domingo, 29 de maio de 2011

DIÁRIO DA MANHÃ - 29/5/11

DA SERENATA, À EXCOMUNHÃO*


Lêda Selma

Baiano de Brumado, recém-formado médico, aquele jovem de estatura pequena, sorriso graúdo e olhos cor de sertão, saiu daquelas lonjuras e apeou em Goiás, lá pras bandas do norte, com a juventude acesa, os sonhos em disparada e a coragem como timoneira. E chegou já aprontando confusão. Oxente, e foi?!
– Esse sujeito tem cara, voz, andar e jeito de comunista – falaram, a esmo, algumas línguas direitistas.
O padre arrepiou. O prefeito tremeu. O juiz da comarca quase perdeu o juízo. Foi o suficiente para o jovem médico subverter seus planos e debandar com as ideias desarrumadas na mochila e os bolsos subnutridos por falta de alguns contos de réis. Aí, a coisa perigou desandar, pois o mundo parecia rodar de ré, em plena contramão, depois do fatídico mal-entendido. Também, pudera: nordestino com estampa de foragido e com pinta de comunista?!
Após longa caminhada, em companhia de solidários amigos, esgueirando-se aqui e ali em busca de novo destino, outra apeada. Um lugarejo pequeno, com jeito de acolhedor, a primeira impressão. E a condição de ficante começou a tomar forma.
– Pode me indicar uma pensão? – solicitou o jovem forasteiro a um goiano sertanejo que, de chofre, informou-lhe a inexistência de tal luxo.
– Que mau começo, hem, Senhor do Bonfim?! – protestou um dos amigos.
– Ora, rapaz, falar no Padroeiro justo agora, no momento em que eu ia sugerir que a gente se remediasse, por esta noite, na zona? – resmungou o outro.
– Vou é procurar algum baiano por aqui, e ver o que consigo – arrematou o jovem médico.
E achou. Hospedagem combinada e estipulada em alguns contos de réis mensais.
– Problema solucionado. Pelo menos, um mês está garantido – pensou. Depois, ele que me mande embora, caso eu não arranje o dinheiro. Ah! se eu fosse mesmo comunista... – lamentou sem convicção.
O tempo correu, fungou, comeu poeira até que, em certa madrugada, uma mulher inicia o trabalho de parto. Ih! trabalho mesmo teve o recém-formado médico, chamado às pressas e por pura obra das circunstâncias. Resultado: cesariana. Para honra e glória da macheza do marido, abastado fazendeiro, o ansiado “filho-homem”. Para alegria do médico, bolsos gordos, bem nutridos.
A intervenção do doutor, já sem o estigma de desacreditado, mereceu farta comemoração: fogos e serenata, o que atraiu várias quengas, cuja existência o padre ignorava. Na missa de domingo, o pároco excomungou o doutor-herói: era ele o próprio capeta, o criador das tais mundanas, argumentou.
Dias depois, uma febre altíssima, seguida de tosse e chiadeira no peito, acamou o tal padre. Conduzido de novo pelas circunstâncias, o médico, um tanto ressabiado, porém, decidido, chegou à casa paroquial. Antes, pigarreou, respirou fundo, pôs na testa o sinal da cruz e, então, bateu à porta:
– Ô de casa!
– Quem é? – sussurrou o enfermo.
– O capeta!
Arrepiado, o padre benzeu-se com o crucifixo e apontou-o para a porta. Aturdido, pediu à empregada que desse entrada ao irreverente chegante. Apesar do desconforto, recebeu-o sem muita animosidade. Ah! o crucifixo?! Em riste!
Acudido com o maior zelo, o padre, aos poucos, desvencilhou-se da desconfiança, e ensaiou um tímido sorriso. E o doutor ali, a auscultar-lhe o peito e os pulmões, a aferir-lhe a temperatura, pressão arterial, a dar-lhe pancadinhas no abdômen... Diagnóstico: pneumonia dupla!
– Tome isso, é remédio batuta! Voltarei amanhã. Se carecer antes, é só me chamar.
– Agradecido, doutor! A propósito, quanto lhe devo?
– Quanto? A devolução de minha alma, branquinha e desexcomungada, padre! E trate logo de pagar a dívida, porque, caso ocorra mudança nos planos divinos, é melhor o senhor partir com a consciência já limpa, visse!

*Do livro Hum... Sei não!, em homenagem ao escritor Mário Rizério Leite, meu amigo, conterrâneo, confrade e personagem real desta história. Detalhe: “Quem conta um conto...”. Ao republicá-la, homenageio-o, postumamente: Dr. Mário faleceu há pouco.

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