domingo, 3 de julho de 2011

DIÁRIO DA MANHÂ - 3/6/11

E QUE OUTRO JEITO...?!

Lêda Selma

Festeira por vocação e prazer, desastrada por descuido ou por destino, ela, a moça de cabelos em espiral marrom-tamarindo, desgrenhados por natureza, é a própria festa. Desinibida, espirituosa e com uma frase de efeito sempre na agulha da língua, prontinha para saltar matreira e tagarela, a moça, balzaquiana que mal disfarça a injúria pela tal condição (“Ah! se esse Balzac já não estivesse morto, eu, pessoalmente, me encarregaria de finá-lo!!!”), nem por isso perde a chance de colocar em permanente sentinela seu par de olhos amorenados e futriqueiros (“Vai que aparece, de repente, um senhor pedaço de bom caminho, um desses desconsolados da vida, e olha eu aqui na espreita, com o ombro armadinho pra dar o bote. Depois, o resto se junta ao ombro e aí, sai de perto!”).
De festa em festa, de barzinho em barzinho, a moça de riso arreganhado e festivo não dispensa uma geladíssima loiruda (“Podem me privar de tudo – bem, de tudo é força de expressão, claro! – mas não me privem desta gostosa. Epa! Que as loiras não se assanhem, pois só com ela divido a boca”).
Uma boa mesa, bons companheiros e um papo divertido são suficientes para que sua insônia induzida vare qualquer expectativa noturna ou diurna e expurgue a rotina tão característica dos tais dias úteis da semana (“Não sei por quê, sempre preferi os dias inúteis; para mim, são da maior utilidade”).
De tirada em tirada, seu lado espirituoso mostra-se cada vez mais acintoso e farturento. Mas não só disso vive uma donzela nem tão convicta assim. Também, de trapalhadas.
Certa vez, aproveitou-se da ausência prolongada do irmão mais velho e, sem o menor constrangimento, surrupiou-lhe o carro de estimação, à moda empréstimo aleatório, e rumou para a praia; antes, uma passada pelo posto para abastecer o beberrão. De repente, o encontro com velhos conhecidos e um estoque de assuntos interessantes. Daí a uma esticadinha ao quiosque praiano mais perto, um salto. Lá pelas tantas, e após tantas, lembrou-se do carro. Porém, não, de seu paradeiro. Para apressar as coisas, antecipou uns pulinhos e a eles anexou uma súplica fervorosa ao milagreiro São Longuinho. Nada. Recorreu a Santo Antônio. Nem sinal de sua boa vontade. Com pouca paciência e muita chance de, em breve, se dar mal, não titubeou: prometeu aos santos “um ano de abstinência alcoólica – só refrigerante”, jurou! –, caso fosse achado o perdido.
À tarde, o sumido foi localizado pela própria memória da infratora. Resgatado, no posto de gasolina, a lembrança da promessa veio à tona e, com ela, a conclusão: “A pressa é inimiga da precipitação”. O jeito, maquinar uma forma de negociar a promessa com os santos, por intermédio do padre da redondeza. Naturalmente, negaça à vista:
– Pois é, padre, precipitei-me. No auge do desespero, prometi aos santos abster-me de refrigerante durante um ano. De tão mixuruca, nem sacrifício é. Que tal algo mais consistente, mais dificultoso... Uma cesta básica! – completou eufórica.
Indignado com a “negociação” tentada com os santos e com ele próprio, o padre esbravejou:
– Para que respeite mais aqueles que foram privilegiados com a santidade e com um lugar especial ao lado do Pai, para auxiliá-Lo em determinadas tarefas, eis sua penitência: dois anos de cesta básica mensal a crianças carentes, e, pelo mesmo período, abstinência de refrigerante, ah! e também de álcool.
De volta à rotina, resolveu, após o jantar, expor algumas fotos à apreciação familiar. De repente, o irmão, estupefato e desentendido, vociferou: – O que meu carro está fazendo aqui nesta foto?! E ela, dissimulada: – Só pode ser criatividade desses fotógrafos excêntricos, ora! Eles inventam cada imagem...!? Deixe-me ver a foto... Não lhe disse? Veja que doidice: aqui, no lugar do carro, existia antes uma árvore. Coisas de licença poética, não, não, fotográfica, só pode ser.

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