sábado, 21 de janeiro de 2012

Diário da Manhã - 22/1/2012

UMAS E TANTAS NO CONSULTÓRIO MÉDICO

Lêda Selma

– Primeiro paciente da esturricante tarde – e que paciente! –, sujeito simplório e objetivo, logo me encarou sem acanhamento:

– Tá pra mais de meia hora que tô de prontidão esperando o senhor. A serviceira tá toda parada e eu aqui com a desimpaciência me cavucando a cabeça.

– Pois bem, vamos tentar recuperar o tempo perdido. Em que posso ajudá-lo?

- Dor nas costas e sono sumido, doutor, é meu incômodo.

Para segurança de todos, exames complementares. A clínica não indicava qualquer problema, mas nunca é demais um pouco de cautela, acautelou-se o médico.

Uma semana depois, e com a mesma pontualidade e impaciência, retornou o paciente ao consultório, ostentando os resultados:

– Pode me dar a sentença, doutor! Meu incômodo tem cura ou é caso perdido?

– O senhor está é com uma saúde porreta, parabéns!

– Como é que é, doutor? Não tenho nada, nadinha? Mas como? Perdi todo esse tempão aqui, já por duas vezes, gastei um dinheirão com os tais exames, desenterei minha paciência, peguei fila pra tirar guia, e o senhor, assim, sem mais nem menos, me dá a notícia assim, com a maior calma? Se avie, doutor, e me arrume uma doencinha que seja, desde que não me comprometa. Não pega nem bem eu ter ficado tanto tempo na sala de espera e depois chegar aqui e o senhor dizer que tá tudo bem, e me deixar sair sem uma receitinha, ora! Por favor, doutor, pra tudo há um jeitinho... E então?!

Certa vez, uma senhora terceirona na idade, carregando o peso dos quilos, batom vermelho a exibir uma boca com notáveis ausências dentárias, chega ao consultório e começa a responder às perguntas de praxe. De repente, olhar enigmático, embora decidido, disfarça uma recusa:
– Idade, doutor? Não domino muito bem tal assunto. E, pra complicar, ando se esquecendo de muita coisa. Problema de memória. Vamos pular isso e passar pruma pergunta mais fácil.

Sugestão aceita, outras perguntas rotineiras e mais um momento inesperado:

– Meu estado civil? Quer dizer, se sou mulher de alguém? – indaga a setentona, já com a voz adoçada de malícia, espichando para o canto do olho um olhar cheio de gulodice. – Ah! sou casada não! Sou é viúva pra mais de dez anos. Meu marido, o falecido, tibum! Bateu o prego na cerca. Mal súbito. Bem, voltando ao meu estado de viuvez... tô disponível, desimpedida e novinha em folha. Também, tanto tempo assim, sem servir ninguém, né doutor? Mas ainda se lembro – e como! – de muita coisa e, se precisar, tô com a lição em dia, é só tirar a prova. Queres...?

Coisas do arco da velha! E haja paciência para o doutor...

– É só um checape. Estou bem. Uma dorzinha de cabeça, de quando em vez, que costumo atribuir à má digestão, ao estômago, enxaqueca, mal funcionamento da vesícula ou do intestino.

– Bem, vamos aferir a pressão...

– Ih! meio desregulada, mais pra alta; culpa da taquicardia ou da falta de ar, bronquite asmática, sabe?

– Certo, vamos aferir a...

– Tenho sentido umas agulhadas no pé da barriga, pernas doloridas e inchadas; pode ser ovário, talvez rins, embora minha circulação não seja lá das melhores...

– Sei, vamos aferir...

– Umas tonturinhas, doutor, me incomodam um pouco; taxa de glicose um pouco elevada, quem sabe? Ah! calafrios, sudorese... bom, sintomas da menopausa, nada preocupante.

– Vamos...

– Ruim é meu apetite; e, às vezes, sinto certa fadiga, palpitação, mal estar generalizado, coisas do estresse, claro!

– Então...

– Me peça uns exames, doutor, questão de rotina, pois estou bem, a não ser o cansaço da vista e uma fisgadinha no ouvido vez ou outra. Mas tudo sob controle, isto é, quase tudo: a insônia atazana meu sono e a afta, minha língua, tanto que, doutor, quase não consigo falar...

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