sábado, 14 de abril de 2012

Diário da Manhã - 15/4/2012

CAPRICHO DA SANTA
Lêda Selma

Quando criança, católica praticante por formação e opção. Adulta, optei pela modalidade semipraticante, por preguiça e descrença, reconheço. Devota de Nossa Senhora de Fátima, a preferida de minha mãe (que saudade!), dizem, deveria adotar, como minha protetora, Nossa Senhora da Abadia, que divide o15 de agosto comigo. Até tentei aceitar a sugestão, mas ainda não criei vínculos ou estreitei alguma intimidade com a Santa. Assim, não uso o tráfico de influência, em nome dessa afinidade natalícia, para conseguir favores na Instância Superior. No entanto, como Nossa Senhora, na verdade, é uma só, apenas o nome varia de acordo com a fé ou os interesses de cada localidade, por tabela, quando a necessidade acocha pra valer, peço socorro à Mãe Maior, e atenda-me a que estiver mais livre, pronto!

Tenho mais liberdade, mais confiança, mais abertura e pontos em comum com Maria (inclusive, uma Sexta-feira da Paixão) do que com o Todo-Poderoso. Além do mais, ela é mulher, mãe e, por certo, compreende melhor as angústias e os problemas femininos e maternos. Por isso, bato longos papos, ou melhor, monólogos com a Mãe de Jesus. Por falar em seu filho, gosto muito dele, lamento todo o sofrimento que lhe foi imposto pelo próprio Pai (a humanidade o mereceu...?!), e não me faço de rogada caso precise de sua intercessão.

Com os evangélicos, discordo em alguns pontos. Por exemplo, a afirmação de que o católico adora imagens. Francamente! Isso me irrita e me leva à indignação. São contra as imagens sacras, mas e as esculturas, as fotos espalhadas em suas casas nos porta-retratos, independente de serem de filhos, amigos, animais? Também, são imagens, ora, o que não significa, de forma alguma, que sejam adoradas, quer por católicos, quer por evangélicos, ou melhor, protestantes (que o diga Lutero, ex-padre agostiniano), pois evangélicos são todos os que aceitam e seguem os evangelhos! Portanto, o fato de alguém possuir uma ou mais imagens não quer dizer que as adore, que fique bem claro!

O fanatismo tira-me do sério, independente do credo do fanático.Não o tolero mesmo. Mas, como há os que atraem bêbados, chatos e outros similares, também tenho um ímã que atrai fanáticos. Um deles, ela, no caso, esturricou meu humor justo no lançamento do meu livro Até Deus duvida! Chegou, possessa, à mesa em que eu o autografava e, dedo em riste, chispas nos olhos e badalo na língua, começou esbravejar: – Como tem coragem de suspeitar de Deus?! Isso é coisa de satanás! O Senhor não duvida de nada, Ele sabe tudo, e vai castigar sua ousadia, vai condená-la pelo desrespeito! Jogue fora esse amontoado de ofensa ao Senhor, se quiser escapar das labaredas do fogo!”. Fixando-a, ironizei: – Vou arriscar. De repente, o inferno está lotado, minha passagem não foi ainda providenciada, ou talvez Deus queira ler o livro antes de me sentenciar... Assim, os livros ficam, e você vai! Só falta escolher: sozinha ou acompanhada? Pela polícia, claro!

De volta ao assunto das imagens, há um fato interessante, acontecido recentemente. Uma amiga ‘evangélica’, pessoa evoluída e consciente de sua fé, adoeceu gravemente. Então, eu e outra amiga dissemos-lhe que pediríamos à Nossa Senhora de Fátima que a acompanhasse durante o tratamento, mesmo sabendo-a descrente do poder da santa, pois sua igreja não admite a santidade da mãe do Senhor. A enferma mostrou-se agradecida e emocionada com nosso carinho, e aceitou-o de pronto.

Tempos depois, minha parceira de oferecimento foi a Portugal e trouxe-lhe um ímã com a imagem de Nossa Senhora de Fátima. A presenteada, sem piscanejar, colocou-o na porta da geladeira.

Certo dia, o pastor avisa-lhe que a visitará no fim de semana. No afã de evitar mal-entendidos e chateações, pediu à filha que guardasse o mimo. E veio a surpresa: a Santa embirrou e não saiu do lugar. Modelo ‘daqui não saio, daqui ninguém me tira!’. Nenhum esforço, tática ou instrumento auxiliar, nada conseguiu demovê-la da decisão de lá permanecer. Mais uma tentativa, mais outra, e a Santa impassível, decidida, fazendo-se de sonsa, alheia a todo aquele furdunço.

Já se passaram semanas, e Maria, altiva, não arredou o pé da geladeira. Como se dissesse, vencedora: diga ao pastor que fico!

2 comentários:

  1. Muito bom!acho ela adorou essa geladeira.

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  2. Pois é, Mirella, ela não só gostou como fixou morada na geladeira, e agora, amiga, ela não seirá por nada. Chegou, gostou, ficou. Obrigada pela visita. Beijocas. Lêda

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