sábado, 28 de abril de 2012

Diário da Manhã - 29/4/2012

E SÃO PAULO, LÁ, ASSISTINDO A TUDO...

Lêda Selma

Não me lembro se por motivos culturais, gastronômicos, sociais ou familiares, estava em São Paulo quando, numa tarde-noite úmida e friorenta, conheci o italiano Giovanni Bruno, pequeno homem de estatura humana grandiosa, poeta dos versos de vinhos, musicados pelo espocar do champanhe de nobre linhagem, artesão das massas, anfitrião da noite, maestro da alegria. E, Santo Dio, só mesmo alguém tão especial seria capaz de batizar seu restaurante com o poético nome “Il sogno di Anarello”! Saravá, Dom Giovanni Bruno, o acendedor incansável de sonhos!

Lá, no tradicional e famoso restaurante, frequentado por celebridades de todas as patentes, brasões e pedigris, ouvi casos curiosos, reminiscências de infância, estripulias de verdadeiros “anjinhos” no fulgor da meninice. E, entre gargalhadas e gozações, um deles mostrou porque havia sido o menino mais castigado da rua. Pelo menos uma vez na semana, ganhava uma tremenda pisa do pai; pisa, taca, surra... que, de tão doída, fazia da salmoura um carinho dos deuses. E foi o próprio quem deu o ponta-língua inicial:

– Estávamos brincando de esconde-esconde. Meu irmão caçula, sonso, mas julgando-se muito esperto, foi se esconder atrás de um monte de palha de milho, fiado na certeza de que dava sua cartada de mestre e, por conseguinte, não seria descoberto. Logo, percebi seu feito e tratei de exibir minha tenacidade: corri até a cozinha, apanhei uma caixa de fósforos e ateei fogo nas palhas. Moço, o moleque pulou feito cabrito, rasgou a roupa às pressas e correu pelado feito filhote de cruz-credo, gritando qual um desvalido: “Mãe, tão querendo me empamonhar, socorro!”.

Ainda com o riso aceso, um outro rememorou:

– E aquele malfeito, na véspera de São João, quando você amarrou um buscapé no rabo do cachorro daquela vizinha ranzinza e fuxiqueira? O pobre, desentendido, desabalou numa cachorreria tão doida, latindo um choro esquisito, que nem mais sabia quem era: foguete ou vagalume? Por mais que tenha vivido, morreu com essa dúvida.

Se morreu... – pensei, penalizada. Aliás, nem o mais competente cachorrólogo seria capaz de lhe estancar tal trauma. O infeliz, naturalmente, imaginou estar, no mínimo, enfoguetado. Que maldade! E justo com um cachorro?! Ora, todos sabem, o coitado é foguetófobo! Se naquela época já atuassem os defensores da classe, Deus me livre, o menor infrator, no mínimo, seria apreendido.

Pois é, várias tardes e noites cumpliciaram encontros divertidos. Em algumas, São Paulo voltou às suas raízes: vestiu-se de garoa. E nos vestiu com casacos. E nosso frio, com vinho. Ah! e as lembranças, com saudades! Eta terra de excelentes opções culturais e de comedorias não à prova de gula.

Bem, como nada neste mundão sem eira nem algibeira é perfeito, andei desafinando na música e tropeçando no passo. E só conto o sucedido por força de coação de algumas testemunhas do fato, e que, de um modo ou de outro, já foram alvo, dizem, de minha “indiscrição felina”, ao torná-las personagens de meus escritos. Como a melhor desfeita é o destaque, entrego-me, parodiando certo adágio: um dia é da criação e o outro da criadora. Ih! o meu chegou... Ah! um lembrete preventivo: sou morena de nascença!

Tudo por causa do meu celular: de humor instável, emburrou e preferiu a mudez. Relegada à condição de usuária de telefone público (a propósito, “orelhão” é fumante? Só pode: e o fedor de tabaco!), iniciei minha aventura, procurando o orifício de entrada do cartão. Difícil, mas encontrei, após vasculhar todo o perímetro telefônico, claro! Então, parti para a outra fase: o encaixe. E encaixei o bendito, ou melhor, o maldito. Uma, duas, cinco tentativas e... cadê a linha?! Nenhum som da sumida. Intrigada, busquei socorro. E, para minha grande surpresa, ouvi, entre risos e ironia:

– O “orelhão” não aceita cartão de crédito, criatura! Só o telefônico, este aqui, ó!

Momento poético:

O medo me induz ao fosso,
o sonho, à ousadia.
No medo, guardo silêncios;
no sonho, pecados.

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