terça-feira, 29 de junho de 2010

DE CARONA COM O ARAGUAIA

Julho tem cheiro de Araguaia. Tem ritmo de águas rebolantes. De barcos riscando desenhos no dorso do rio, ao som da roncadura de seus motores. Julho tem gosto de verde molhado. De sêmen das aves em revoada de amor. Tem jeito de saudade confinada nas areias que escondem pegadas de silêncios e de amores perdidos. Julho tem odor de natureza no cio. De sol a cavalgar pelos confins das manhãs, como um grande girassol à mercê do vento. Julho tem lua cheia que se esgueira pelas matas e, nua, se banha no rio, feito cortesã seduzida pela noite. E tem estrelas de crinas suntuosas, e barrancos debruçados sobre margens alcoviteiras, e madrugadas abarcando sonhos, sentimentos travessos...
Minha tralha está pronta: vara, molinete, anzóis, iscas, sonhos, caneta, papel e emoção estocada. Agora, é só pegar o caminho do Landi (árvore de folhas cheias de nervuras, flores alvas e madeira forte, também conhecida como jacareúba), que o Rancho Apolo me espera, lá no alto do barranco onde o deus do sol também se arrancha. Ele e toda a natureza que o rodeia exuberante, reverdejando verdes desbotados ou murchos. E a beleza do rio, vestido de paetês e a exibir suas formas sinuosas, coleando feito serpente gigante embalada pela mansidão das horas.
É tempo do milagre da conjunção entre homem e natureza. Tempo de festa das cores, dos vôos, dos cantos. Tempo de andar de barco e, à noite, enchê-lo de luas e de estrelas. Tempo de se deixar tocar pela placidez da água que tanto enleva e terapeutiza. Tempo de reverenciar o rio e toda a sua prole. Tempo de pescar alegria a bordo do Araguaia.
Julho me lembra vida, sobretudo. Nascimento. Maternidade grávida de sol. Espoucar de sonhos. Fascínio do desafio. Luzes. Festa. Choro com som de vida. Julho me lembra férias escolares. Passeios. Viagens. Mar. Julho me lembra aniversário. Churrasco. Alegria ao ponto. Coca-cola gelada. E me lembra, também, saudade. De um menino adorado que se eternizou aos vinte e um anos. Um menino fanático pelo Goiás e pelo Flamengo. Que amava o Pantanal e o Araguaia. E também a poesia. Um menino que chorou todas as vezes que o Brasil perdeu o penta, mas, que, certamente agora, da copa da estrela mais alta e cintilante, torceu pela Seleção e comemorou tão sofrida conquista. Um presente de aniversário, filhote, o penta. Embrulhado com verde-amarelo.
Pois é, Júnior, mais uma vez, aqui está sua mãe revivendo aquele 27 de julho tão único e tão feliz. E a relembrar tantos outros igualmente felizes. Aqui, da sacada do Rancho Apolo, admirando os encantos deste caudal majestoso e de altivo porte. E o milagre da maternidade recompõe o tempo: aninho você em meu colo e lhe apascento os sonhos ao som de uma cantiga de ninar, aquela sua preferida. E já a bordo do Araguaia, vejo minha saudade misturar-se às suas águas, enquanto mais um pôr-de-sol anuncia o espetáculo que começa a cada recomeço.
Dói muito, filho, um 27 de julho tão sozinho de você, feito um rio de águas vazias. Mas, sei, por aí, a comemoração é especial. Muita algazarra, muita folia, som alto e muita bagunça. Uma réplica daqueles aniversários festejados aqui.
Que outro jeito, filho, senão recordar!? O irreversível, aprendi, é passagem sem ponte, é rio intransponível e sobre o qual não se pode navegar. Então, parabéns, meu menino! Que Deus o abençoe e conforte, mais uma vez, esta mãe ainda tão desconsolada.

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