cansou-se das balelas e embelecos dos canastrões da política na arte de representar. “Cada figura...!” – injuriou-se, ao desligar sua LCD, 52 polegadas, adquirida com mensalinhos amealhados da boa-fé dos passantes. E, antes que a estupefação de todos se lhe mostrasse “invasiva e ultrajante”, encheu o peito e a voz: “Mendigo também gosta de luxo! Pensam que coisa boa é privilégio só de rico? Ih...! já foi o tempo, ó!”.
Safadino, apesar do nome e da postura rotineira, indignou-se com a avalanche de baixarias que enodoou a internet e a mídia nacional, sob a chancela do denuncismo, nas últimas semanas; não que tudo fosse inverdade, óbvio que não!, porém, na carona das pseudoverdades, inúmeras calúnias foram disseminadas pelos veículos de comunicação mais afeitos ao poder da notícia a qualquer preço. Como a comédia e o drama, não raro, completam-se, algumas denúncias margearam o ridículo, tornaram-se até risíveis, e alvoroçaram os incautos. Algumas, como as do “Jornal Serra Abaixo”, Safadino divulgou: “Foi Dilma quem furou os olhos do Assum Preto!”. “Joãozinho sem braço é mais uma vítima da Dilma”. “No escândalo do Paraíso, Dilma deu propina à Macieira para que ela cedesse sua filha (a maçã) a Eva para corromper Adão”. “Exclusivo: Dilma induziu o Todo-Poderoso à criação do Pecado Original”. “Segundo Noé, Dilma é a responsável pelo Dilúvio”. “Está comprovado: Dilma, Ministra de Hitler, deflagrou a 2ª Guerra Mundial”. E, com seu jeito matreiro, Safadino contou-me como tudo começou:
– VEJA: queriam que Dilma, nesta ÉPOCA de campanha, fosse apenas uma FOLHA perdida no GLOBO, à mercê de serração. Não deu certo, naturalmente. Nem poderia, ora! Assim, sem se intimidar, ela serrou os bicos dos tucanos, que ficaram num ESTADÃO lastimável, pôs Lula a tiracolo e PT saudações! Primeiro turno neles!”.
Crítico incomparável, estilo “não olhe o que eu faço e não faça o que eu olho”, e diante de tantas e tantas embófias eleiçoeiras, Safadino resolveu fazer seu protesto, após assistir a um daqueles debates. E desceu o verso:

Em tempos de eleição,
tudo se torna normal:
promessas, sorrisos, abraços,
“bondade” dos candidatos,
sua “rica” história de vida,
sua “pobreza” ancestral,
todos eles, uns santinhos,
distribuindo beijinhos
(tadinhas das criancinhas!)
e tudo é só carnaval!

Para que os tais se elejam
é preciso muito cobre...
Coitadinhos...! O que fazer...
se todos eles são “pobres”...!?!

Pobres são, ah! de espírito,
Ih...! nem Deus dá jeito nisso!
E por falta de propostas,
campanha vira fuxico.
E não há careca, meu nego,
que resista a tudo isso.