domingo, 29 de maio de 2011

DIÁRIO DA MANHÃ - 22/511

ESBARRÃO SUSPEITO
Lêda Selma

Os idos, ih!... bem idos...! Limiar da década de 70, tempo do fusca, sonho de consumo dos emergentes da classe média; tempo de ditadura vestida de farda – terrível fardo para os brasileiros! –; tempo de funcionário do Banco do Brasil em alta cotação também no mercado doméstico: era o objeto de desejo dos pais, dos aspirantes a sogros e, mais ainda, das donzelas ávidas por serem elevadas à categoria de madame. Ah! e tempo da Seleção Canarinho subir à copa do mundo como tri!
Foi durante um evento cultural que dois candidatos a artista se conheceram. E o curioso: por força de um esbarrão. Ele, ainda noviço na arte da fotografia, absorto, admirava seu trabalho exposto, com a inquietude dos estreantes, e não viu a jovem bonita e distraída, de pele e olhos cor de sereno, chegar à sorrelfa, feito sombra, abraçada ao violino. Por pouco, um desastre. Felizmente, o violino saiu incólume. Eles... bem, nem tanto... Quem disse que o destino não vive de plantão?
Alguns bailes, tardes musicais, e batucadas depois, o namoro. E o tempo, acostado na pressa, cumpria sua sina, à revelia de gostos e desgostos, de esperas e expectativas e daqueles dois apaixonados que continuavam carpindo sons, cores e sonhos, com pincéis, cordas e condões.
Certo dia, uma briguinha de pequeno porte, daquelas especialistas em atear fogo à mornidade da rotina, deu o primeiro passo rumo ao casamento. Jeito estranho, porém, nem por isso, invulgar, de se ativar um “sim”. E, a partir de então, tudo começou a tomar formas. E o tão esperado dia desceu de um sol gordalhufo que anunciava muito calor e nenhum aceno de vento.
A cerimônia, bem simples. E a noite, para fazer bonito, pôs sua imensa e sedutora lua lá no meio da piscina, cercada de flores, luzes, acordes.
Como de praxe, o noivo chegou com a pontualidade dos ansiosos, ah! e com a sobriedade dos despojados! No sorriso estreito, indícios da emoção a caminho. Os olhos vistoriaram logo o melhor lugar para o tripé: a beirada da piscina.
Finalmente, a noiva. Para não fugir à tradição, atrasada, saiu do carro pelas mãos do atarantado pai. Linda, esbanjava toda a sua morenice esguia no vestido longo e de um vermelho rutilante. Ah! e o complacente decote a exibir um colo de insinuantes dotes e de encantos muitos! Na cabeça, flores do campo. Nas mãos, só o violino.
Enquanto tudo se ajeitava, o noivo postou-se, compenetrado, à frente do tripé. Mexeu em algo, ajeitou um detalhe, como se testasse sua paciência ou algo ainda escaramuçado, e arrumou a flor branca na lapela.
Não me deixei confundir. Todo aquele aparato inusitado instigava-me a intuição. Imaginei de pronto que uma cena incomum prometia grandes surpresas.
Sorrateiramente, a noiva, abraçada ao violino, aproximou-se do amado, e teve a ideia carinhosa de surpreendê-lo, pelas costas, com um chamego. Foi aí que mais um esbarrão desconcertante se interpôs entre eles, e o pior, arremessou-a piscina adentro.
Uma gritaria sem precedentes, “acode, acode”, e a noiva, totalmente encharcada, naquele vestido murcho e de vermelho alterado, erguia o violino como se o hasteasse; e, desesperada, implorava pelo imediato resgate. À moda atabalhoado, o noivo, entre perplexo e em transe, ativou os pulmões e, aos gritos:
– Nem ousem tirá-la daí. Eu os proíbo! E você, querida, fique como está, por Deus! Esta é minha grande chance como fotógrafo, e vou agarrá-la com flashes e focos. Será minha obra-prima! Que o casamento espere um pouco!
E, entre dentes, o noivo, que vivia seu momento fotográfico de glória, comemorou: Nem só de “sim” vive um homem; também de sorte! Hum!...que eficiente meu esbarrão proposital...! Verdadeiro furo fotográfico. Tudo pelo amor... à arte, naturalmente!

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