sábado, 13 de agosto de 2011

Diário da Manhã - Dia 14/8/11

O INCÊNDIO

Lêda Selma

Parêntesis: este texto, dedico à escritora, Profª Maria do Rosário Cassimiro, minha amiga e confreira na AGL, a quem o Conselho Estadual de Educação homenageou, na última sexta-feira, pelos 60 anos de dedicação às causas educacionais. Referência da Educação, não só em Goiás, é uma das mais atuantes conselheiras do referido Conselho. Parabéns, professora!
Minha homenagem também aos pais pela data que lhes é dedicada. Que todos os dias sejam “Dia dos Pais” e que as bênçãos divinas os unjam diariamente.
Novamente ele, o velho Antônio, baiano de Urandi. Espirituoso, cativante, de uma simpatia à prova de idade, de humor e circunstâncias, era exímio trocador. Falante, como convém a um inventor e contador de histórias, notabilizou-se pela imaginação geradora de fantásticos “causos”, como dizia. Pois é, o velho nonagenário não poupava seus ouvintes de mais uma história estapafúrdia. Ah! e o detalhe comum: tudo acontecido em sua época de solteiro; assim, fazia-se dispensável a comprovação do fato por alguma testemunha. Eta embromador espertalhão!
De riso sempre matreiro, afeiçoado a uma cachaça das boas. Segundo seus ensinamentos cachacísticos, “um trago de manhã, bem cedinho, cura gripe e resfriado; um, à tarde, é bom pra reumatismo, e outro, à noite, é tiro certo na fadiga e em doença macha, aquela de homem que se esbaldou na zona. Se a dose for dupla, descontada a cota do santo, ressurge até moleza de sujeito cuja macheza perdeu o prumo. É mesmo milagreira, é pau e tombo a danadinha, mas olhe, tem que ser pinga das boas, com jeito e sabor de mulher safada e treiteira, aí sim, a gostosa escorraça até essa tal de AIDS”.
Pois bem, numa noite de lua gorda e faceira, cheia também de mistérios, encantos e luxúrias, o velho Antônio, que teve tão pouco tempo para o sonho e tanto para o trabalho na roça, chega ao boteco para a trivial visita vespertina. Reativadas as lembranças, retoma o passado, recria fantasias e, com a emoção recarregada e ungida pela “moleca fogosa”, ou seja, a polivalente cachaça, veste de fantasia mais uma história, desafiando o real em favor do absurdo:
– Eu era solteiro ainda. Uma noite, Nossa Senhora das confusões! Fogo que não acabava mais. Parecia o inferno saindo das profundas. Gritei que nem um louco: valha-me Deus, estou perdido desta vez! O pequeno cômodo em chamas, chibatado por labaredas pra lá de dez metros, era o guardião de minhas reservas: duas bandas de leitoa, réstias de alho e de cebola, sacos de sal, carne de sol e almôndegas na banha e farinha de macaxeira. E o fogo, maluquecido, corria de um lado pra outro, trepava no telhado, crepitava, uma visão de doer até os olhos da alma e o peito. Fechei os olhos, cochichei com meu coração, já desabalado qual meliante em fuga, ou foragido da seca, aprumei a coragem e entrei pra ver os estragos.
– E a proporção do incêndio: destruição total? – a pergunta coletiva.
– Acho que foi milagre, só pode ter sido! Quando entrei no galpão queimado, quase morri de espanto: a leitoa tava assada – crocante! – ; a carne de sol, cozida – cheirando a mulher no jeito – e a farofa, então, ah! uma delícia! Tudo bem temperadinho, no ponto! Não tive escolha: jantei de novo, lá mesmo, eu não ia perder uma comidinha supimpa daquelas, preparada pelas mãos do Pai, que eu nem sabia cozinheiro.
– Fala, velho embromador! – suplicava um ouvinte, rateando a voz de tanto rir –, conta preles como o senhor lida com a morte...
Zombeteiro por demais, e com o respaldo de seus tantos, e tantos, e tantos anos, atende o pedido, já garantindo que a morte lhe tem muito respeito, e, desconfia, até um certo apreço, “acho que a traiçoeira até tirou meu nome da sua fatídica agenda de serviços”. E, mandando a modéstia “lá pras bandas de pra lá de bem depois”, como costuma dizer, vangloria-se, pela ducentésima vez, de suas artimanhas:
– Não morro fácil não. Tenho um feitiço infalível que engana e espanta a macabra. É pau e tombo! Quando ela insiste em me aporrinhar os miolos, encho o nariz de simonte...
– Simonte...?! Que diabo é isso? – quis saber alguém.
– Amostrinha, rapé, ora essa! Como dizia, encho o nariz com a tal, e não paro mais de espirrar. É que a morte morre de medo de espirro, num sabe? E enquanto estou espirrando, a diaba não se aprochega, fica longe, que ela num é besta nem nada.

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