terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Diário da Manhã - 18/12/2011

QUANTOS FURDUNÇOS JÁ PROVOQUEI!


Lêda Selma


Que sou distraída, que me desligo às vezes, que sofro uns apagões inacreditáveis, que perco tudo dentro e fora de casa, é sabido, aliás, mais que isso, é notório. Tanto que, não raro, sou lembrada pelos óculos que, durante mais de hora, procurei desesperada e, ao final, encontrei-os no lugar de onde não saíram: meus olhos. Sapatos, então... Com eles nos pés, já desmontei um guarda-sapatos enorme no afã de encontrá-los.

Outro fato, para muitos inconcebível, minha entrada no elevador de um hotel em Recife, e cuja subida empreendi ao lado de dois cavalheiros, um moreno e outro de cabelos grisalhos, os quais alegremente cumprimentei com simpático e turístico ‘bom-dia para vocês!’. O detalhe intrigante: o de cabelos grisalhos era meu marido (há 41 anos), mas só me dei conta, ao ser abordada por ele, desentendido, à porta da suíte: “O que deu em você, no elevador?”. Confusa, confessei: não o reconheci, ora! Dizem que esse é meu recorde. Será?!

Alguns creditam tal status àquela do casal que, a meu pedido, me seguiria, após sairmos de uma festa, até a porta do prédio em que resido. Tudo bem, e daí, qual o problema? Bem, não haveria nenhum se eu, a alguns quarteirões de casa, instigada pelo medo que me impingia a sensação de alguém estar me seguindo, não houvesse acionado a polícia. Isso mesmo, a polícia! Pois é, acionei-a. Sob a alegação de que certo carro preto (melhor, afro-descendente), dirigido por um suspeito, acompanhado de seu cúmplice, estava no meu encalço com o determinado propósito de assalto ou sequestro. Ainda bem, a luz alta do carro do ‘provável’ assaltante/sequestrador, seguida de chamada para meu celular (“missão cumprida, boa-noite!”), desmanchou tamanho equívoco. Embora aliviada, nem me lembrei de agradecer a gentileza do casal. Só dia seguinte. Até hoje, os dois desacreditam daquele meu “antológico branco”, como o catalogaram.

Um furdunço e tanto promovi, convenhamos. Aliás, promovo. Afinal, não sou parcimoniosa na arte de perpetrá-los. Tanto que, de outra feita, minha filha incumbiu-me de segurar uma sacola, na qual havia um par de sapatos de grife, recém-comprado no shopping, enquanto efetuaria um pagamento no caixa eletrônico. Solícita, acatei o pedido e dirigi-me a uma loja; dei uma olhadinha básica nas vitrines e coloquei, displicentemente, a incumbência, ou seja, a sacola, sobre o balcão e deixei meus olhos e minha curiosidade desfilarem ali e acolá. De repente, percebi uma sacola sozinha sobre o balcão, modelo esquecida, abandonada mesmo, e avisei à moça do caixa: alguém esqueceu esta sacola aqui. Não me bastasse isso, resolvi perguntar às pessoas da vizinhança: esta sacola é sua? E sua? Ei, está procurando uma sacola? Ante tantas negativas, sugeri à funcionária da loja que recolhesse a esquecida até que a dona fosse buscá-la.

Minha filha voltou, e, ao nos dirigirmos à escada rolante, a surpresa: “Mãe, cadê minha sacola?!”. Acordei. Hum... a tal sacola...! Ih! estou perdida! – concluí. Refeita do susto, o jeito, dizer-lhe: corre, filha, pois, se ninguém decidiu portar-se de forma desonesta, e se a atendente aceitou minha sugestão, pode ser que ainda encontre sua sacola.

O pior foi a reação da moça do caixa que, em estágio máximo de estranheza e cheia de suspeitas, esbravejou: “Como assim, sua mãe deixou a sacola no balcão, se ela, de corpo presente e em viva voz, perguntou à loja inteira de quem era a maldita?! E você me vem com esta agora?! Francamente!”. Fui salva, e a reputação de minha filha também, pelo comprovante de compra da sapataria, ufa!

Nenhum comentário:

Postar um comentário